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Sem deixar contagiar

Aprendendo a respeitar o estado de espírito das pessoas à sua volta

por Soninha Francine

– Claro que eu agüento! Eu já fui até a Fazendinha e voltei! “Eu”, no caso, é minha filha Julia, de 8 anos.“Fazendinha” é um lugar que fica a uns 2 quilômetros de distância da sede do clube de campo que ela freqüenta com o avô, em Santo Antônio do Pinhal (SP). O “agüento” dizia respeito à caminhada que eu, o pai e a irmã dela de 21 anos pretendíamos fazer no dia seguinte, da casa da minha mãe no bairro dos Ingleses, em Florianópolis, até a praia de Moçambique. Quando soube dos planos, a Julia disse que queria ir também, mas o pai desconfiou: “Será que ela está disposta mesmo?” Estava, então fomos.

Na primeira parte do passeio, cruzando as dunas por uma trilha plana, com o sol ainda baixo, foi tudo bem. Na praia dos Ingleses, também – ela aproveitou para dar um mergulho. Nova travessia de dunas, com o calor um pouco mais forte, e chegamos à praia do Santinho. Novo mergulho, em um mar verde e transparente, onde se viam peixinhos; uma pausa para a água de coco e a esticada para o trecho final: 2 700 metros de trilha contornando o morro que nos separava de Moçambique. O caminho não é muito íngreme ou acidentado, mas é na base do sobe-e-desce. Tirando algumas rápidas passagens pelo meio do mato, não tem sombra nenhuma. E o sol já ia alto.

Mesmo com toda a disposição, com a firme convicção de que ia agüentar, a Julia começou a arriar. “Falta muito?” Jogou os braços para a frente, passou a andar meio curvada, armou um bico. Não queria mais saber da paisagem linda, do mar cor de esmeralda, da nossa companhia. O pai também emburrou: “Foi por isso que a gente perguntou mil vezes se você queria vir mesmo”. Aí, além de cansada e impaciente, ela também ficou ofendida. “Puxa vida, ele não entende que eu estou morrendo de calor?”

Reduzi o ritmo, molhei a cabeça dela com água fria, paramos algumas vezes na sombra para descansar. E, num estalo, decidi não aderir ao mau humor. Porque eu também quis brigar com ela (“Se você só ficar resmungando e pensando quanto falta, aí é que demora mesmo!”) e com o pai (“O que adianta brigar com ela agora?”), o que ia azedar o passeio de vez. Mas bateu uma luz e eu resolvi respeitar o estado de espírito dos dois naquela hora. Quando a gente está de mau humor é tão difícil sair – e não é com a bronca de alguém que ele melhora... Então eu simplesmente decidi não me deixar contagiar, e continuar exatamente como estava. E sabia que, acabada a trilha, acabaria a contrariedade. Fiquei felicíssima com a descoberta de que a melhor maneira de não se deixar contaminar pelo mau humor de alguém é respeitá-lo.

A praia de Moçambique nos recebeu com um dos mares mais lindos que eu já vi na minha vida. Límpido, cristalino, reluzente. Foi o antídoto ideal para o cansaço. Já na água, esfuziante, a Julia comemorava: “Mãe, é que nem a música do Rappa – valeu a pena!” O resultado em si valeu muito mais que qualquer sermão sobre a importância de agüentar as dificuldades para conseguir algo muito legal; a Julia aprendeu mais uma, e eu também. Definitivamente,“valeu a pena”.

Soninha Francine lembra que, para fazer caminhadas, é bom sair cedinho, passar protetor solar, levar boné e uma garrafa d’água. almafeminina@abril.com.br

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