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Seus personagens são animais mas bem que poderiam ser qualquer um de nós. Em uma tira aparece a ratinha exigindo fidelidade do namorado ratão. Em outra, é a elefanta que quer emagrecer, mas não consegue seguir uma dieta. Ou então o vaidoso pavão que entra em pânico quando seus penachos caem. Esse é o grande barato dos quadrinhos de Fernando Gonsales: misturar situações e sentimentos típicos dos humanos vividos por animais.
Apaixonado desde pequeno pelos bichos, Gonsales, 44 anos, formou-se em veterinária e biologia. Sua educação acadêmica acabou influenciando a utilização de animais nas charges, que trazem sempre alguma informação sobre o universo de cada personagem. Encontrei no quadrinho um espaço que leva o leitor a olhar mais para os bichos e, de quebra, para os nossos comportamentos, sempre com graça.
Nunca fez curso de desenho, mas suas tiras em quadrinhos são publicadas há mais de 15 anos em veículos como a Folha de S.Paulo e em vários outros jornais das principais capitas do Brasil. Seu acervo atual conta com mais de 5 mil tiras.
Gonsales recebeu VIDA SIMPLES no estúdio de criação que fica no porão de sua casa, no bairro de Perdizes, em São Paulo. Sim, um porão, o tipo de lugar mal afamado que poderia ser o habitat de seu mais famoso personagem, o ratinho Níquel Náusea. Em frente ao porão há um jardim onde, nas horas vagas, o cartunista passa seu tempo buscando inspiração ao observar o delicado caminhar de uma taturana ou o desenho organizado das trilhas de formigas.
Como surgiu seu interesse pelos animais?
Eu sempre gostei muito de bichos. Fiz veterinária e biologia para ficar mais perto deles no meu trabalho. Mas como não gosto de passarinho preso, tenho aflição de cachorros confinados em espaços pequenos e não posso ver peixes em aquários, queria focar meu trabalho no estudo de animais soltos, animais selvagens. Mas aí, quando percebi, já tinha virado cartunista.
Quando você se tornou cartunista?
Desenho desde moleque e, naquele tempo, lia muito os quadrinhos da Disney. De um jeito ou de outro, eles me influenciaram. Com 25 anos, passei num concurso de charges para fazer tiras em jornais. E hoje faço um quadrinho artesanal, que é bem mais difícil que os quadrinhos comerciais e é totalmente autoral.
Por que seus personagens são os animais?
Exatamente por não gostar de animais presos, domesticados, eu resolvi desenhar bichos soltos. Queria fazer um rato como personagem principal, o Níquel Náusea, porque ele é um bicho que vive junto com os humanos, mesmo não sendo bem-vindo. No começo, as pessoas achavam que o meu rato era um analogia das classes oprimidas contra as classes dominantes.Mas o que eu queria representar eram os bichos que resistemà ação humana, como baratas e ratos já que os seres humanos estão cada vez mais destruindo as outras espécies. Depois comecei a desenhar outros animais.
Por que você humaniza os bichos nas suas tirinhas?
É uma maneira de se colocar na pele dos bichos e olhar mais para eles. Se uma criança brinca de bolinha de gude com um tatuzinho, ela pode achar engraçado, mas ele não deve achar e vai reclamar. É como se os bichos pudessem ter voz e se comunicar com a gente. Acho perigosa essa mania do ser humano se achar melhor do que as outras espécies. A biologia classifica os bichos de acordo com suas especificidades e nós estabelecemos o padrão do que é melhor ou pior.
Você também faz o contrário, não?
Na prática, o comportamento humano é muito animal. Acho que o homem age mais instintivamente do que imagina. A história da humanidade é a história de luta por espaço, por poder, pela garantia de segurança à prole, como fazem os bichos. O ser humano se distancia dos animais, entre outras coisas, pela capacidade de reflexão. Então, antes de mais nada, é interessante a gente reconhecer a própria natureza. Acho uma violação você querer negar ou reprimir sentimentos, por exemplo. Às vezes não queremos sentir raiva, mas sentimos. Todos nós temos instintos egoístas, selvagens, fúteis. Só a partir do reconhecimento deles você pode elaborar, transformar algo que incomoda.
Você também faz o contrário, não?
Como você cria as idéias das tiras? Normalmente tenho sacadas quando acordo, porque a mente está mais vazia. Eu sento em um lugar quieto no meu estúdio, que fica no porão de casa não pode ser deitado, senão eu durmo , e tento ficar disponível para receber alguma idéia. Também tenho que disciplinar o pensamento. Se eu perceber que estou pensando em um jogo de futebol ou alguma coisa que tenho que fazer no dia seguinte, a idéia não vem. Por exemplo, se quero explorar o universo da borboleta, começo a pensar no que ela come, o que ela faz... Aí começo a brincar com as situações o que aconteceria se ela fosse a uma festa e surge uma piada. Só depois vou desenhar no papel.
Como é a sua linguagem?
Procuro ser simples, como sugere o jornalismo. Quando comecei, usava muito o jargão técnico do veterinário. Usava a palavra esternocleidomastóideo. Hoje falo pescoço e acabou. De que adiantam termos técnicos e palavras rebuscadas se você não consegue atingir as pessoas?
Como é a sua linguagem?
Que mensagens você quer passar? Geralmente, quando quero passar uma mensagem, a tira fica muito chata, parece panfletária. Sempre desenhei de um jeito engraçado, exagero as formas dos personagens com narigão, um olho maior que o outro. A mensagem tem que chegar através do humor.Assim, rindo das situações e de nós mesmos, temos a possibilidade de aprender algo.
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