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Vale uma história? Se vale, ela começa quando eu estava no saguão do prédio da Editora Abril,esperando o elevador para ir até a redação da VIDA SIMPLES,quando um cara que eu já vi inúmeras vezes no quinto andar parou ao meu lado. Ele vestia uma camiseta com a estampa da cantora punk Siouxsie, um dos ícones da cena musical britânica dos anos 1980. Olhei para a imagem e disse:“Essa camiseta denuncia a sua idade”. Foi a partir dessa simples (e jocosa) observação que começamos a conversar e vimos o quanto tínhamos em comum no universo musical. Falamos de casas noturnas paulistanas dos anos 80, como Madame Satã e Rose Bombom, de bandas como o então recém-nascido Titãs e a alternativa Akira e as Garotas que Erraram, e nos despedimos quando a porta abriu. E lá fui eu me encontrar com o pessoal desta revista para delinearmos os caminhos da reportagem que você está lendo agora e que fala sobre uma coisa tão cotidiana quanto o banho nosso de cada dia: música.
A cena que acabo de descrever reflete como a música é importante para nós. Eu só puxei conversa porque ver a imagem da Siouxsie me fez lembrar de uma fase bacana da minha vida, em que eu não tinha nem 20 anos e tudo era pura diversão embalada por boa música e grandes noitadas.Agora tente você puxar pela memória uma época marcante da sua existência. Lembra que tipo de som você gostava naquele tempo? Ou qual foi a faixa que fez a trilha sonora daquele beijo, daquela grande festa ou daquela viagem de carona? Viu? Você também tem o seu “momento Siouxsie” todos temos. Porque a música mexe com nossas emoções mesmo que não percebamos.Ao escolher um CD ou emissora de rádio estamos selecionando que tipo de som nos emociona naquela hora, que melodia traduz o que estamos sentindo, que canção é capaz de mudar nosso estado de espírito ou de resgatar um momento especial da nossa vida.
Como se explica isso? Por que a música nos toca tanto? “Ela ativa o sistema nervoso central mexendo com as emoções humanas de formas diferentes”, afirma a professora titular de teoria musical e psicologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Maria de Lourdes Sekeff. Trocando em miúdos, como diria Chico Buarque, a canção funciona como cúmplice das nossas emoções. “Ela pode ressaltar sentimentos de amor, felicidade e tristeza, porque o que mais emociona o ser humano são o encontro e a separação”, diz o músico e professor de lingüística e semiótica da Universidade de São Paulo (USP), Luiz Tatit.
Uma canção pode ficar gravada para sempre em nossa memória, pontuando um determinado acontecimento mesmo que na hora não nos demos conta disso. Mas aí, num belo dia, ao ligar o rádio, recordamos o que aconteceu só de ouvir os primeiros acordes daquela canção.
Música da alma
As pessoas também se valem da música para traduzir ou extravasar sentimentos e, nesse caso, escolhem a dedo a trilha sonora de um momento. Atire o primeiro CD quem nunca ouviu repetidamente a mesma faixa romântica quando estava apaixonado pode ter sido a Elizeth Cardoso cantando “Carinhoso”, a Marina Lima cantando “Eu Te Amo Você” ou uma composição de dilacerar o coração para embalar a dor-de-cotovelo (confesso, leitor, que já chorei muito nessa vida ouvindo “Pedaço de Mim”, do Chico.Ai, ai.).
Pois então, é assim que o encontro do sentimento com a música acontece. Usamos a melodia, o ritmo e a letra para decodificar nossas imagens mais íntimas. “A música mobiliza conteúdos do inconsciente e aflora as emoções”, afirma o psiquiatra Tito Cavalcanti. Da mesma forma que, na Antiguidade, as tribos usavam a música para estabelecer uma conexão com o sagrado, o homem da sociedade ocidental se vale do som para acessar o inconsciente e ter uma perspectiva de quem ele é naquele momento. Essa é a hora de você se conhecer, de se ver, de se reconhecer em um determinado aspecto. “A música resgata vivências anteriores de dor ou alegria e as reúne com outras vivências semelhantes, estabelecendo pequenos laços que montam o quebra-cabeça de quem somos e de quem estamos construindo em relação a esses sentimentos”, diz Tito.
A chave que abre os cadeados e libera esses códigos está embutida na construção musical de uma canção.“O sobe-e-desce das notas, os graves e agudos, o silêncio entre uma nota e outra e a interpretação da letra são a somatória dos elementos que vão acordar as emoções”, explica Luiz Tatit. O professor de semiótica e coordenador da Rede Interdisciplinar de Semiótica da Música da PUC de São Paulo, José Luiz Martinez, cita como exemploos ragas indianos estruturas musicais que têm o poder de influenciar a psique do ouvinte para aflorar uma emoção específica na consciência. “Os ragas podem evocar tristeza, erotismo e heroísmo, por exemplo. E há lendas sobre alguns com poderes sobrenaturais, como o raga Megh, que ajudaria atrazer chuvas”, diz.Moldado à realidade ocidental, o poder de uma melodia atinge uma dimensão afetiva e mexe com as pessoas, seja num aspecto mais introspectivo, seja num caráter coletivo, de pura celebração.“Daí o ritmo vibrante e repetitivo do samba e do axé instigarem os foliões a pular quatro dias durante o Carnaval”, diz Maria de Lourdes Sekeff.
