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Plantador de sonhos

O reverendo Martin Luther King usou os métodos de Gandhi para combater a discriminação racial nos Estados Unidos

por Isabelle Somma | foto Índio San

Martin Luther King Jr. tinha um sonho. Que homens e mulheres fossem considerados iguais, sem levar em conta a cor da pele. Que todos pudessem freqüentar as mesmas escolas, sentar-se lado a lado em ônibus, comer em mesas vizinhas no restaurante uma realidade distante para os negros norte-americanos há 40 anos. Para realizá-lo, o líder negro usou os métodos de outro libertário. Assim como o indiano Mahatma Gandhi, ele mobilizou milhares de pessoas para mudar o mundo de forma pacífica. A luta contra a segregação racial acabou se transformando em um pesadelo pessoal para King, que foi preso 20 vezes, sofreu quatro atentados, teve a família ameaçada. Aquele que defendeu até o fim a resistência pacífica foi calado em 4 de abril de 1968 por um tiro de fuzil. Mas seu sonho de igualdade começou a se tornar realidade.

A formação cristã e o brilho pessoal tiveram tudo a ver com o papel que o líder negro assumiu na luta pelos direitos civis, que mudou a cara dos Estados Unidos. King nasceu em 1929, em uma família em que o pai e o avô materno eram pastores protestantes em Atlanta, capital da Geórgia, um estado do sul com tradição escravista. Desde cedo, percebeu que capacidade intelectual não era privilégio de nenhuma raça. E por experiência própria. Seu desempenho escolar fez com que os professores logo cedo o considerassem apto a ir para a faculdade.Aos 15 anos se matriculou na Morehouse College, uma universidade só de negros exatamente como as escolas que havia freqüentado antes.Ao se formar em sociologia, aos 19 anos, King partiu para um novo desafio: estudar em uma instituição que aceitasse negros e brancos em pé de igualdade. Começava ali o caminho que iria transformá-lo em liderança mundial.

Naquela época, o jovem King só queria se tornar um pastor protestante. Foi para a Pensilvânia, estado um pouco mais ao norte, além da fronteira dos preconceitos raciais. O primeiro contato com a nova realidade não foi nenhum choque. Ao contrário, foi uma surpresa boa. King se tornou líder de uma classe de maioria branca. Outra vez a vida lhe mostrava que capacidade dessa vez para liderar não tinha cor. É exatamente porque a educação é o caminho para a igualdade que ela se tornou mais inacessível para os negros do que muitos outros direitos, disse.

A experiência na Pensilvânia fez o racismo de sua cidade natal impressioná- lo ainda mais. Como lutar contra isso? A resposta definitiva viria em uma nova temporada de estudos, quando King se mudou para Boston, para concluir um doutorado em teologia. Foram anos que mudaram sua vida. Lá conheceu Coretta, com quem se casou, e entrou em contato com o pensamento de Mahatma Gandhi (1869-1948).

Depois de uma palestra na universidade sobre o líder da independência indiana, King se apaixonou pelas idéias dele. E passou a adotar seus métodos na luta pelos direitos civis. Logo percebi que a síntese do método de não-violência e a ética cristã de amor são as melhores armas para o negro lutar por liberdade e dignidade humana, disse. Gandhi acreditava que a única forma de acabar com leis injustas era desobedecê-las. Boicotando instituições de governo e produtos britânicos, o pacifista ajudou a libertar os indianos. O método, chamado de satyagraha (verdade e firmeza, em sânscrito), pregava a mobilização sem violência. King se convenceu de que ódio gera mais ódio, uma mensagem de Gandhi que caía como uma luva em seu pensamento cristão.

Essa crença passou a ser pregada por King a seus fiéis na igreja que assumiu como pastor, em Montgomery,no Alabama.A cidade natal de Coretta era uma daquelas típicas do sul. Em lojas, restaurantes e hotéis era comum encontrar a placa proibida a entrada de negros. Alugar casas, somente em bairros negros.Até banheiros e bancos de praça eram segregados. Além das humilhações habituais,Montgomery era palco de freqüentes ações violentas contra a comunidade negra. Isso iria mudar passo a passo literalmente a partir de dezembro de 1955.

