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Tacacá, tucupi,maniçoba,camu-camu, jambu... Esses nomes indígenas fazem parte de uma culinária praticamente desconhecida fora da sua região de origem: a Amazônia.Trata-se de um mistério para boa parte dos brasileiros, assim como a floresta Amazônica, muito mais visitada pelos estrangeiros que pelos turistas locais.Mas, se você ainda não conhece, vale a pena descobrir essa cozinha rica em sabores, cores e aromas, tão exuberante quanto o cenário que a cerca. Seus principais ingredientes vêm do que a natureza oferece: frutos, folhas e raízes com gosto e aspecto muitas vezes exóticos para nós; uma enorme diversidade de peixes de rio, preparados segundo técnicas dos ancestrais indígenas; farinhas, gomas e caldos feitos a partir da mandioca; e pimentas das mais variadas, tanto em cheiro como em ardor. Embrenhar-se na gastronomia amazônica é uma expedição rumo a um admirável mundo novo.
Originalmente feita sem sal, açúcar e especiarias, a culinária local ganhou novos temperos com as influências estrangeiras ao longo do tempo. O açúcar e o sal só foram conhecidos após o contato com os europeus. “A cozinha do Norte é uma convergência que reúne tradição local, acréscimos e criações das vertentes européia e africana, além de outros componentes, como as culinárias japonesa, libanesa, italiana e alemã, que chegaram pelas imigrações ou pelas migrações de nordestinos que vieram viver o apogeu do ciclo da borracha”, diz o antropólogo Raul Lody em Culinária Amazônica O Sabor da Natureza.
A base da culinária amazônica é a mandioca, consumida pelos indígenas desde antes da chegada dos portugueses. Quem visita a região é testemunha: não há uma casa de ribeirinhos que não tenha uma plantação de mandioca e uma casa de farinha. Sua importância é explicitada por uma lenda sobre a origem do alimento. Diz a tradição que existia uma índia de pele branca chamada Mani, que tinha o poder de falar com as plantas. Quando Mani morreu,ela foi enterrada numa oca de sua tribo, para ficar próxima aos parentes.Nesse local brotou uma planta com as raízes brancas da cor da índia morta. Os índios acreditavam que, alimentando-se daquela raiz, estariam sob a proteção de Mani, a que foi enterrada na oca.Por isso,decidiram homenageá-la dando a ela o nome de “manioca” ou “mandioca”.
É fácil entender por que a mandioca é tão valorizada pelos índios e caboclos. Ela está presente em quase todas as refeições. É usada para fazer a farinha que acompanha o peixe ou a carne no almoço e no jantar. No café da manhã ou no lanche da tarde, a mandioca está no beiju e na tapioca, que podem ser comidos com manteiga, leite condensado ou coco ralado. Uma delícia que, só de lembrar, dá água na boca. A folha da mandioca brava é moída e usada na versão local da feijoada: a maniçoba. Sim, eles têm uma feijoada. A diferença é que no lugar do feijão eles usam a tal folha. Os outros ingredientes são os mesmos da feijoada tradicional, inclusive a carne de porco.Mas o processo de cozimento é bem mais lento.“Para tirar o veneno, a folha é cozida por sete dias. É uma verdadeira slow food”, diz a paraense Iolane Tavares, dona da Frutos da Amazônia, especializada em produtos da região. Em Belém do Pará, a maniçoba é servida na época do Círio de Nazaré, em outubro. “A cidade toda fica cheirando a maniçoba”, conta Iolane, que vive em São Paulo há 17 anos. Outro prato tradicional da festa religiosa é o pato no tucupi.A ave é servida num caldo amarelo feito do líquido da mandioca.
