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Aos 84 anos de idade, ela remexe em suas anotações para contar um pouco da história do escritor e de sua família, imortalizada em textos de jornal e coletâneas publicadas em livro. Viúva, atualmente morando em Vitória (ES), Dona Gracinha -- como é chamada com carinho pela família e pelos amigos ¿ rememora nesta entrevista exclusiva a infância passada em Cachoeiro do Itapemirim (ES), as brincadeiras de rua, as árvores frutíferas e a briga entre Rubem e o professor de Matemática que o chamou de burro, levando o ofendido adolescente a querer mudar de cidade. A caçula de treze filhos recorda a paixão do irmão pelo sexo feminino, seu namoro com Tônia Carrero e a relação dele com o único filho, Roberto, que, segundo ela, passava a maior parte do tempo sem os pais, na companhia apenas da empregada da família.
A senhora é a caçula de treze filhos. Como foi a infância dessa turma tão grande?
Minha mãe teve treze filhos, eu sou a caçula. Mas ela só criou sete, os outros morreram pequeninos. Ela morava em uma fazenda, teve alguns filhos lá, mas era muito longe da cidade, as crianças às vezes adoeciam, não havia estradas, então ela perdeu muitos filhos pequeninos. O Rubem já nasceu em Cachoeiro, na cidade. Aí ficamos na cidade, e não morreu mais ninguém. Foi uma vida mais calma, com mais conforto. Rubem aprendeu a ler em casa, eu tinha uma irmã mais velha que era madrinha dele, achava ele muito esperto, então ela começou a ensinar, e logo ele aprendeu a ler. Quando ele foi para a escola, já sabia ler. A infância nossa era de cidade pequena, de casa com quintal. Tem muitas crônicas do Rubem em que ele fala da infância; ele jogava bolinha de gude, brincava na rua, jogava futebol na rua. Depois íamos também para a praia, no verão, em Marataízes, lá perto de Cachoeiro. Todo verão a gente ia pra lá.
A Casa dos Braga foi retratada por Rubem, é nome de um dos livros dele [Casa dos Braga – Memória de Infância]. A senhora mesma pintou um quadro mostrando como era a casa, que hoje é uma biblioteca.
A Casa dos Braga agora é da prefeitura, é uma coisa pública. Ela foi inaugurada, veio o ministro da Educação inaugurar. Mas Rubem não foi. Ele disse que não tinha coragem.
Por quê?
Porque ele ficava emocionado.
Como a senhora se lembra do período passado na casa?
Eu e minha irmã acima de mim nascemos na casa, passamos a infância toda lá. Eu casei e meus filhos nasceram lá. Então tenho uma lembrança muito boa. A casa era grande, assobradada, tinha um quintal grande. Era na aba de um morro, lá em cima tinha um cajueiro, tinha umas árvores frutíferas. Uma casa de interior, comum, com jardim, quintal.
O Rubem tentou reproduzir esse pomar na cobertura de Ipanema, quando plantou algumas árvores frutíferas...
É, ele plantou. Mas plantou sempre árvores que dessem árvores pequenas, porque numa cobertura não podia plantar algo que ficasse muito grande, né?
Esse contato com a natureza foi importante na infância de vocês?
Ah, ele gostava muito. Nós tínhamos a casa na praia, a gente ia pra lá todo verão, porque Cachoeiro é uma cidade muito quente, então a gente passava dois meses de férias de dezembro em Marataízes. Lá ele nadava muito, saía com os pescadores para a foz, saía pra pescar. Teve uma infância muito boa.
Como era a relação do Rubem com seus pais, seu Francisco e D. Rachel?
A melhor possível. Com quinze anos, Rubem foi estudar em Niterói. Ele estava terminando o ginásio, e se indispôs com um professor lá no colégio, não quis ficar mais, então meu pai o mandou para Niterói, onde nós tínhamos uns parentes muito amigos. E era só meio ano, já era mês de julho, então ele foi acabar o ginasial lá, e de lá já fez vestibular pra Direito, porque naquele tempo se fazia o ginásio e se passava direto para o curso superior. Ele fez exame no Rio, mas como tinha um irmão mais velho que já estava em Belo Horizonte, estudando também Direito, Rubem foi para BH morar com ele, o Newton [Newton Braga, poeta e jornalista]. Lá ele já começou a trabalhar em jornal; começou a carreira muito cedo.
Como foi a situação com o professor de Matemática, que acabou por levar Rubem a deixar Cachoeiro?
