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Em alguns países da África, costuma-se dizer que cada ancião que morre é uma biblioteca que se perde. É bem possível mesmo. Os mais velhos são uma fonte de experiência e saber acumulado ao longo dos anos – prova disso é que, quando ainda não existia a escrita, todo o conhecimento de uma determinada cultura era transmitido boca a boca a partir dos antigos. Era como se eles encarnassem uma espécie de enciclopédia viva.
Com mais tempo de estrada, os idosos realmente têm propriedade para falar. Já tropeçaram, levantaram e quase sempre descobriram a duras penas o que deveriam ou não ter feito. Prova disso é que aquelas frases feitas que a gente cansou de ouvir das nossas avós tinham algum fundo de verdade – vai dizer que nunca se lembrou do famoso “saco vazio não pára em pé” depois de morrer de dor de estômago por ter ficado horas sem comer? Grande sabedoria – ainda que de bolso – que poderia ter sido usada a tempo.
Mais do que rápidas lições, os mais velhos têm muito a nos ensinar sobre a vida e a forma como nos relacionamos com ela. O filósofo e educador chinês Confúcio (551-479 a.C.), cujas idéias foram importantes a ponto de moldar a sociedade oriental, costumava dizer que buscava na sabedoria dos antigos sua fonte de inspiração. “É por retomar o antigo que se aprende o novo. E assim nos tornamos mestres”, dizia. Pensando nisso, pinçamos alguns conselhos preciosos de quem já passou dos 70. Para guardar e ir usando devagar, durante os muitos anos que você ainda tem pela frente.
Na vida, ensina ele, não existe um caminho definido. Navega-se como um veleiro, ao sabor do vento, dando bordos para se chegar de um ponto ao outro. E nem sempre se chega no porto programado. Aceitar essas imprevisões é uma lição para encarar o futuro.“A vida não é uma corrida em linha reta. Quando se começa a correr na direção errada, quanto mais rápido for o corredor, mais longe ele ficará do ponto de chegada”, escreve. Para o escritor, deixar-se levar é a melhor maneira de encontrarmos a nós mesmos. “Colha o dia como se fosse um fruto maduro que amanhã estará podre. A vida não pode ser economizada para amanhã. Acontece sempre no presente.”
Ser despojada é um dos segredos da felicidade para a premiada atriz de teatro Cleyde Yaconis, 82 anos. “Não uso jóias, não ligo para grife, não uso nada. Minhas roupas têm 20, 30 anos.Meu carro é baratinho, não entendo por que comprar carro que faz 200 km/h para andar a 10. Tendo minha comidinha, minha cachorrada bem tratada e esta casa, não preciso de mais nada”, diz Cleyde.
“A vida e a saúde com certeza são essenciais. Os relacionamentos, a família, os filhos, netos, estes não dá para nos tirar. Assim como a memória dos bons tempos, a saudade da infância. De resto, pode ter certeza que nada se leva”, diz a dona-de-casa paulistana conhecida como Dona Vêlia, 88 anos, filha de imigrantes italianos, cuja infância remete ao tempo em que as margens do rio Tamanduateí ainda permitiam animadas brincadeiras. Ouvir suas histórias nos faz viajar no tempo.
Para Dona Vêlia, a grande sabedoria da vida é pensar bem antes de agir ou falar. “Algumas coisas que a gente fez ou falou não dá para voltar mais atrás. Quantas vezes eu tive vontade de explodir e me contive. Acho que o certo é falar sempre o que se pensa, não guardar nada dentro da gente. Mas tudo tem um jeito certo de falar, para não machucar ninguém. Por outro lado, devemos relativizar quando algo sai diferente do que a gente espera. Afinal de contas, não vale a pena esquentar tanto a cabeça”, diz ela, para quem a única coisa irreversível que existe é a morte – todo o resto se conserta.
Mas não é preciso esperar a idade chegar para ter prazer no que fazemos, muito menos para buscar tudo o que os mais velhos estão nos dizendo aqui. Afinal, nossa história é construída por pequenas estrofes compostas passo a passo, durante toda uma vida – e isso já está em curso faz tempo. “Uma coisa a dizer aos moços: vivam sua mocidade de tal maneira que fiquem sábios quando ficarem velhos, para que os moços possam amá-los”, aconselha Rubem Alves. Ele sabe o que diz.
LIVRO
As Cores do Crepúsculo: a Estética do Envelhecer, Rubem Alves, Papirus
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