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A ficha caiu em um movimentado aeroporto de Roma.Foi folheando rapidamente um jornal, enquanto esperava ansioso por seu vôo, que o jornalista deparou com um artigo inusitado: como contar histórias para adormecer os filhos em apenas um minuto. A primeira reação foi de euforia – afinal, ele perdia muito tempo na leitura de contos para seus pequenos, minutos preciosos em que poderia checar seus e-mails, fazer uma caminhada, escrever mais um texto, organizar sua agenda, assistir ao noticiário da televisão. Aí veio o estalo: percebeu que sua vida havia se transformado em uma corrida de obstáculos para sempre encaixar mais coisas em cada hora do dia – e que essa obsessão pela velocidade havia se tornado um vício. Desde então, o escocês Carl Honoré estuda os movimentos que pregam a redução da velocidade em atividades corriqueiras como comer, fazer sexo e trabalhar. Tudo para melhorar a qualidade de vida e a relação com as pessoas. O resultado de sua pesquisa está no livro que acaba de lançar: Devagar – Como um Movimento Mundial Está Desafiando o Culto à Velocidade (editora Record). Carl conversou com VIDA SIMPLES em sua breve passagem pelo Brasil em novembro. A entrevista só terminou rápido porque ele não via a hora de voltar para continuar as histórias que tem para contar aos filhos. Com calma, claro.
Como você conseguiu se tornar um ex-viciado em velocidade?
Sempre gostei muito de velocidade. Adoro viver em Londres, que é uma cidade agitada, de ser jornalista, uma profissão dinâmica, praticar esportes rápidos – mas a questão é que eu era viciado em rapidez. Então, comecei a sentir que algo estava mal, que eu estava levando a vida de maneira superficial e não sabia como mudar. Foi quando notei que estava apressando até os momentos sagrados com meus filhos. Então, fui percebendo que meu ritmo não precisa ser ditado pelo relógio.
O que você fez para desacelerar?
Antes eu voltava do trabalho para minha casa com a pressa internalizada – e continuava a fazer tudo rápido porque estava contaminado por esse vírus. O segredo é saber escolher a marcha apropriada para cada situação. Meu maior aprendizado foi esse: saber que é possível acelerar e desacelerar.
O que significa tempo giusto?
Significa dar a concentração e a energia certaa para cada situação. Cada pessoa tem seu ritmo próprio para comer, caminhar, escrever, ler.Mas sou realista: não é possível um mundo onde todos façam as coisas ao seu tempo, porque é preciso ceder, equilibrar nossa velocidade com a dos outros. O primeiro passo é tomar consciência de que não podemos ver o tempo como um inimigo que temos que conquistar e explorar ao máximo. Se você faz muitas coisas ao mesmo tempo, está tocando apenas a superfície delas. Experimente simplesmente fazer menos coisas, com mais energia no momento presente.
Por que não conseguimos ficar sem fazer nada?
Perdemos a capacidade de desfrutar o tempo. E é nesses momentos que nasce a criatividade, as boas idéias. O lado positivo é que as pessoas estão percebendo isso, até nas grandes universidades. Há pouco tempo Harvard mandou uma carta para todos os alunos dizendo que é importante se esforçar e estudar, mas que é preciso ter momentos para simplesmente não fazer nada, para sonhar. Porque o que acontece hoje é que há muitos jovens com currículos impressionantes, notas boas, 20 mil cursos, mas que não têm criatividade, pois não conseguem pensar fora do esquadro.
Que atitudes podemos tomar já?
Eu, por exemplo, resolvi parar de usar relógio de pulso. Começou como um ato simbólico, e notei que me sentia menos obcecado pelas horas. Antes eu ficava sempre olhando para os ponteiros, como se eles mandassem em mim. Muitos estudos demonstraram que quando temos relógios à vista a relação com o tempo muda, ficamos mais ansiosos. Vale a pena experimentar ao menos tirar o relógio no fim de semana.
O que são as cidades do bem-viver?
São pequenas cidades européias que aderiram ao movimento italiano batizado de Città Slow, que tentam seguir uma série de compromissos para uma vida urbana mais calma, como diminuir o barulho e o tráfego, aumentar os espaços verdes, as zonas de pedestres, preservar as tradições e estimular a solidariedade local.Hoje existem cerca de 30 cidades afiliadas na Itália e em outros países. Claro que seguir esses ideais nas grandes cidades é um desafio maior, porque há muitos fatores externos que nos deixam marinados na cultura de que o mais rápido é o melhor.Por isso o ponto de partida para mudar tem que vir de dentro – é um estado de espírito.
Por que a velocidade hoje incomoda mais que em outros tempos?
A cultura está mudando. Passamos nos últimos 150 anos por uma aceleração constante, em que a velocidade trazia mais benefícios que prejuízos. Mas chegamos a um ponto de ruptura, porque descobrimos que a velocidade faz mais mal do que bem hoje e todo mundo é vítima.Por isso surgem cada vez mais movimentos como o Slow Food, que diz que as pessoas devem comer e beber devagar, saboreando os alimentos, curtindo seu preparo, no convívio com a família e amigos. E até o Slow Sex, que acredita que fazer amor lentamente pode ser uma experiência profunda de conexão com o parceiro.
Você é contra a tecnologia?
Pelo contrário. Os telefones celulares, os laptops e a internet nos ajudam a aumentar a produtividade, a nos conectar com quem está longe.Mas cada aparelho vem com um botão para desligar – que muita gente nunca usa. A gente perdeu a capacidade de desligar. Se temos uma brecha na agenda, em vez de festejá-la, entramos em pânico e corremos para preenchê-la com outra atividade. Precisamos nos reconectar com nossa tartaruga interior e descobrir momentos para ficar sem fazer nada a fim de recarregar as baterias. Com a cabeça e a agenda cheias de tarefas e estímulos,você não consegue fazer isso.
Como ficam as relações sociais nesse mundo acelerado?
Os meios de comunicação hoje são rápidos, mas o paradoxo é que a qualidade da comunicação tem piorado.Nossa impaciência é tão implacável que queremos acelerar até as relações afetivas, que precisam de tempo. As revistas anunciam como ter orgasmo em 30 segundos – como se fosse possível fazer amor com um cronômetro.Nos EUA já existem missas fúnebres drive-thru em que são prestadas as condolências aos parentes do morto de dentro do carro.
Essa é a pior conseqüência?
Sim, porque, afinal de contas, estamos aqui para nos relacionar. Se no fim da vida você olhar para trás, certamente não dirá: “Ah, eu queria ter trabalhado mais ou ter visto mais televisão, ou ter feito mais compras” – coisas que absorvem a maioria do nosso tempo. Os acontecimentos que lembramos, que enriquecem a vida, que fazem com que sejamos humanos, são as relações. Como aquele jantar especial na casa do seu avô. São momentos extremamente simples que ficam esquecidos e que são pouco aproveitados numa cultura super-hiper-rápida.
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