Ele estava no quinto ano de ginásio, e realmente era mau aluno de Matemática. Esse professor era um solteirão, uma pessoa muito calada, muito ensimesmado, e Rubem não aprendia matemática mesmo, tinha horror à matéria. Não sei se não aprendeu porque não teve aula com uma pessoa interessante, o fato é que não conseguia aprender, então o professor disse que ele era muito burro. Ele aí se levantou, jogou os livros no chão, e disse que não ficava mais naquela classe. Foi para o gabinete do diretor, que era muito amigo de meu pai, e falou: olha, Dr. Estevão, estou indo embora e não volto mais aqui nesse colégio. O Dr Estevão falou: mas o que é isso, meu filho; não, não, com aquele professor eu não volto mais, e foi embora pra casa. Quando chegou a noite, meus irmãos mais velhos foram lá em casa, iam sempre lá à noite, conversar com meu pai, era cidade pequena, não tinha diversão. Meu pai contou que o Rubem disse que não voltava ao colégio, que chegara muito nervoso da escola. Os irmãos perguntaram: será, papai? Isso é coisa de garoto, não leva em conta não, daqui a pouco ele resolve. Meu pai: não, não. Ele não vai voltar. E o mandou pra Niterói, onde ele acabou o resto de ano e fez exame pra escola de Direito.
Rubem começou a escrever muito cedo. De onde veio esse hábito?
Meus dois irmãos mais velhos tinham um jornal, então ele publicava muitas coisas, o Newton também. Eu ainda nem tinha nascido nessa ocasião. Acredito que devia ser um ambiente muito propício. Meu pai era um homem ilustrado. Apesar de ter nascido em Cachoeiro, ele era tabelião, tinha assinatura de jornal do Rio, recebia diariamente jornal. Era uma pessoa ilustrada. E essas coisas fazem muita influência, naturalmente.
A sua família sempre aprovou a escolha do Rubem de seguir a carreira das letras?
Sim, mas aí meu pai já tinha morrido. Ele morreu em 1930, o Rubem era muito rapazinho, ainda estava em Niterói estudando. Mas daí a pouco meu outro irmão foi pra Belo Horizonte, e ele acabou indo também. Ficaram os dois por conta própria, trabalhando em jornal, e sempre lendo muito, convivendo num ambiente muito bom, de literatura, e assim ele foi se formando. Longe de casa, ele ficou com o campo aberto pra escrever, pra trabalhar.
Como era a relação do Rubem com o Newton, que também era escritor?
O Rubem gostava das coisas que o irmão poeta escrevia? Newton era dois anos mais velho que Rubem, e eles eram muito amigos, moravam juntos. O Newton depois se formou em Direito e voltou pra Cachoeiro. Minha mãe havia ficado viúva, e ela estava sozinha comigo e com minha irmã. Newton então voltou, veio advogar, foi professor de português no Liceu. E Rubem ficou lá. Ele gostava do que o Newton escrevia, eles eram muito amigos. Mas viviam sempre longe, porque Rubem nunca voltou pra Cachoeiro.
Rubem tinha esse temperamento de andarilho. Como a família encarava esse comportamento nômade?
Ele morou em Belo Horizonte, São Paulo, Recife, no Rio, voltou pra São Paulo. Nunca mais voltou a Cachoeiro, só ia lá esporadicamente visitar a família. A família encarava da melhor maneira possível. Naquele tempo a gente não tinha telefone, mas mandava carta. Tinha notícia dele pelo jornal também, ele escrevia diariamente, então a gente comprava o jornal e lia. Era uma maneira de ter notícia. As viagens eram longas, de trem. As viagens do Rio a Cachoeiro demoravam quase 12 horas de trem. Por isso também é que ele vinha pouco. Ele era ocupado, trabalhava, tinha que escrever diariamente em jornal, não dava pra ficar viajando pro interior.
Dizem que Rubem era muito teimoso, muito turrão. É verdade?
Ele era muito caladão e não gostava de muita conversa. Ao mesmo tempo, era muito delicado. Rubem só gostava de conversar com quem ele gostasse, com quem se enturmasse. Do contrário, saía fora. Saía do jeitão dele, mas era uma ótima pessoa. Rubem sempre exaltou as mulheres, escreveu muitas crônicas sobre o assunto. Dizem que era muito namorador. É verdade? É, ele era namorador, gostava muito de mulher, quando via uma mulher bonita ficava encantado, encantado. Mas às vezes a mulher não dava bola pra ele. (risos)
Já dava pra perceber esse comportamento no Rubem adolescente?
