![]() |
![]() |
Imagine um salão com capacidade para umas 50 pessoas. Agora coloque mais de 200 nesse mesmo espaço. Todo mundo apertado, tipo ônibus lotado em dia de greve no metrô. Para piorar, um calor senegalês e o povo tentando dançar, ao mesmo tempo, uma música altíssima. Foi assim que presenciei um casamento muçulmano no Marrocos algumas semanas atrás. Era tanta gente que uma hora pensei que fosse sufocar. Estranhamente, no entanto, o ambiente exalava delicadeza. Mesmo com o empurra-empurra, não havia tensão no ar. Pelo contrário, foram momentos agradabilíssimos, que jamais sairão da minha cabeça.
Mas, afinal, por que me senti tão leve no meio dessa galera toda? Simples: porque no Marrocos só as mulheres podem participar de uma festa de casamento. Nem o noivo tem direito de presenciar a mulherada comemorando as bodas. Se a celebração fosse aberta aos homens, muito provavelmente eu teria a mesma sensação de estar na arquibancada de um estádio em final de campeonato. Com certeza, a atmosfera seria mais carregada e agressiva, como é comum quando muito marmanjo barbudo se junta (e olha que não faltam barbudos no Marrocos...).
Essa aventura me provou o que eu já suspeitava: as mulheres possuem essências – quer dizer, características de fundo – fundamentais para vivermos num mundo mais bacana. Obviamente há exceções, mas de modo geral elas conservam traços interessantíssimos, com os quais podemos aprender muito. As mulheres costumam ser suaves, mesmo nos momentos duros, ter a intuição mais aguçada e conseguir cuidar dos outros como se fossem mães.
Claro, também é possível aprender com os homens – mais arrojados e freqüentemente mais talentosos para lidar com situações de pressão, por exemplo. Mas, vamos concordar, durante muito tempo foi a energia masculina que deu forma ao mundo. Nada melhor do que reequilibrar as coisas. Ainda mais porque esse olhar feminino não é monopólio delas, está em todas as pessoas. Como já disse o psicanalista britânico Donald Winnicott, “o feminino é dom tanto da mulher quanto do homem, um atributo do ser humano”. Só é preciso cultivá-lo.
“Desde o início da civilização, quando o homem saiu para caçar e deixou a mulher cuidando do lar, a história do mundo e do poder tem sido contada por vozes masculinas”, diz a antropóloga Beatrice Gropp. “Durante séculos, nossas essências femininas foram encarceradas dentro de casa e vistas como sinônimos de fragilidade.” Isso está mudando. Os homens começam a trabalhar seu lado feminino sem receios. E as mulheres, após décadas precisando se masculinizar para vencer no mercado de trabalho, podem enfim assumi-lo sem medo de serem tachadas de frágeis. Aos poucos o mundo vai ficando mais cor-de-rosa. E por isso mesmo mais equilibrado.
Por razões que vão de taxas hormonais a influências culturais, as mulheres em geral possuem uma maneira mais delicada e doce de se colocar no mundo. Tanto é assim que até seguro de carro para elas é mais barato. “Elas cometem 20% menos colisões que resultam em perda total do que eles. São mais delicadas ao volante”, diz Marcelo Sebastião, gerente de uma companhia de seguros. Por isso, é comum as moças pagarem quase 10% menos para segurar seus automóveis. Ser suave, porém, não tem a ver apenas com a maneira de dirigir. “Isso aparece principalmente na forma como ouço e recebo o que vem do outro e como devolvo isso a ele”, diz a psicoterapeuta Ruth Chemin, coordenadora do Fêmina, um grupo de trabalho que ajuda mulheres a se conhecerem melhor. “Não é ser passivo, pelo contrário. É transmitir as idéias sem agredir ou dominar. A mensagem pode ser intensa, forte, mas mesmo assim serena e suave.”
