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Marcelo Noah é poeta. Mas tem história na sua vida que dava mesmo era conto, daqueles que os escritores passam dias imaginando. Quando era bem pequeno, sua avó Suzana, uma figura para lá dos 80 anos, costumava visitá-lo ao cair da tarde. Chegava sempre para o café, com uma lata de Leite Ninho, cujo pó o neto devorava sem piedade. Diante do sucesso, as latas começaram a aparecer embrulhadas em papel de presente. Marcelo ganhou Leite Ninho em aniversários e até mesmo no Natal. Nessas datas especiais, vinham duas latas. Às vezes, a vó Suzana embalava junto ao Leite Ninho uma camiseta e duas meias e colocava o embrulho debaixo da árvore de Natal. Hoje,Marcelo tem 27 anos, e as latas de leite em pó nunca cessaram.Toda vez que minha avó vai à minha casa, ela chega e diz: Adivinha o que eu trouxe? E tira o Leite Ninho da bolsa. E eu sempre rezo para ser mesmo o Leite Ninho. Nem se fosse uma coletânea do Noel Rosa eu ficaria tão feliz, diz Marcelo, que faz questão de frisar que tem mais três irmãos, mas que só ele ganha o presente. Fico iluminado, volto a ser criança mesmo.
Todo mundo tem uma receita ou um quitute que, na primeira bocada, é capaz de parar o mundo e transportá-lo para outro tempo e espaço. Trazer memórias, recordações de sua própria história. Seja da infância, da terra natal ou de um destino longínquo visitado numa data quase esquecida.Comida que traz memórias afetivas, que aconchega. Casos como o de Marcelo, que estão aqui para lembrar a gente de saborear nossas emoções mesmo que elas morem dentro de uma lata. Sensações que entraram pela boca, pelo nariz, pelos olhos, pelos ouvidos. Foram abocanhadas, mastigadas e bem armazenadas. E podem ser degustadas novamente, quantas vezes você provar dessa comida especial que alimenta a alma.Ao longo da vida vamos criando esse menu de recordações que começa na infância.
Tudo a ver. Nessa fase da vida estamos sempre acolhidos. Tem sempre alguém preocupado se você comeu direito, se está bem agasalhado, se foi tudo bem na escola. Na rua em que a escritora Rosa Nepomuceno cresceu, em Botucatu, interior de São Paulo, era só alguém espirrar para a vizinhança inteira se mobilizar. Quando menina, ela teve um problema nos rins e recebia diariamente de uma vizinha um prato de pastel de banana feito com massa sem sal ela não podia comer sal. Até hoje não sabe o que curou os sintomas, se os cuidados médicos ou os pastéis da dona Iolanda.
Anos depois, já adulta e morando num prédio antigo no Jardim Botânico, no Rio, Rosa pegou uma pneumonia. Qualificada de sem-vergonha pelos médicos, mas forte o suficiente para deixá-la duas semanas de cama.Ela,que não é boba nem nada, logo alertou a vizinhança sobre sua enfermidade. Gracinha, sua amiga, mandou o filho levar um prato de fusilli com molho de tomate e manjericão que perfumou o corredor inteiro. Ione, vizinha de porta, recém-chegada de longa temporada em Nova York, ansiosa por recuperar o calor das relações humanas, fez sopa de abóbora recendendo a gengibre.Da casa da filha, chegaram um tabuleiro de bolo e uma cumbuca do saboroso feijão preto da Nonô, babá de sua neta. Essas coisas aquecem o corpo e o coração. Trazem a memória da minha família, muito calorosa, casa grande, cheia de gente, todo mundo se preocupando com todo mundo.
Quando estamos tristes ou adoentados dá mesmo vontade de comer essas delícias que acalentam a alma. Certa vez, num restaurante em Madri, a escritora chilena Isabel Allende pediu quatro pratos de arrozdoce e um quinto de sobremesa. Comeu todos sem piscar, na esperança de que aquela delícia nostálgica da sua infância ajudasse a suportar a dor de ver sua filha muito doente. Nem minha alma nem minha filha se aliviaram, mas o arroz-doce ficou associado na minha memória a consolo espiritual, diz ela no livro Afrodite, Contos, Receitas e Outros Afrodisíacos.
