Júlio Renato Lancellotti é homem de poucas palavras. Não é dado a firulas, vai direto ao ponto, parece mais interessado em ouvir que em falar. Faz o tipo serião. Pudera: vive tratando de assuntos graves e, às vezes, que envolvem violência. Formado em pedagogia e teologia, Júlio é antes de tudo um educador, que trabalha com crianças e adolescentes em situação de risco – como as que pedem nas esquinas – ou que já comet infrações. Por conta disso, costuma se enfiar no meio de rebeliões e até já foi espancado por funcionários da Febem, o órgão paulista que detém jovens infratores. Também se dedica à Casa Vida (www.casavida.org.br), que fundou para abrigar crianças abandonadas portadoras do vírus HIV. Ah, Júlio ainda celebra missas, casamentos e batizados, dá comunhão e ouve confissões. Sim,esse homem calvo,magro e alto é mais conhecido como padre Júlio, o pároco da Igreja de São Miguel Arcanjo, no bairro paulistano da Mooca. Um religioso de 56 anos que, diante de tantas atividades e tantos conflitos, não tem dificuldade de admitir que às vezes se sente esgotado. Padre Júlio diz que decidiu fazer de sua vida uma entrega, mas será que cobra de todos o mesmo envolvimento? Nada disso. Para ele, o desafio começa com cada um aceitando que o outro pense diferente e sendo tolerante – afinal, diz, paz não é isolamento, mas saber lidar com o conflito, e perigoso mesmo é não ter amigos. Quem conseguir já garante um espaço melhor aqui na Terra – mesmo sem ter nenhuma pretensão de garantir lugar no céu.
O que é viver em paz para o senhor?
A paz consigo e a paz com o outro fazem parte de uma mesma experiência, da mesma vivência. Quem vive nos centros urbanos e se fecha totalmente, achando que assim está em paz, na verdade está vivendo a solidão.O que está acontecendo muito é o individualismo, o egoísmo. Isso leva à intolerância, à incapacidade de aceitar quem pensa diferente, de aceitar o outro. A paz não é o isolamento. Nem numa ilha nem no seu dúplex com ar-condicionado. Precisamos ter relações com os outros.
O que isso significa, na prática?
Lidar com a diferença, com o conflito, com o pluralismo.Você busca a pacificação no meio dos conflitos, das dificuldades, dos desafios. Não no isolamento. Sei que isso não é tão fácil e linear. Muitas vezes você precisa se afastar, fazer um retiro, um relaxamento. A questão é a postura: um individualista que não é capaz de olhar o outro assume posições que levam a um certo amargor, a uma certa intolerância. E uma das questões mais complicadas que vivemos nesses tempos é a intolerância.
Ninguém admite que é egoísta ou individualista. No entanto, o mundo está do jeito que está. O que é aceitar as diferenças?
Sim, nós todos temos nossa dose de egoísmo. Precisamos é trabalhar com ela. Posso conviver com o outro sem precisar destruí-lo. Isso na prática vai exigir abertura, flexibilidade, saber ouvir. Uma das formas é não tomar a sua verdade como absoluta. É um exercício consigo mesmo o tempo todo: o outro tem direito de pensar diferente.
Como isso pode funcionar em momentos extremos, como em um assalto violento, por exemplo?
Veja, não existe nenhuma mágica. O assaltante é um ser humano que quer te fazer mal. E você vai tentar se proteger, não tem jeito. Por isso, o melhor é ter um comportamento preventivo. Andar com a porta travada, o vidro fechado, evitar lugares perigosos. Não vou dizer para você encarar de peito aberto essa situação e tentar um diálogo, porque não dá.Eu não dirijo, mas sei onde estão os cruzamentos mais perigosos. E os evito. Não devemos ser ingênuos. Simplicidade não é ingenuidade. Não é você ir no meio da torcida do Corinthians com a camisa do Palmeiras.
O senhor já foi assaltado?
Sim. Certa vez, um homem encostou no carro e me disse: “Passa esse rádio senão te dou um tiro na cabeça”. Eu olhei para ele e falei: “Você é tão bom, não vai fazer uma coisa tão horrível dessas” [risos]. Acho que ele ficou tão surpreso que foi embora. Para sorte minha, não estava armado. Não posso tomar como verdade absoluta que a resposta correta seja essa. Naquele momento deu certo, não quer dizer que sempre será assim. Quando você é vítima de algum tipo de violência, vai manifestar de imediato a forma como lidou com a vida até ali. Não dá tempo de desenvolver um raciocínio muito elaborado. Se já estiver acostumado a se pacificar, apesar de estar no meio dessa guerra, será mais fácil.
Como o senhor consegue esse diálogo com pessoas tão maltratadas pela vida?
É difícil mesmo. É preciso, em primeiro lugar, ouvir. Depois, foram necessários anos e anos construindo vínculos afetivos com eles. Não é uma coisa improvisada. Não tenho nenhuma capacidade especial. Eles confiam no que eu digo e eu confio no que eles dizem. É o que costumo dizer para as crianças da Casa Vida, que muitas vezes são vítimas de preconceito: não é perigoso ter um amigo com aids, perigoso é não ter amigos.
Deus existe para essas pessoas?
Vou te contar uma historinha. Quando os meninos da Febem foram mandados para um presídio, eles me pediram para fazer uma oração lá. Um deles, o Cícero, se negou a rezar. Perguntei por quê. “Odeio Deus. Minha vida sempre foi muito infeliz, uma desgraça. Não tenho motivos para gostar dele.” Então fiz outra pergunta: “Você me odeia?” Na hora, ele respondeu que não, que gostava de mim. “Quem gosta de alguém não odeia Deus”, eu falei. A gente encontra Deus nas relações, nos bons sentimentos. Ele está aqui e agora. Não espere que Ele esteja num lugar inatingível. Esse negócio de eu com Deus, Deus comigo, lá no céu, não existe. Não se trata de um pacote que você compra e Ele está incluído.
Quando o senhor se cansa?
Eu gostaria muito de ter uma vida simples, como a revista. Até porque minha vida é um inferno! [risos]. Às vezes, os conflitos ultrapassam a barreira do administrável. Esgota mesmo. Celebro a missa todos os dias e busco uma forte interiorização para agüentar o tranco. E também decidi fazer da minha vida uma entrega. Agora, acredito que todos nós devemos ter uma visão ampla do nosso papel no mundo. Estamos inseridos em correntes históricas. Você escolhe a corrente em que quer entrar e a perpetua.