É o oposto, digamos, de George W. Bush ou da maioria dos grandes líderes do planeta (incluindo aí mulheres como a “dama de ferro” Margareth Thatcher, ex-primeira-ministra inglesa). Agressivos, competitivos e irresponsáveis, eles levaram à última instância suas essências masculinas. Exageraram na dose de testosterona e desequilibraram o yin e o yang do mundo. “Não pensar no futuro de seus atos, como faz Bush, é muito masculino e yang”, diz Canalonga. “Precisamos equilibrar mais nosso yin, sermos mais suaves, pacientes e receptivos. Saber que o que fazemos hoje vai ter peso amanhã. Isso é ser delicado.”
Foi o que aprendeu Márcia Melaré, segunda mulher a ocupar a vice-presidência da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) de São Paulo. No começo da carreira, negando sua natureza feminina, ela era durona, insegura e, segundo diz, “assexuada”. Aos poucos percebeu que isso só atrapalhava e que delicadeza na dose certa é infalível. “Descobri que um sorriso na hora propícia me tira de muitas saias-justas e deixa o ambiente bem mais descontraído”, diz ela. “Posso chamar a atenção de alguém, mas logo em seguida faço uma brincadeira para suavizar o clima.”
Para atingir esse estágio, é preciso desacelerar. Pensar antes de falar, segurar a agressividade. Assim como Lao Zi não tem pressa em cima de seu boi (do contrário, poderia ter optado por um cavalo, símbolo yang da força), podemos trilhar nossos caminhos bem mais suavemente. E fazer do mundo um lugar mais terno.
É para lá de complexo definir o que é exatamente intuição, palavra que deriva do grego intuire (“ver por dentro”). Filósofos e cientistas há séculos se debruçam sobre o assunto, mas, em linhas gerais, intuição é um conhecimento interior que se expressa por si próprio. Uma condensação de várias linhas de pensamento num único momento, no qual a mente reúne rapida e involuntariamente diversos dados e chega a uma conclusão. E isso não tem nada a ver com presságio, pressentimento ou superstição. Trata-se de algo que pode facilitar a vida.
O interessante é que, por uma série de razões, a tal da intuição manifestase com mais freqüência entre as mulheres. O chamado sexto sentido não é lenda, mas um dom que a mulherada conhece faz tempo. “Existe realmente uma predisposição biológica no sexo feminino para perceber coisas que vão além do racional, de ouvir seu próprio corpo e ler mensagens que estão por trás das palavras dos outros”, diz a psicanalista Priscila de Faria Gaspar, com formação também em ciências biológicas.“ Isso talvez seja resultado de uma seleção natural desde a época em que, enquanto seus machos iam caçar, elas tinham de ficar em casa decifrando as necessidades dos filhos pequenos.”
A empresária Cristiana Arcangeli sabe bem como se beneficiar da intuição, especialmente no trabalho. No comando de uma empresa que distribui marcas de cosméticos estrangeiros no Brasil, ela volta e meia usa seu faro para bater o martelo em decisões que muitas vezes valem milhões. “Na hora de escolher entre duas essências de perfume para vender, é comum eu falar: ‘É essa e pronto!’, sem maiores explicações. E quase sempre acerto. Claro que não saio por aí fazendo isso sempre, mas sei que nem tudo precisa ser cientificamente comprovado.”
Até o ciclo menstrual ajuda a intuição feminina. Mesmo aquela sua chefe durona tem de escutar seu corpo todos os meses e dar importância a informações que nascem de sentidos menos óbvios. Saber decifrar nossos sinais é um baita exercício que ajuda a trabalhar o lado intuitivo. “Ovular é uma fantástica conexão com a natureza, que serve para nos lembrar que nem tudo está sob nosso controle”, afirma a antropóloga Beatrice Gropp, que estuda temas femininos há mais de três décadas.
Enquanto pessoas que gostam de racionalizar tudo levam dias para se convencer de que determinada atitude é mesmo a melhor, os intuitivos cortam caminho e chegam a conclusões menos óbvias em menos tempo. Bom, não? O legal é que não é preciso ser bruxo ou ter poderes sobrenaturais para desenvolver esse lado. Ou, no caso dos homens, esperar para nascer mulher em outra encarnação. Basta prestar mais atenção nos detalhes ao redor, especialmente no seu corpo, já que é a partir dele que a intuição em geral se expressa – por exemplo, naquela sensaçãozinha estranha no estômago quando parece que algo não vai bem. E aceitar que as informações vêm muitas vezes de caminhos não-tradicionais.