Um componente fundamental da dieta amazônica são os peixes de água doce, como o tucunaré, o tambaqui, o jaraqui e o filhote. O mais conhecido de todos é o pirarucu, que habita o rio Amazonas e seus afluentes. Esse gigante das águas chega a atingir 3 metros de comprimento e a pesar 250 quilos. O chamado “bacalhau brasileiro” tem uma carne saborosa e é preparado de diversas formas: cozido, frito, assado ou em forma de moqueca, sempre acompanhado, é claro, de uma boa farinha de mandioca, além de limão e pimenta. Há uma infinidade de pimentas nativas. A cheirosa, por exemplo, dá gosto e cheiro aos pratos, mas sem arder. A pimenta-de-cheiro tem uma ardência suave, é amarelada e muito usada na cozinha paraense. Já a muripi é verde e típica do Amazonas.
O moquém ou defumação é a forma mais tradicional de preparar o peixe. A técnica já era conhecida pelos viajantes europeus do século 16. Em 1557, o pastor francês Jean de Lery descreveu: “Os selvagens preparam a carne à sua moda, moqueando-a; (...) enterram profundamente no chão quatro forquilhas (...) formando uma grelha de madeira. Nela colocam a carne cortada em pedaços, acendendo um fogo lento por baixo”. A técnica é usada até hoje. Iolane lembra que, quando criança, viajava de barco com a família pelo rio Tapajós. “Meu pai e os amigos saíam para pescar. Quando voltavam, cavavam um buraco na areia, espetavam o peixe e o deixavam defumando.” Os ovos e a carne de tartaruga também são apreciados. A pesca e a caça de alguns animais, no entanto, são controladas pelo governo e só podem ocorrer em certas épocas do ano, respeitando o equilíbrio ecológico. No caso de animais em extinção, são proibidas.
As frutas e sementes da região são uma atração à parte.Cerca de 80% das árvores da Amazônia são endêmicas, ou seja, só existem lá.Muitas oferecem produtos que há milhares de anos são consumidos localmente, mas que só recentemente começaram a ser descobertos pelo resto do Brasil e por outros países.É o caso da castanha-do-pará. Rica em selênio, um mineral antioxidanteque bloqueia moléculas indesejáveis chamadas de radicais livres, a castanha combate o envelhecimento. Nos Estados Unidos ganhou o nome de brazilian nut. Já o açaí, veja só, é conhecido como brazilian berry. Ele é consumido no mercado norte-americano como um produto energético e tem sido objeto de pesquisas para o tratamento do câncer.
Na região amazônica, as frutas nativas são transformadas em caldas, pastas e licores e usadas na produção de sorvetes, sucos e bombons. Em sorveterias como a tradicional Cairu, do Pará, há uma infinidade de sabores de frutas típicas, como o taperebá, o murici, o buriti,o cupuaçu e a graviola. O açaí, que no Sul é uma pasta doce,no Norte é um prato salgado, consumido com farinha de mandioca, camarão seco, peixe frito ou carne-seca. Processado artesanalmente, ele é vendido em casas de família. As bandeiras vermelhas colocadas em frente às residências são o sinal de que tem açaí fresquinho,pronto para ir à mesa.
Se na Bahia o prato típico vendido em barraquinhas é o acarajé, no Norte é o tacacá, consumido no final da tarde nas praças e ruas. A iguaria é uma espécie de sopa feita com tucupi, camarões secos e folhas de jambu. Estas últimas são responsáveis por deixar a boca com a sensação de dormência. Servido numa cuia quando está fumegante, o tacacá faz suar ainda mais quem vive nessa região de clima quente e úmido. Já o Big Mac regional, bem mais saudável que o similar da cadeia de fast food, é o chamado X-Caboclinho, um suculento sanduíche de pão recheado com queijo coalho e fatias de tucumã (fruto de uma palmeira). Em Manaus, os moradores comem o X-Caboclinho no café da manhã.
