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Estou ficando velho. É uma frase idiota, eu sei, afinal todo mundo está ficando velho. Envelhecer, como respirar, é daquelas coisas que nosso corpo faz sem nos pedir permissão. Mas ultimamente eu tenho sentido mais. Ando cansado.Trabalho demais e depois não tenho disposição para nada.
Na sexta-feira terminei o dia irritado, implicante, o sono atrasado, os problemas da semana borbulhando na cabeça. E ainda tinha que pensar nesta minha coluna de estréia em VIDA SIMPLES. Fazia mais de um mês que eu tinha recebido o convite para escrever para você sobre as gambiarras que faço para equilibrar minha vida no meio da confusão. Adorei a idéia, fiquei feliz pra caramba.Mas o prazo final era segunda-feira e eu não tinha nem pensado no assunto. Teria que escrever no fim de semana (e eu precisava tanto dormir...). O pior é que, depois de um mês tão corrido, minha sensação era de que eu não tinha nada interessante para contar.
Aí, na sexta à noite, minha namorada veio com aquela história: “Vamos amanhã para o Rio ver os Stones”. Nada de dormir, pode esquecer a coluna, portanto. Amanheceu o sábado e eu estava dirigindo na Via Dutra. Caiu a tarde e eu estava estendendo um colchonete no chão do apartamento de um amigo em Copacabana, como nas mais puras roubadas do tempo da adolescência. Tive que lutar contra o sono e contra a multidão para chegar à praia. Aí ouvi os primeiros acordes de “Jumpin’ Jack Flash”. E estava tudo certo.
Foram duas horas pulando (não só de animação, também na esperança vã de ver alguma coisa por cima de 1 milhão de cabeças). De repente, olhando para o Keith Richards e para o Mick Jagger (pelo telão, é claro), me dei conta do óbvio: envelhecer não é só questão de idade. Lá pelo final do show, enquanto eu berrava o refrão de “You Can’t Always Get What You Want”, lembrei que meu trabalho é importante, mas que existem coisas maiores, mais importantes. Como os Rolling Stones ou a praia de Copacabana.
Agora é segunda de manhã. Como na juventude, quando eu adiava a hora de estudar no fim de semana e depois tinha que madrugar na segunda para compensar, cheguei mais cedo ao trabalho para escrever esta coluna. Estou sozinho aqui, moído, ainda mais cansado que na sexta cheguei do Rio às 4 da madrugada. Mas pelo menos tenho alguma história para contar.
Denis Russo Burgierman tem 32 anos e já foi mais jovem. Mas também tinha bem menos causos para lembrar. gambiarra@abril.com.br
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