É o caso da moqueca de camarão com banana da terra. Hugo provou o prato pela primeira vez na barraca de praia da Josie, em Boipeba, na Bahia. Feito o pedido, a delícia demorou umas três horas para chegar à mesa. Nesse tempo, Hugo visitou a cozinha e viu que a comida era preparada como em sua casa. Você pega um pouquinho de sal daqui, quebra umas folhas ali, corta a cebola. Bate papo, deixa a comida no fogo, toma um cafezinho, volta. É um jeito de cozinhar muito gostoso e de alguma forma a comida passa isso, relembra Hugo. Nem é preciso dizer que a moqueca ficou divina. Foi saboreada numa mesa improvisada com arranjos de marias-sem-vergonha arrancadas do quintal e colocadas em cocos secos (belo clima para pôr num anúncio fictício). No final, Josie deu todas as dicas para Hugo reproduzir a gostosura.
Quando Hugo come a moqueca no Obá, em São Paulo, vem a sensação de pé na areia, sol, mar, de momento feliz. E não só pelo sabor. As memórias gastronômicas estão impregnadas em todos os sentidos. Quem conhece sabe que a moqueca é um prato de molho alaranjado, vibrante, cor de luz, que para ele lembra o sol. O camarão tem cheiro de mar. A banana da terra é tropical, sugere uma paisagem paradisíaca salpicada por coqueiros. Como em Boipeba, no Obá a moqueca é servida borbulhante numa panela de barro, não em um prato branco. A sensação é completamente diferente conforme o visual. Tem um jeito de comer salada em casa que é alface, tomate em cima, azeite e vinagre. Você não tem que criar uma torre piramidal com ângulos retos. A cor e a textura já são lindas. Assim fica com gosto de comida de casa. Lembra as receitas que dão aconchego porque você conhece de outros carnavais. Ou outros natais, páscoas, aniversários.
As ceias de Páscoa e Natal são outras tradicionalíssimas. Pernil ou peru assado, frutas e frios e um toque familiar em cada mesa. Todo ano o mesmo. Se mudar, todo mundo reclama. Na casa do chef Marcelo Favaro, no Natal tem bolo de frutas secas que a avó dele já fazia. Certa vez, empolgadas com a abertura de uma escola de culinária nas redondezas, a mãe do chef juntou as vizinhas e irmãs e foram todas fazer curso de ceias de Natal.Voltaram cheias de novidades. O resultado foi uma ceia impecável. Um brinco.
Só tinha um problema.Marcelo foi à casa da vizinha da frente, do lado, da rua de trás, tentou a casa da tia. Todas as ceias eram iguais, sem originalidade. Foi o suficiente para que, no ano seguinte, tudo voltasse a ser como antes. Quando se aproxima o Natal , a mãe de Marcelo já compra os ingredientes para a torta de frutas secas. É sucesso garantido nem precisa fazer anúncio bonito.
Quando Hugo Delgado foi para a Turquia, sua mãe disse que ele iria adorar a comida daquele país diferente, porque ela teria sabor de povo. Hugo alugou um barco. Eram seis pessoas e o capitão, que dirigia e cozinhava. E a comida dele, para Hugo, era familiar. Eram sabores completamente novos. Mas o que me lembrava minha casa não eram os temperos, mas a sensação.O capitão fazia comida, ia fumar, cortava o alimento, dirigia. Era o capitão de um barquinho, não era um chef de cozinha. Diz ele que a comida era gostosa, não exatamente deliciosa. Normal. Você pode comer um prato de gosto maravilhoso, mas que não faz conexão com nenhuma memória. Delicioso é bom de paladar.Afetivo é bom de lembrar.
Quando fizer uma viagem, traga mais que fotos ou relatos. Volte com receitas. Se quiser matar a saudade de alguém querido, se lambuze com um prato que costumava comer nessa primorosa companhia. Cozinhe em banho-maria essa sensação gostosa de aconchego, aqueça em fogo baixo, mexa lentamente. E se delicie com essa comida gostosa, porque ela abraça você, em todos os sentidos.
LIVROS
Afrodite Contos, Receitas e Outros Afrodisíacos, Isabel Allende, Bertrand Brasil
Por uma Gastronomia Brasileira, Alex Atala, Bei
Alegria, a Felicidade que Vem de Dentro, Osho, Cultrix
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