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Quem não tem filho fica meio espantado com a capacidade de pais e mães entenderem o choro dos pequenos:“Como vocês sabem se é cólica, fome ou calor?”. O fato é que, com o tempo, a gente consegue saber por que choram nossos filhotes a não ser quando eles mesmos não sabem o que querem, o que não é tão raro.
Mesmo ciente de que não ouviria resposta nenhuma, várias vezes me peguei perguntando para uma filha de um ou dois anos de idade:“Mas o que é que você quer, criatura?”.Tem horas que o nenê quer mamar e não mama, quer colo e não pára quieto, quer dormir mas não dorme.Assim que começa a ter necessidades um pouco mais complexas, passa por essa experiência de sentir falta de alguma coisa e não saber o que é. Ou quer tudo ao mesmo tempo e ainda precisa aprender a escolher ou abrir mão.Tem sono mas não quer perder um minuto da brincadeira, quer farra mas anseia por sossego. Não saber falar direito atrapalha um pouco, mas... A gente sabe falar (e fala até demais) e entra em parafuso também.“O que é que você quer, criatura?” é uma pergunta que volta e meia me faço, ou tenho vontade de fazer a alguém crescido.
Não devia ser difícil descobrir o que se quer mas é! Nossos desejos são complexos, contraditórios, confusos.Queremos ajuda para tomar decisões,mas resistimos a interferências. Queremos colo e proteção, mas não temos coragem de confessar nem a nós mesmas. Queremos largar tudo, tanto quanto queremos abraçar mais responsabilidades. Queremos desistir e insistir.
Eu sou do tipo que não tem tanta dificuldade para tomar decisões sérias quanto para fazer escolhas banais, como descobrir o que quero fazer com o tempo livre no fim-de-semana fico sofrendo sem saber se prefiro não fazer nada,arrumar a casa, ficar com as filhas ou ir ao cinema.
Não dá para voltar ao tempo em que nossos desejos eram simples.Um tempo do qual nem somos capazes de lembrar. Queríamos colo, mamar e dormir, não ter dor de barriga nem de ouvido. Só isso. Agora que é possível querer muito mais, pelo menos não precisamos chorar esperando que alguém seja capaz de decifrar o código (sinceramente, acho que já fiz isso várias vezes).
Podemos pedir ajuda para revelar ou interpretar nosso desejo quando somos incapazes de descobrir sozinhas o que queremos.Mas de uma decisão a gente não escapa pedir ajuda para quem? I-Ching, companheiro, mapa astral, mestre espiritual, mãe, melhor amiga, terapeuta? O jeito é saber escolher o melhor conselheiro para cada situação (se todos forem consultados, haverá tantas respostas diferentes que o resultado pode ser mais desorientador!) e saber formular as perguntas, o que já é um bom exercício.
Agora, pode acontecer de a gente acabar descobrindo pelo caminho inverso alguém diz que devemos seguir por aqui, e na mesma hora fica claro que “por aqui” é que eu não quero ir. Tudo bem: deixar claro para nós mesmas o que não queremos também é um alívio.
Soninha Francine não vê incompatibilidade entre querer casar e comprar uma bicicleta. almafeminina@abril.com.br
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