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Buscando satisfação

Às vezes é preciso lutar contra certos estados de espírito ­ e escolher aquilo que realmente nos ajuda a seguir em frente

por Denis Russo Burgierman

Estou ficando velho. É uma frase idiota, eu sei, afinal todo mundo está ficando velho. Envelhecer, como respirar, é daquelas coisas que nosso corpo faz sem nos pedir permissão. Mas ultimamente eu tenho sentido mais. Ando cansado.Trabalho demais e depois não tenho disposição para nada.

Na sexta-feira terminei o dia irritado, implicante, o sono atrasado, os problemas da semana borbulhando na cabeça. E ainda tinha que pensar nesta minha coluna de estréia em VIDA SIMPLES. Fazia mais de um mês que eu tinha recebido o convite para escrever para você sobre as gambiarras que faço para equilibrar minha vida no meio da confusão. Adorei a idéia, fiquei feliz pra caramba.Mas o prazo final era segunda-feira e eu não tinha nem pensado no assunto. Teria que escrever no fim de semana (e eu precisava tanto dormir...). O pior é que, depois de um mês tão corrido, minha sensação era de que eu não tinha nada interessante para contar.

Aí, na sexta à noite, minha namorada veio com aquela história: “Vamos amanhã para o Rio ver os Stones”. Nada de dormir, pode esquecer a coluna, portanto. Amanheceu o sábado e eu estava dirigindo na Via Dutra. Caiu a tarde e eu estava estendendo um colchonete no chão do apartamento de um amigo em Copacabana, como nas mais puras roubadas do tempo da adolescência. Tive que lutar contra o sono e contra a multidão para chegar à praia. Aí ouvi os primeiros acordes de “Jumpin’ Jack Flash”. E estava tudo certo.

Foram duas horas pulando (não só de animação, também na esperança vã de ver alguma coisa por cima de 1 milhão de cabeças). De repente, olhando para o Keith Richards e para o Mick Jagger (pelo telão, é claro), me dei conta do óbvio: envelhecer não é só questão de idade. Lá pelo final do show, enquanto eu berrava o refrão de “You Can’t Always Get What You Want”, lembrei que meu trabalho é importante, mas que existem coisas maiores, mais importantes. Como os Rolling Stones ou a praia de Copacabana.

Agora é segunda de manhã. Como na juventude, quando eu adiava a hora de estudar no fim de semana e depois tinha que madrugar na segunda para compensar, cheguei mais cedo ao trabalho para escrever esta coluna. Estou sozinho aqui, moído, ainda mais cansado que na sexta ­ cheguei do Rio às 4 da madrugada. Mas pelo menos tenho alguma história para contar.

Denis Russo Burgierman tem 32 anos e já foi mais jovem. Mas também tinha bem menos causos para lembrar. gambiarra@abril.com.br

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