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Ermitão antenado

Para não ser tratado como um marciano, Flávio Migliaccio prefere viver num sítio e conviver com o pessoal sem-cerimônia de uma cidadezinha pacata

por Fernanda Dannemann | foto André Lobo

Lembra aquele personagem, o Tio Maneco? Ah, não lembra. E do Xerife? Ih, não é do seu tempo. E do Seu Jacques, lembra dele? Também está difícil, né? Pois com o ator Flávio Migliaccio é assim: seus personagens sensíveis, às vezes gauches, comovem de maneira discreta. Parecem o pai. Não adianta procurar Flávio nas revistas de celebridades. Se quiser encontrá-lo, é mais fácil ir a seu sítio, nas vizinhanças de Rio Bonito, cidadezinha a 50 quilômetros do Rio. É lá que ele mora, avesso aos flashes e rapapés, por mais que sua agenda esteja cheia. Agora mesmo, Flávio vive um dos momentos mais produtivos dos seus 51 anos de carreira. Está atuando no filme Os Porralokinhas, de Lui Farias, revivendo o Tio Maneco, que ele mesmo criou nos anos 70 e que protagonizou três longa-metragens infantojuvenis. Trabalhou na novela América, da Globo, em que interpretava um vidente. E acaba de filmar Boleiros 2, de Ugo Giorgetti. Aos 71 anos, ainda sobra energia ao ator para, ao mesmo tempo, produzir um curta, escrever uma peça de teatro e dirigir um grupo de atores amadores. “Estou na flor da idade”, afirma Flávio, que é casado há 42 anos. Veja nesta entrevista como seu modo de viver tem muito a ver com isso.

Por que você quase nunca sai do seu sítio no interior?
Porque é muito bom bater um papo com as pessoas humildes, é ótimo ser olhado de igual para igual. Na cidadezinha próxima, as pessoas deixaramde me ver como artista da Globo há muito tempo, posso ser eu mesmo, sem precisar dar autógrafo ou sorrir com a simpatia que muita gente espera. Uma das melhores coisas da vida é essa liberdade, embora as pessoas que não são famosas nem se dêem conta disso. Na cidade do interior a vida é mais fácil: dói o dente, o dentista está a alguns quarteirões. Não tem dinheiro para pagar? Ele faz fiado. Você nunca está só, porque atravessa a rua e encontra um conhecido.
Você é visto por algumas pessoas como ermitão. É verdade?
Valorizo o silêncio. E, se uma situação me incomoda, saio imediatamente, seja de onde for, até mesmo de um almoço na Presidência da República. Sou incapaz de agüentar uma coisa que me faça mal ou que exija muito da minha paciência ou do meu bom humor. A gente tem é que ser feliz e estar em harmonia, acredito que não temos o direito de fazer mal a nós mesmos. Cuidar da minha paz de espírito é minha obrigação como ser humano. Se alguma coisa der errado e eu ficar doente, terei a consciência tranqüila de que não busquei a doença. Tem gente que, realmente, se mata pelos outros. Eu prefiro viver. E bem.
Mas você não tem vida social?
No Rio, muito pouco. É chato ser olhado como se eu fosse verde e tivesse duas antenas ou como se sempre estivesse pronto para fazer alguém dar risada. Em geral, as pessoas esperam que eu seja engraçado, e eu realmente não sou. Na cidadezinha próxima ao sítio, eu circulo bastante porque me envolvo com coisas da cidade. Tenho um grupo de teatro, montei dois times de futebol, gravo e edito clipes de serenatas dos músicos locais, sou “amigo da escola”. Agora mesmo ando tentando convencer os professores a substituir uma campainha horrorosa, acionada na hora do recreio, por um sino, que é bem mais melódico.
Qual é a melhor coisa para quem completa 71 anos?
Talvez seja poder dizer “desculpem-me por eu ter sido apenas o que fui”. E ninguém te questionar muito a respeito disso.
O que você acha do dinheiro?
É a pior coisa que a sociedade já inventou, porque tem muita gente que acha que só terá alegria e prazer se tiver dinheiro. Que a minha mulher não leia isto, mas eu nunca dei atenção ao dinheiro que entrava ou saía. E ele nunca me faltou. Quanto mais mão-aberta eu sou, mais ele vem. O bom do dinheiro é você poder pagar as contas e estender a mão a alguém.
E da fama?
No começo fiquei deslumbrado, depois amadureci. Vi o lado negativo da fama justamente quando estava no auge, nos anos 70, quando estava no ar o programa infantil Shazan, Xerife e Cia., que fiz com o Paulo José. Eu estava numa estrada de terra e vi um atleta magrinho correndo com uma tocha olímpica. Felicíssimo, correndo, me explicou que era aniversário da cidade, que haveria uma festa quando ele chegasse, com hino, bandeirinha, e que o prefeito lhe entregaria a chave da cidade. Fui junto para ver como seria, mas, quando chegamos, eu fui o rei da festa. O rapaz, no meio da confusão, foi ignorado. Fiquei arrasado. Estou até fazendo um filme com essa história, porque a tristeza dele me impactou muito. Essa situação que eu presenciei mudou a minha concepção sobre a fama. Ser conhecido pela massa acaba te levando a coisas que não são realmente importantes, como a vaidade. A função do artista não é disseminar a cultura da vaidade.
Como você consegue paz interior num mundo tão caótico?
Não dou importância às mágoas, sempre tento enxergar o lado positivo das coisas e das pessoas, ainda que a situação não seja a ideal. Não sofro por antecipação e procuro não brigar com as questões imutáveis da vida. E vejo que esse esforço acaba me levando a limpar a mente. A princípio pode parecer mais fácil se deixar levar pela avalanche de sentimentos ruins tão comuns na vida diária: o medo, o ressentimento, as necessidades do ego. Se alguém me decepciona, tento separar aquela atitude de todo o resto que a pessoa é. Não é porque pisou na bola que não presta. Todo mundo tem defeito e mérito. Prefiro prestar mais atenção aos méritos.
Vale a pena escrever um livro ou uma peça, ainda que ninguém vá ler, como você costuma fazer?
Vale. Nada é mais gostoso do que ser criativo, e isso todo mundo é. Tem que exercitar, sentir o prazer de desenvolver o seu talento. O Van Gogh pintava porque se sentia bem, era como ele se comunicava. Eu estou sempre escrevendo, desenhando, inventando, dirigindo meu grupo de teatro lá no sítio com o pessoal da cidade. Se alguém vai ver ou não, não estou nem aí. Adoro computação, estudo, não tenho preguiça de aprender, apesar de as pessoas acharem estranho um homem de mais de 70 estudar informática. Mas eu digo: estou na flor da idade.
Você acredita em Deus?
Não, e acho que a gente tem que ter muita coragem para não acreditar em Deus aos 71 anos. Tem gente que acredita no Deus barbudo que determina castigos. Para outros, Deus é o shopping, o salário, o sexo. Para mim, se há um Deus, é a força criativa que temos dentro de nós.

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