Marcha pela liberdade
Quem começou a caminhada foi Rosa Parks, uma costureira de 42 anos, que se recusou a ceder seu lugar no ônibus a um homem que não encontrou assento no local reservado a brancos. O motorista parou e chamou a polícia. Rosa foi presa e condenada por desobedecer uma lei estadual. King, que havia fundado a Montgomery Improvement Association (MIA), entrou na briga. Liderou um boicote aos ônibus da cidade. Defendeu que ninguém mais embarcasse pela porta de trás e se sentasse nos bancos reservados para negros.

Depois disso,eles fizeram marchas e mais marchas pela igualdade no transporte público, sempre pacíficas, contrastando com os métodos violentos dos racistas. A casa de King sofreu um ataque a bomba, que não o feriu fisicamente, mas serviu para arranhar sua crença. O líder pacifista contratou seguranças armados e comprou uma pistola. A polícia, que fazia vista grossa aos ataques, tentou reprimir com violência quem se manifestava pela causa negra. Prevaleceu a justiça. A Suprema Corte deu ganho de causa à MIA,reconhecendo a inconstitucionalidade da lei de segregação do Alabama. Após 382 dias de mobilização,os moradores de Montgomery passaram a dividir igualmente assentos e portas dos ônibus da cidade.

Com a vitória, King virou celebridade nacional e passou a apostar ainda mais na satyagraha. Acredito firmemente que a filosofia gandhiana de resistência pacífica é o único meio lógico e moral para a solução da questão racial nos Estados Unidos, disse, na época.

Acontece que essa estratégia, como quase tudo na vida, tinha vantagens e desvantagens. É lindo falar em resistência pacífica, mas é difícil convencer quem é vítima de segregação e violência a oferecer a outra face, de olho em benefícios futuros que podem nunca chegar. Mesmo com Gandhi e grande apoio popular, os indianos levaram quase meio século para chegar à independência. King esteve na Índia em 1959 e aprendeu essa e outras lições. Voltou sabendo que a satyagraha só funciona com muita persistência.

De fato, não foram poucas as derrotas que sofreu na volta aos Estados Unidos. Em Albany,King foi espancado pela polícia junto com outros participantes de uma marcha contra restrições a negros em locais públicos. Em seguida, a falta de dinheiro fez com que o movimento se dispersasse. Em outro protesto, em Birmingham, a repressão foi ainda mais violenta. Crianças e mulheres foram atacadas por cachorros da polícia, homens foram espancados e King foi preso. Da cadeia, escreveu uma carta em resposta a religiosos cristãos e judeus que lhe pediam mais serenidade. King reagiu: desobedecer leis injustas era um dever moral de todo cidadão.

Depois veio a virada. A repercussão da violência empregada pela polícia de Birmingham, transmitida pela TV, e a carta escrita por King da prisão chamaram a atenção do norte do país. O reverendo aproveitou o momento para convocar uma marcha a Washington em favor dos direitos civis. Em 28 de agosto de 1963, 200 mil pessoas ouviram o discurso I Have a Dream (Eu tenho um sonho).A mensagem era forte: Eu tenho o sonho que meus quatro filhos um dia viverão em uma nação em que não serão julgados pela cor de sua pele, mas pela essência de seu caráter.

A marcha de Washington provocou manifestações em várias localidades do sul. A esperança deu um chegapra- lá no medo. Quem antes tinha receio de lutar contra seus direitos agora ganhava coragem. Fosse por meios legais, fosse por boicotes ou manifestações, várias vozes se juntaram contra a segregação. O debate sobre direitos civis avançou e chegou à esfera federal. O presidente da época era John Kennedy, o primeiro integrante do Partido Democrata eleito depois de muitos anos e o primeiro católico a ocupar a Casa Branca. O momento era ideal para o sonho começar a virar realidade.