Não sei, porque não convivi com ele, olha: ele nasceu em 1913, eu nasci em 1922, então eu não tinha muito contato com ele nessa idade. Só depois, quando ele morou no Rio, e eu já estava adulta e ia lá, aí sim, eu tinha muito contato. Mas antes não, porque ele viajava muito, foi pra guerra, passou quatro meses lá. Foi pra Paris, passou seis meses em Paris. Esteve também no Chile, foi enviado comercial lá. Ele gostava mesmo é de viajar, de andar de um lado pro outro. Naturalmente, pra ter assunto também, pra ter o que escrever. Eu acredito que ele se sentia bem assim, conhecendo outras pessoas. Ele fazia também muita reportagem, até com escritores famosos. Ele sempre trabalhou muito. Nunca parou. Era irrequieto. Era caladão, mas gostava muito de se movimentar. Apesar da admiração que sentia pelo sexo feminino, Rubem acabou só se casando uma vez, numa relação que não durou muito tempo. Só se casou uma vez. Só. Ele era muito novinho, a Zora tinha 17 anos, ele devia ter no máximo uns 22. Ele vivia em Belo Horizonte sozinho, então conheceu essa moça e naturalmente se encantou, queria viver junto com alguém, e Newton já tinha voltado pra Cachoeiro. Ela também é jornalista, é uma moça muito inteligente, está viva até hoje e mora no Rio. É casada com um escritor que se chama Antônio Olinto. Tem muito bom relacionamento com a família.
A relação de Rubem com ela e com o filho era boa?
Rubem teve um filho logo que casou e depois não teve outros. Zora era do Partido Comunista, muito politizada. Rubem não era comunista, mas ela era, por conta da família dela. Mas eles ficaram casados algum tempo. Não sei exatamente quantos anos durou o casamento, mas durou bem. Ele não era namorador, era admirador de mulher bonita. Tanto que, depois que namorou a Tônia Carrero, ele se fixou muito nela. Ele viveu muitos anos com a Tônia Carrero, mas nunca se casou. Também não moravam juntos.
Mas era um namoro?
Era um namoro, naturalmente. Era um namoro, e ela disse depois que se tornou uma grande amizade. Outro dia mesmo eu a vi falando na televisão. Alguns dias atrás o Rubem foi homenageado em Cachoeiro, e ela foi convidada pela prefeitura pra ir lá, e deu muitos depoimentos. Falou que nunca se casou, mas que manteve uma relação muito boa com o Rubem até ele morrer.
Rubem era um bom pai?
Não, ele nunca foi pai... Quando o menino era muito pequenino, o levaram pra minha mãe tomar conta em Cachoeiro, porque a Zora era comunista, podia ser presa a qualquer momento, então acharam melhor levar o menino. Eu ainda era garota quando o levaram. Minha mãe cuidou, e quando o menino saiu de lá já tinha quase sete anos. Quando ele foi para o Rio, minha mãe mandou com ele nossa empregada antiga, porque então o Rubem já estava separado, mamãe não tinha confiança que ele fosse assim pro Rio, o Rubem saía muito, viajava de repente. O Rubem ficou tomando conta, mas tomando conta relativamente. Ele não deixava de viajar, de fazer a vida dele, ele tinha confiança nessa pessoa que acompanhava a criança. Também tinha uma irmã que morava no Rio, estava sempre dando uma assistência ao garoto, questão de médico, coisas assim. E aconteceu uma coisa interessante: o menino começou a aprender a ler, e a empregada era analfabeta. Ele fazia as lições de casa na cozinha, sentadinho na mesa. E com isso ele ensinou a empregada a ler. Ela aprendeu junto com ele. Você vê como era a solidão do garoto: ele só vivia com essa pessoa. Depois ele foi interno, não gostava muito de estudar, enfim, foi tocando. Com os pais separados, ficava um pouco lá, um pouco cá...A vida do Roberto não foi muito fácil não. Ele é ainda é vivo, mora hoje lá, no apartamento do Rubem, é casado, também é jornalista. Mas hoje ele está aposentado, não tem muito boa saúde, fica muito em casa.
Muitas crônicas o Rubem escreve sobre a cidade, os personagens. São verídicas essas histórias?
São, são. Tudo que Rubem escreve sobre o Espírito Santo e Cachoeiro é verídico, era uma cidade muito pequena, ele tinha os amigos dele, as brincadeiras. Depois que começou a viajar e trabalhar muito, ele vinha pouco a Cachoeiro. Vinha ver o menino, de vez em quando, mas voltava logo, em dois, três dias, porque também tinha o trabalho dele. Depois [da mudança da família], ele gostava de vir pra Vitória. Aqui ele fez uma viagem muito interessante com o Carybé, pintor da Bahia, de carro por vários municípios. Tem esse livro muito bonito, sobre os lugares em que ele ia passando, ele gostava muito de cidade do interior, tinha muito carinho pelas cidades pequenas, pelas pessoas. Depois fez uma edição de luxo, com os desenhos do Carybé [Uma Viagem Capixaba de Carybé e Rubem Braga, de 1982].
O que a senhora mais gosta na obra do seu irmão?
Ah, eu gosto de tudo. Gosto das crônicas, gosto de tudo. Sempre fui muito fã. (risos) Gosto muito das coisas dele de lembrança da infância. Rubem foi um irmão muito bom, quando eu ia ao Rio me dava muita atenção, gostava muito de me apresentar aos amigos dele. Fiquei viúva muito cedo, e ele me ajudou muito.
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