Toda vez a moça do check-in pergunta: Janela ou corredor? Quero sempre janela. Adoro aquela visão mágica de quando o avião começa a ganhar altitude. A paisagem que parecia tão comum passa a surpreender. Dá para ver gente na varanda, o movimento dos carros, uma vaca no pasto. Mas o avião continua subindo e aos poucos o chão vira um tapete uniforme. A poesia desaparece. Por isso, delirei quando o piloto Isio Bacaleinik me convidou para uma experiência diferente. Voar, sim, mas bem baixinho. A bordo de um monomotor, refazer rotas do Correio Aéreo Nacional, órgão criado em 1931 para ligar pontos de um Brasil sem estradas. Para quem gosta de uma janelinha, agora sim eu estava feliz.
Bailado no ar
Duzentos metros: essa é a altitude. A paisagem fica completa. Dá para ver as telhas das casinhas e também as ondas do relevo, como aqui, no Araguaia. É um banquete para quem fotografa. Verdade que a empreitada não foi um passeio. As paisagens e o biplano Stearman de 1941, que Isio pilotava, eram uma beleza, mas cada foto exigia um bailado difícil. Eu segui com o piloto Tadeu Gobbi em outro monomotor, mais moderno. Sentado com as pernas de fora, apoiado em um estribo e amarrado por mosquetões, fui chicoteado pelo vento por 150 horas. No fundo, os cliques foram feitos a seis mãos, porque o enquadramento dependeu muito dos pilotos. Era preciso passar diante do cenário várias vezes, dar voltas e mais voltas, até conseguir algo próximo do que eu tinha na cabeça. Íamos no limite de cada um.
Descobrindo os Brasis
Vi vários Brasis. Verdes, vermelhos, negros, amarelos de sertão. Escolhemos refazer a rota do Tocantins do Correio Áereo, saindo do Rio de Janeiro, indo para São Paulo e pingando em linha quase reta rumo a Belém. Nesse mundão de terra, a água atrai os olhos. Do alto, as praias de rio e de mar revelam contornos e cores que nunca se repetem. Nos rios, há praias avermelhadas, outras mais amarelas, algumas escuras. Com desenhos curvos, retilíneos, parecendo infinitos. Às vezes, água e terra formam paisagens abstratas, em que o único toque de realidade são as pequenas canoas de pescador. No mar, é o litoral sinuoso e o movimento das ondas o que mais surpreende. Logo no começo da viagem, ainda entre Rio e São Paulo, a restinga da Marambaia nos deu de presente este instante que você está vendo.
Beleza silenciosa
Sobrevoar o Jalapão, no Tocantins, foi diferente de tudo que tínhamos visto até então. A área é completamente deserta e a paisagem é incrível, como o cânion sinuoso do rio Novo ou estas dunas douradas da serra do Espírito Santo. Sou um cara de sorte, pensei. Depois outros sentimentos apareceram. A felicidade por estar vivendo aquela situação muito especial e, ao mesmo tempo, uma certa frustração por não conseguir, por mais que eu me empenhasse, registrar toda aquela beleza com minha máquina. Isso acontece às vezes: vivo alguma coisa tão surpreendente, que quando encontro outras pessoas acho melhor ficar calado. Pois qualquer descrição, por mais minuciosa e entusiasmada que fosse, não seria nada comparada com a situação vivida. São coisas que acabam guardadas só dentro da gente.
Contatos imediatos
Um dia voamos até Lagoa do Tocantins, onde havia uma pista de pouso no meio da cidade. Rodeando por cima, vimos crianças saindo das casas num movimento que parecia o de um formigueiro, todas correndo para a pista. No solo, a gente se sentiu como ETs chegando de outro planeta. Espanto geral. Os meninos vinham perto para passar a mão nos aviões, ver do que eram feitos, enquanto velhos tiravam o chapéu para coçar a cabeça. Fomos embora com a impressão de que pouca coisa tinha mudado ali desde os tempos do extinto Correio Aéreo Nacional. No fim do projeto, que virou livro, fiquei com uma baita dúvida: será que o que me leva a fotografar é a fotografia em si ou ela é só uma desculpa para viver tudo isso?
PARA SABER MAIS
NA INTERNET
www.correioaereo.com.br - site que conta detalhes do projeto Nas asas do Correio aéreo