Tiro e queda: em 1964, Kennedy promulgou a Lei dos Direitos Civis, que proibia em todo o país a segregação em locais públicos e a discriminação em escolas e para postos de trabalho. Era uma pequena revolução por caminhos legais. Outra vitória aconteceu no ano seguinte, contra um artifício usado pelos estados racistas para impedir negros de votar. Ao se registrar, a maioria era obrigada a passar por um teste para ver se eram analfabetos. Como o teste não tinha critérios claros, a maioria era reprovada. Rosa Parks, a ativista de Birmingham, fez três vezes o teste para conseguir registro. O governo federal proibiu a realização dessa provinha malandra. Em pouco tempo, o número de eleitores quadruplicou em estados como o Alabama.

King passou a ser conhecido em todo o mundo como uma espécie de seguidor negro de Gandhi. Aos 35 anos, foi o homem mais jovem a ganhar o Prêmio Nobel da Paz. O mito, contudo, não era unanimidade.Muitos o acusavam de ser centralizador. Alguns consideravam que estava mais preocupado com sua própria imagem, a exemplo do líder estudantil Stokely Carmichael. Outros, como Malcolm X, o julgavam pouco combativo e ironizavam seu pacifismo. A única revolução em que o objetivo é amar seu inimigo é a revolução negra, disse X, em 1963. Falou mais: Revolução é sangrenta, revolução é hostilidade, revolução não conhece nenhuma concessão, revolução subverte e destrói tudo pela frente.

Contra o Vietnã
King abriu um flanco importante para seus críticos quando se posicionou contra a Guerra do Vietnã, ainda em seu início. Àquela altura, a opinião pública ainda era favorável à intervenção no país asiático, por isso muitos se voltaram contra ele. Houve quem o condenasse por estar deixando a questão dos negros de lado. Para King, as duas questões eram similares. No fundo, tratava-se de mandar jovens negros a mais de 8 mil milhas, ao Sudeste Asiático, para garantir liberdades que eles não encontravam no sudoeste da Geórgia e no leste do Harlem.

King alimentava seus seguidores com uma retórica com ares religiosos. Em outro discurso que ficou famoso, em 3 de abril de 1968, o líder negro disse: Nós teremos dias difíceis pela frente. Mas isso realmente não importa para mim agora, porque estive no topo da montanha.Vi a terra prometida. Posso não chegar lá com vocês, mas eu quero que vocês saibam que nós, como um povo, iremos chegar à terra prometida.

Parte do discurso soou depois como premonição. No dia seguinte, King foi assassinado na varanda de um hotel em Memphis, no Tennessee. A autoria do disparo até hoje é um mistério. James Earl Ray, um segregacionista que foi preso pelo crime, chegou a confessar. Foi condenado a 99 anos e voltou atrás, dizendo que só havia assumido o assassinato atrás de uma pena menor. Histórias de conspiração envolvendo o FBI foram levantadas, mas nunca provadas. Em 1997, a família de King considerou Ray inocente e apoiou um novo julgamento, mas ele morreu um ano depois, antes que fosse realizado.

É verdade que a terra prometida ainda está longe. A desigualdade social entre negros e brancos persiste até hoje, embora os Estados Unidos tenham dado muitos passos para abolir a discriminação racial.Mas as mensagens de King mantêm seu poder, como convite às mudanças pessoais e sociais.

Todo homem deve decidir se vai andar na luz do altruísmo criador ou na escuridão do egoísmo destrutivo. Essa é a decisão, definiu uma vez o ativista. A mais persistente e urgente pergunta da vida é: o que você está fazendo pelos outros? Martin Luther King Jr. fez uma escolha. E você, fez a sua?

PARA SABER MAIS

LIVRO
The Autobiography of Martin Luther King Jr., Calyborne Carson (org.), Warner Book

FILME
Dias que Abalaram o Mundo vol. 4, Editora Abril, www.lojaabril.com.br

NA INTERNET
www.stanford.edu/group/King - O site da universidade norte-americana que tem os principais discursos de King, cronologias e indicações bibliográficas.
www.thekingfoundation.org - É o portal da fundação pertencente à família King. Possui dados bibliográficos dos avós aos filhos de King e conta inclusive a história do assassinato da mãe do líder.

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