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Somos predadores

Poupar os bichos parece ridículo para a maioria das pessoas

por Soninha Francine | foto Thais Beltrame

Todo mundo acha a maior graça no fato de eu não matar insetos (porque pretendo seguir a não-violência do budismo ao pé da letra). Pegar um pernilongo com cuidado e jogá-lo pela janela é motivo de risos incrédulos. Assoprar formigas em vez de esmagá-las gera olhares de reprovação ou preocupação com meu estado mental. “Você não está exagerando?”, alguns criam coragem de perguntar – temendo que eu esteja virando fanática, vítima de uma lavagem cerebral que faz as pessoas perderem a noção da realidade.

Admito: alguns anos atrás, eu também acharia. Para mim, era um exagero patético respeitar a vida a ponto de querer poupar as formigas. São bilhões, trilhões, infinitilhões – que dano traria ao mundo destruir um formigueiro? Ainda mais um construído no lugar errado, afinal, a parede da cozinha não é o habitat natural desse povo.

É evidente que mudei de idéia. Formigas e baratas podem não valer nada para a gente, mas a vida delas tem muito valor... para elas mesmas. Toda forma de vida, por mais rudimentar que seja, tenta se proteger, se preservar. Toda vida tem mecanismos de defesa. Depois que a gente se acostuma a não matar formigas e outros seres, passa a achar estranho o comportamento contrário – o solene desprezo ou desatenção pela vida deles.

Mas o que fazer quando esses pequenos seres ameaçam a saúde ou prejudicam o conforto dos humanos? Quando cupins devoram seus armários, pulgas infestam seus lençóis e baratas passeiam pelas suas gavetas de talheres?

Conheço pessoas tão radicais na preservação da vida que seriam capazes de sacrificar o guarda-roupa para não ter de matar os cupins. Mas a maioria não iria tão longe, e embora eu tenha pudores em defender o direito de matar “se for o caso”, admito que em algumas situações o faria... Então, qual é a diferença?

A diferença é parar para pensar. É reconhecer outra forma de vida como válida em si mesma (e não segundo a sua utilidade ou inutilidade para mim). É tentar diminuir o ímpeto aniquilador, tentar reduzir o impacto destrutivo que temos no mundo. Nós ficamos horrorizados com os grandes predadores nos documentários da TV a cabo, mas somos muito mais impiedosos.

Quer sejamos carnívoros ou vegetarianos, matamos muitos seres para nosso sustento. Plantar soja causa um estrago danado. Destroem-se florestas e cursos d’água, sacrificando passarinhos, borboletas, peixes, formigas, gafanhotos, minhocas, roedores, macacos, felinos. O mesmo vale para o algodão que nos veste. Produzimos toneladas de dejetos e detritos – somos muito mais nojentos que as baratas!

Nós, humanos, matamos seres para viver, matamos porque nos ameaçam, porque são úteis ou porque são “inúteis”. Se deixarmos de matar um pouquinho só, quando isso é absolutamente dispensável, acabamos tendo olhos mais atentos para a vida em geral, incluindo a humana. Parece um bom motivo.

Soninha Francine já teve medo e nojo das baratas, nunca pensou que pudesse ter compaixão por elas. almafeminina@abril.com.br

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