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Copacabana, tarde de um dia qualquer. Nada acontece além do previsto. Não é Carnaval, nem posse de político. Uma equipe de cinema grava os moradores de um edifício de 276 apartamentos conjugados falando de casamento, emprego, solidão, família, frustrações, alegrias, medos e desavenças. O que interessa ao documentarista Eduardo Coutinho, 72, é filmar o que ninguém filma. Quem quer registrar um monte de gente falando sem ter imagens para confirmar? Mas Coutinho se atreve a acreditar na palavra. E o vem fazendo desde que trocou cinema de ficção por documentário,muito antes de Edifício Master, sobre os moradores do tal edifício, lançado em 2002. Primeiro foi ver o que não acontecia na Paraíba e rodou Cabra Marcado Para Morrer, um filme sobre a tentativa de se fazer um filme. Ganhou 12 prêmios internacionais, abandonou os nove anos de Globo Repórter e seguiu em busca do comum. Filmou Santa Marta Duas Semanas no Morro, sobre a vida nessa favela carioca; Boca do Lixo, sobre catadores de lixo; Santo Forte, sobre religiosidade popular; e, por último, O Princípio e o Fim, sobre o envelhecer, entre muitos outros. São 25 anos só ouvindo as pessoas falarem aos borbotões.“ No fundo é fazer minha a palavra do outro e, quando ele vir o filme, aceitar minha palavra como dele.”
Por que essa atenção à vida comum, ao cotidiano?
O fato: as pessoas podem ser banais. Mas a forma como elas se conformam ou falam, principalmente, isso não é banal. O importante não é o que é narrado, mas a forma de narrar. Isso é a chave de tudo. Por isso meu cinema é uma espécie de etnografia da fala, porque é na fala que está o segredo da coisa. Eu não preciso de imagens para atestar o famoso cotidiano. E aí depende de como o cinema documentário é feito, não do tema: o tema nunca me interessa. Agora, por que pessoas banais, comuns, não conhecidas, mal conhecidas? Porque as pessoas públicas todas não se deixam levar, elas têm muito a perder.O Tancredo Neves tinha, o Lula tem,o Ivo Pitangui tem,os artistas têm. Tanto que se vigiam, e aí eu não tenho o menor interesse.
Você fala com todo tipo de gente. Apesar de todas as diferenças, as pessoas têm uma essência comum?
Isso é complicado, porque daí vem diferença de classe, raça, gênero, diferenças inapagáveis.Acho que tem uma essência comum, se você quiser radicalizar, que é a seguinte: todos nascem, vivem e morrem. E sabem que vão morrer. Isso é a única coisa que iguala um pouquinho as pessoas. Na verdade, quando eu falo com as pessoas, o banal é isso: o que a pessoa faz entre o nascimento e a morte? E aí você está igualando a Santa Tereza Dávila com uma catadora de lixo, Napoleão Bonaparte com um feirante, porque nesse ponto eles não se diferenciam.
Seus filmes têm cada vez menos pesquisa prévia e planejamento. Por que essa crença toda no acaso?
Pelo seguinte: o acaso está ligado a uma coisa chamada instante. A mim interessa o instante. Eu filmo presente, absoluto. No instante em que eu estou filmando há instantes dentro de instantes, instantes dentro de instantes e, de repente, acontece uma coisa. E eu não sei se vai acontecer porque com pesquisa ou não é impossível prever. Então, quando acontece, isso é uma maravilha, se chama surpresa. Por que eu faria filme se não fosse para ter surpresas? Fazer filme é chatíssimo, pode ser muito chato e eu só faço porque quero ter surpresas. E, cada vez mais, filmo sem pesquisas para ser surpreendido pelas pessoas, para o bem ou para o mal. O acaso é bom ou mau, um acaso mau você tira do filme. Que uma coisa não prevista aconteça, o improviso, isso pra mim é a essência do que faço.
E na vida, que não dá pra tirar e jogar fora, como fica?
Ah, na vida é complicado.Cada um leva como pode. Lidar com a vida é outro problema.Eu tento lidar através do cinema. Quando acabar, vão sobrar esses filmes e vamos ver se serviu, se foi útil, se tem algum sentido ou não.
O documentário para o público é a possibilidade do real, do verdadeiro. As pessoas sentem falta disso?
A maldição do documentário é que ele é chato, as pessoas têm razão, porque tem uma tradição didática, uma voz que explica tudo. Acho que o Edifício Master teve sucesso porque essa distinção do verdadeiro ou não fica totalmente irrelevante, entende? Naquele momento os personagens são verdadeiros e ponto final. Ninguém está querendo ensinar nada a ninguém, não é um curso sobre a classe média, sobre nada. É o real. O real é o seguinte: tinha uma câmera, uma pessoa do lado de lá e outra do lado de cá. Isso é absolutamente real. Em agosto de 2001, a gente filmou uma semana em Copacabana, isso é real. O resto, o que é o real? Se uma diz “Vivi com um alemão dez anos e fui feliz”, sei lá se isso é real. Pode ter sido um argentino um mês e ser infeliz, não importa pra mim.
O que importa?
A pessoa constrói seu retrato com a força que está no vocabulário, nas pausas, nas reflexões, no movimento dos ombros, dos lábios, está no corpo. E aí é algo visceral. E isso me basta, esse sentimento visceral. E não é só começar a chorar. É na alegria, na dor, no que seja. Sai um troço de dentro, é uma iluminação que vem na pessoa em função do momento da filmagem. Eu não tenho plano B. Se vou fazer um filme num prédio e as pessoas não querem falar, eu não vou filmar as janelas, botar música, texto. Ou eu encontro personagens bons oueu não tenho filme. Eu preciso desesperadamente deles e eles não precisam nada de mim.
Quando o personagem se emociona no filme, você se emociona?
Na hora e profundamente. Mas, ao mesmo tempo, aprendi que você tem que ser próximo e distante. E jamais interromper a filmagem. Quando acaba, a pessoa que disse coisas terríveis, que chorou muito, está bem melhor, é um desabafo. Às vezes a pessoa tem um silêncio terrível e eu penso: se eu falar agora nunca vou saber como é que essa pessoa sai do silêncio.O silêncio é um buraco. E de repente a pessoa está no buraco, mas você não dá a mão a ela. A pergunta não vem e o cara começa a sofrer. E às vezes você precisa ter a coragem de deixar o cara sofrer e ver como ele sai do buraco. Uma vez fiz isso e foi maravilhoso. Quando acabou a filmagem, a gente se abraçou e ponto final.
Você diz que não quer saber como é o mundo, mas como vai o mundo?
Tem a ver com essa discussão de que o real é inapreensível, não existe. Todo cinema é uma construção, portanto não é o real. Dizer “como é o mundo” pressupõe uma essência que não muda nunca, vou descobrir o que é e ponto. É melhor perguntar como vai o mundo, como foi o mundo, como será o mundo, como está sendo o mundo, porque o mundo sempre muda. Tem a contingência, naquele momento como vão as coisas. É menos... imanente, não tem uma transcendência, Deus ou sei lá o quê, a verdade, o absoluto. Como vai o mundo hoje, não sei como vai ser daqui a dois meses. Ninguém está condenando a nada, é imprevisível o futuro.
Para saber mais:
• O Documentário de Eduardo Coutinho: Televisão, Cinema e Vídeo, Consuelo Lins, Jorge Zahar
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