Dançando ou não, as pessoas captam a vibração do som e se entregam às emoções que ele pode liberar. “Somos seres musicais em nossa essência. Ainda no útero ouvíamos música do balançar do líquido amniótico ou a canção de ninar cantada por nossas mães. O som penetra na pele”, afirma a coordenadora do departamento de musicoterapia das Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU), Maristela Smith. Como resultado, já estamos programados para o despertar de sentimentos aflorados pela música, é só deixar que o cadeado se abra. E aí a melodia é fundamental.“É ela quem nos fisga primeiro”, afirma o compositor Antonio Pinto, autor da trilha sonora do longa brasileiro Cidade de Deus (2002) e do norte-americano O Senhor das Armas (2005).Antonio lembra que muitas pessoas não sabem inglês e gostam de músicas estrangeiras mesmo sem entender o que elas dizem prova de que a melodia tem poder. “Se você estiver no mar e alguém cantarolar a trilha do filme Tubarão,no mínimo você vai olhar para os lados para se certificar de que não tem nenhum tubarão por perto. Aquele refrão tem apenas duas notas, mas elas foram gravadas no inconsciente como uma associação com o perigo e a morte”, diz.
Letras que cantam
Quando a música tem letra, as palavras geralmente funcionam como um reforço para o acesso àqueles conteúdos mencionados pelo psiquiatra Tito Cavalcanti.“As palavras se tornam cúmplices do momento pelo qual estamos passando e nos dão o conforto de que necessitamos”, afirma Maria de Lourdes. A mensagem da canção escolhida mostra o que você está sentindo. “A pessoa quer dividir o seu sentimento com os outros”, diz Luiz Tatit.Nessa partilha, a música também se revela como elemento de congraçamento.
Numa festa é comum puxarmos papo com um desconhecido comentando sobre o som que está tocando. Esse é o ponto de partida para um novo relacionamento com quem não conhecemos. Dependendo da festa, a música pode funcionar como catalisador coletivo, reunindo as pessoas para entoar uma canção. Essa cena típica dos filmes americanos lembra quando o elenco do filme O Casamento do Meu Melhor Amigo cantou “I Say a Little Prayer For You” durante um almoço? é o estopim para a “sessão remember” que mostra como a música está presente em nosso cotidiano. Porque sempre tem alguém que se lembra de outra faixa que marcou época e depois outra e mais outra.Assim,sem que ninguém se dê conta, a música esquentou a festa e ainda reforçou a identificação social.
Na pré-adolescência, por exemplo, começamos a desenvolver nosso gosto musical, e junto com ele vamos construindo nossos valores morais. “Os jovens passam a fazer parte de uma tribo, seja de funkeiros, roqueiros ou pagodeiros, e absorvem a ética e as atitudes de seus ídolos”, diz a presidente da Sociedade Internacional de Educação Musical e professorada Univesidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Liane Hentschke. Conforme amadurecemos, já não usamos mais os crucifixos que Madonna pendurava no pescoço nos anos 80, mas continuamos a reservar um espaço importante para a música. Ou seja: ela acompanha a nossa evolução individual.
Por isso, um compositor de quem você não gostava quando tinha 15 anos pode ser audível para você agora, que está mais velho. “É a nossa trilha sonora sendo construída conforme estamos vivendo”, diz Tito Cavalcanti. E a montagem do nosso CD pessoal está em constante evolução, porque nossos sentimentos e valores também mudam. Hoje eu não ouço mais Siouxsie, mas suas músicas ficarão gravadas na minha memória porque marcaram minha juventude. E até hoje elas são importantes para aquele cara que encontrei no saguão do elevador, que agora sei que se chama Paulo. Em sua página no Orkut, a primeira coisa que ele aponta como sua paixão é a Siouxsie. É a música participando da história de vida do Paulo e da história de todos nós.
A nota da emoção
Quer testar o quanto a música mexe com suas emoções? Faça o exercício proposto pela professora Maristela Smith, coordenadora do departamento de musicoterapia da FMU.
• Recolha-se a um local especial da sua casa e reflita sobre o seu ser. Pense em quem você é, no que gosta, no que lhe dá prazer e conforto.
• Anote num papel quais são as músicas e sons significativos para você. Podem ser canções inteiras, trechos de músicas, sons de batidas de portas, de chuva, de pássaros cantando.
• Escolha com muita calma e tenha certeza de que tudo o que você selecionou tem valor positivo para sua vida e lhe traz bem-estar
• Organize essa seleção por ordem de importância, tentando equilibrar uma boa seqüência sonora.
• Quando tiver certeza de que terminou, grave a seleção em CD ou em fita cassete e ouça sempre que achar importante.
• Essa trilha sonora da sua vida terá uma função terapêutica de acalento nos momentos em que você precisar.
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