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Poxa, desculpa. Eu sou meio mal-educado mesmo. Estreei esta coluna no mês passado e nem me apresentei já cheguei falando, reclamando, alugando o seu ouvido.Vamos fazer direito este mês, tá? Prazer, eu me chamo Denis, sou jornalista e trabalho como diretor de redação da revista Superinteressante. Como qualquer jornalista (e, cada vez mais, como quase todo mundo), tenho uma vida corrida, confusa, meio sem horários, sem tempo livre, cheia de reuniões, olheiras e estresse.
Foi por isso que me escolheram para escrever para vocês. A idéia não é que eu dê “lições de vida” mesmo porque, com essa minha vida confusa, não posso me arvorar a ensinar nada para ninguém.Mas talvez eu possa dar umas dicas, compartilhar umas aflições, contar umas histórias. Não tenho condições de “iluminar seu caminho com a intensidade da minha sabedoria”, seria ridículo. O máximo que eu sei fazer são umas gambiarras mas quem disse que uma pitada de improviso não serve para dar alguma luz?
Um exemplo.Tem épocas em que o ritmo de trabalho fica tão louco que não dá tempo para mais nada. Saio do trabalho tarde da noite, cansado, querendo comer e dormir e, quando acordo, já passou da hora de ir trabalhar. É horrível. Às vezes eu perco a noção do tempo, confundo um dia com o outro, esqueço o que eu fiz ontem, de tanto que minha vida fica parecendo com uma sucessão de tarefas e sempre atrasado.
Eu tenho uma gambiarra que, se não resolve o problema, pelo menos me ajuda a conviver com ele: ando de bicicleta.Acordo atrasado, pego a bicicleta e vou trabalhar. Saio do trabalho atrasado, pego a bicicleta e vou para casa. Claro que não é uma solução sensacional, definitiva, é só uma gambiarra. Solução mesmo seria mudar de vida, ir buscar os meus sonhos, na unha e na garra. Um desses sonhos, por exemplo, é subir nessa mesma bicicleta que me traz para o trabalho e dar uma volta ao mundo, ao lado da bicicleta da minha namorada, a Joaninha (outra que eu esqueci de apresentar em minha primeira coluna...). Sei lá se um dia vamos fazer isso mesmo, às vezes acho que é fácil, só uma questão de decidir e arrumar as malas. Às vezes acho que é impossível, nunca vai acontecer. Tudo bem, é só um sonho, todo mundo precisa de um para seguir em frente, ainda que ele demore décadas para se realizar ou não se realize nunca.
Enquanto não tomo coragem, pelo menos vejo um pouco da minha cidade passar pela bicicleta. Cumprimento o jornaleiro, me divirto ultrapassando os carros parados no trânsito, toco minha buzina barulhenta para animar as ruas, paro galantemente para as meninas atravessarem, passo pelos buracos empinando a roda da frente, subo nas calçadas, dou cavalo-de-pau. E pedalo forte, para chegar suado e ofegante. E entrar no trabalho com a sensação de que alguma coisa divertida e intensa aconteceu comigo entre um dia cheio de rotina e outro. Funciona.
Denis Russo Burgierman tem sonhos como todos nós. E está pedalando bastante para alcançá-los. gambiarra@abril.com.br
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