![]() |
![]() |
Depois de levar um empurrão de um amigo, Clara, nossa filha mais velha, disse muito séria para o garoto: “Limite!” Certa de suas palavras, seguiu brincando. Clara aprendeu a estabelecer seu limite na Tearte, pré-escola de São Paulo que nos inspirou a reunir um grupo de pais e montar uma escola comunitária em Paraty. Lá as crianças aprendem a resolver os conflitos com os colegas mostrando os limites das atitudes que estão fora do que foi estabelecido como permitido. Os adultos reforçam o conceito o tempo todo e as crianças aprendem que limite é coisa séria.
Gostoso ver nossa menina que ainda não completou quatro anos lidando com uma questão que eu mesma não equacionei. Quantas vezes não me pego dormindo pouco, sem comer direito, trabalhando demais sem entender por que os resultados não me satisfazem.
Passar da consciência à ação leva tempo. Não é de hoje que sei que uma das minhas dificuldades é dosar o quanto me dedicar a cada projeto. Quando decido fazer uma coisa, mergulho de cabeça e coloco tanta energia nessa direção que não sobra nada para as outras áreas da minha vida. Foi assim quando virei empresária e só dava atenção ao lado profissional e outra vez com a dedicação à família quando saí da agência de publicidade em que trabalhava para viver a bordo de um veleiro com meu marido e minha filha.
Hoje estou mais consciente, mas ainda repito esses padrões.Mal começamos o projeto da escola comunitária e novamente me vejo usando todo o meu tempo disponível para fazer esse projeto dar certo. Todo dia tem mutirão para pintar paredes, cortar grama e costurar almofadas. A lista de tarefas é grande, os pais fazem a maior parte do trabalho para diminuir custos e viabilizar a participação de crianças de baixa renda.
As conseqüências são velhas conhecidas minhas tarefas se acumulam, fico exausta e sem energia para curtir o momento.Observo o processo e penso que só agindo sobre minhas dificuldades posso ajudar nossas filhas a reconhecer seus limites. É preciso reconhecer um limite para superá-lo.
O contato com a pedagogia tem me ensinado muito sobre o papel do adulto na educação das crianças. De zero a 6 anos, em especial, a criança absorve o comportamento, as atitudes, o modelo dos pais.
No livro Quintal Mágico, de Dulcília Buitoni, que conta a história da Tearte, gosto do trecho que identifica a participação do adulto no estabelecimento dos limites da criança.Mostrar respeito por si mesmo, evitando situações de perigo. Mostrar respeito pelo ambiente, ensinando as crianças a não arrancar folhas, a tratar o lixo e cuidar dos animais. Ensinar o respeito pelos outros quando ouve uma história, a atenção ao correr quando há pequenos no caminho.
É desse tipo de ensinamento que uma criança dessa idade precisa. Há escolas e pais preocupados em alfabetizar os pequenos cada vez mais cedo. Acho que o caminho é educar os pequenos para a vida e não para o mercado ou vestibular.
Sandra Chemin, publicitária, confessa que ficou espantada ao ouvir a filha Clara dar limite para a mãe durante uma briga. www.santapaz.com e semdestino@abril.com.br
Conheça a edição deste mês folheando a revista aqui no site
Destaques da edição
Edições anteriores
Assine a revista
Folheie a edição