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Fugir ou não fugir

“Todo dia ela faz tudo sempre igual.” Pode ser chato, mas pode ser legal

por Soninha Francine

Em capas de revista, nas chamadas do jornal da hora do almoço na televisão, volta e meia aparece a exortação: “Fuja da rotina!” Seguem-se, então, sugestões de coisas legais para se fazer em um dia ou outro da vida: saia da cidade, faça um prato tailandês para o jantar, tome um banho de ervas, dê uma volta na chuva.

Eu adoro essas sugestões. Dificilmente coloco em prática, mas gosto de pensar que seria bom tentar alguma. Por outro lado, não é estranho pensar que, para sermos felizes, precisamos “fugir da rotina”? A idéia de fuga não costuma ser das mais recomendáveis.

Se a gente pensar em rotina como uma prisão, estamos perdidos.Muito da nossa vida é inevitavelmente rotineiro: acordar, tomar banho, trocar de roupa, escovar os dentes, comer todo dia. Alguns trabalhos são mais repetitivos que outros, mas, mesmo naqueles supervariados, a variedade cansa! Estou lendo um livro sobre excursões do time do Botafogo na década de 50, escrito pelo João Saldanha (que era o técnico). Ele conta que, a certa altura, estivessem em Madri ou Bogotá, Londrina ou Teresina, os jogadores mal prestavam atenção na paisagem ­ a seqüência aeroporto- ônibus-hotel-ônibus-estádio-ônibus-hotel logo virava... rotina.

Em vez de fugir,bom é conseguir curtir a rotina.Eu sei, existem coisas difíceis de apreciar ­ quem gosta de esperar ônibus ou ficar na fila de banco? Mas, se a gente não ficar desejando inutilmente que elas não existam e simplesmente fizer o que tem de fazer,melhora.Arrumar a cama,por exemplo.Não tem graça nenhuma.Mas cama arrumada é legal.E arrumar demora o quê? Cinco minutos? Você pode inventar alguma coisa para melhorar, como botar música no quarto, ou pode apenas arrumar prestando atenção no que faz, sem se desesperar pensando no que tem de fazer depois.Nada incomoda tanto quanto a cabeça da gente azucrinando, querendo nos convencer de que a pior de todas as alternativas é estar ali, fazendo aquilo.

Uma vez, uma amiga minha disse que adora lavar louça. Achei incrível. Minha mãe detesta lavar louça em casa, mas sempre ataca a pia bagunçada quando visita os filhos. Também não compreendia. E não é que agora eu acho uma certa graça? Com um bom sabão, esponja meio usada e água quente, se precisar, eu me entretenho transformando o sujo em limpo, sem estresse.

Mas as reportagens que sugerem rotas de fuga estão certíssimas em um ponto. Tem a rotina inescapável, mas tem coisas que a gente faz porque “tem de fazer” ­ e não tem! As prisões imaginárias me incomodam muito. Se tem algum ritual diário que não faz nenhum sentido para você, abandone-o. Rituais são importantes, mas você tem o direito de escolher os seus. Não precisa fazer de um jeito só porque seu pai ou sua mãe sempre fizeram.

Talvez, então, o mais sensato seja dizer o seguinte: examine sua rotina. Melhore sua rotina. Viva com leveza aquilo que você vai ter de fazer de todo jeito. Ah, sim, e faça uma maluquice vez ou outra, sem pensar que rotina é um bicho feio do qual você tem de correr para ser feliz.

Soninha Francine aprecia o ritual café-com-leite-pão-com-margarina com o marido, todo santo dia. almafeminina@abril.com.br

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