Os melhores lugares para se comprar os ingredientes são as feiras e os mercados. Logo que o sol nasce, chegam as canoas repletas de farinhas, frutas, peixes frescos, legumes, ervas e especiarias para abastecê-los. É possível encontrar esses produtos tanto no mercado Ver-o-Peso, às margens da baía do Guajará, em Belém, como no Mercado Municipal de Manaus, à beira do rio Negro. A natureza está presente não só na culinária, mas também nos utensílios feitos de barro, de madeira e de fibras. Um dos mais tradicionais é a cuia, que nada mais é do que a casca dura da fruta da cuieira sem o miolo e polida com a lixa da escama do pirarucu.Mais natural, impossível.Alguns chefes de cozinha já descobriram o potencial dos ingredientes amazônicos. Autor de Por uma Gastronomia Brasileira, o estrelado Alex Atala utiliza itens como a tapioca e a pupunha em pratos ultrasofisticados em seu restaurante Dom, em São Paulo.
Se você ficou com vontade de experimentar a comida amazônica, a dica é uma só: visite a região. Nada substitui a experiência de conhecer uma culinária em seu local de origem. Por causa da concorrência entre as companhias aéreas, as passagens estão mais baratas e ficou mais fácil chegar a cidades como Manaus e Belém. Mas, se isso não for possível, procure em sua cidade. Parte dos produtos está chegando ao resto do país. Além do guaraná, do açaí e da castanha-do-pará, hoje se pode encontrar, em mercados municipais, peixes como tucunaré e pirarucu. Lojas especializadas, como a Feira Moderna, em São Paulo, vendem o sorvete Cairu. Outras, como a Frutos da Amazônia (também na capital paulista), comercializam biscoitos e geléias. Nos supermercados, a tapioca já pode ser comprada em saquinhos. E que tal experimentar um restaurante de comida regional? Eles são poucos, mas existem.“Num guia com 2 mil restaurantes, você encontra uns 30”, afirma Yone Yamassaki, dona de um deles: o Suruí, localizado na zona oeste de São Paulo. Pode apostar: você só tem a ganhar com a riqueza desses sabores tão nativos e ainda tão desconhecidos em boa parte desse imenso Brasil.
• Alfavaca:Tempero que lembra o manjericão.
• Aluá:Bebida feita com farinha de arroz ou milho torrado, fermentada com açúcar em potes de barro.
• Camu-camu:Fruta pequena que tem quatro vezes mais vitamina C que a acerola e 30 vezes mais que a laranja.
• Chicória:Tempero verde usado no preparo de pratos regionais. Não confundir com a hortaliça de mesmo nome existente no sul do Brasil.
• Filhote:Peixe de água doce. Quando adulto, chama-se piraíba.
• Jambu:Erva usada na composição de pratos típicos. Ao ser mastigada, provoca um leve tremor e dormência nos lábios e língua.
• Muçuã:Cágado de água doce que mede de 20 a 30 cm de comprimento. É encontrado com freqüência na Ilha de Marajó. Sua carne é muito apreciada.
• Murici:Fruta utilizada no preparo de doces, sorvetes e sucos.
• Pirarucu:Peixe de água doce que habita o rio Amazonas e afluentes. Imenso, chega a pesar 250 kg. É considerado o “bacalhau brasileiro”.
• Taperebá:Em outras regiões é conhecido como cajá. É um fruto comestível usado em geléias, sorvetes e refrescos.
• Tucumã:Fruto de uma palmeira. É ovalado, esverdeado e amarelo quando maduro, com uma polpa carnuda envolvendo um caroço preto.
• Tucunaré:Peixe com até 60 cm de comprimento e 4 kg de peso.
• Tucupi:Sumo extraído da mandioca. Deve ser bem cozido para perder a toxicidade. É utilizado em diversos pratos regionais.
Fontes: Culinária Amazônica o Sabor da Natureza (Senac), Guia Philips Amazônia e Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa.
LIVROS
• Culinária Amazônica O Sabor da Natureza, Arthur Bosisio, Senac
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