Resumindo: acredite no seu faro, siga seus instintos e dê ouvidos àquela vozinha que aparece de vez em quando dentro da gente, para a qual os mais racionais nunca dão importância.
Trata-se de um instinto maternal que quase sempre vai além da cria e acaba se refletindo na relação amorosa com o companheiro, com os amigos e também no ambiente de trabalho. E aparece desde muito cedo. Quem já não se divertiu observando uma garotinha brincar de boneca? Com o maior cuidado, ela veste, cuida, finge que dá mamadeira e coloca o brinquedo para dormir. No livro The Essential Difference, Simon Baron-Cohen analisou o comportamento de garotos e garotas pequenos enquanto brincavam de carrinho. “Os meninos tendiam a bater o brinquedo nas outras crianças, enquanto as meninas tomavam o maior cuidado para não esbarrar ou machucar ninguém. São mais atenciosas e preocupadas com os outros”, relatou.
Esse lado mãezona, que durante décadas ficou restrito apenas à vida pessoal, ganha cada vez mais espaço no trabalho. Na época em que as mulheres tinham de vestir tailleur e ombreiras, como uma espécie de armadura para se igualar ao sexo oposto, ser maternal era visto como fragilidade. Hoje, essa visão tornou-se antiquada. “As empresas já se ligaram em quanto é produtivo ter chefes mais carinhosos e preocupados com o funcionário”, diz Christina Larroudé de Paula Leite, professora da FGV e autora do livro Mulheres – Muito Além do Teto de Vidro.
Marcelo Amaral trabalhou durante quatro anos no marketing de uma multinacional. Tinha um chefe homem e três chefes mulheres. Enquanto o primeiro cobrava resultados na base do berro, as outras procuravam entender os erros e ser mais tolerantes. “Aprendi na prática que acolher e ser compreensivo surte mais efeito que ser agressivo. Depois dessa experiência, virei uma pessoa melhor”, afirma Marcelo.
Cuidar e acolher, diga-se, não é apenas ser atencioso em momentos difíceis. É também tolerar o diferente e treinar para ser condescendente. “É dar colo, saber ouvir e abrigar a dor alheia”, diz a psicóloga Marisa Sanabria, autora do livro A Procura do Feminino. Por conta disso, um pouco da ousadia acaba desaparecendo. Arrisca muito quem não teme perder. Quem cuida e se preocupa vai devagar.
E quem disse que essa é uma qualidade só das mulheres? O publicitário Tiago Mucio é prova viva de que todo mundo pode e deve aprender a acolher e cuidar. Casado há quase três anos e bem-resolvido com sua porção feminina, é ele quem faz muitas tarefas da casa. Mais: diante de uma briga conjugal, é o primeiro a tentar entender o comportamento da companheira. “A Roberta é mais durona e às vezes até mais masculina do que eu. Sou mais ‘mãezona’, de fazer um jantar especial ou lembrar de comprar um presente para o sobrinho”, conta Tiago. “É legal porque as coisas se equilibram. Do contrário, seria uma brigaria sem fim.”
Como dizem os budistas, precisamos desenvolver mais nossa capacidade de ser tocados pelas alegrias e dores que nos cercam. “Acolher é uma característica feminina das mais maravilhosas”, diz a monja Coen, da Comunidade Zen-Budista Zendo Brasil. “Na hora em que acolho, não sou mais apenas eu, me torno também o outro acolhido. Deixo de ser um e me multiplico. O Universo, em resposta, sorri e agradece.”
O problema é que, numa sociedade masculina, objetiva e competitiva como a nossa, parece feio assumir que as emoções ocupam um papel fundamental em nosso comportamento. “Passamos por um processo perverso que desconsidera o afeto e a emoção. O que importa é o que há de fora para dentro, a fachada, a imagem”, diz a psicanalista Teresa Haudenschild, da Sociedade Brasileira de Psicanálise.
É polêmico afirmar que as mulheres lidam melhor com seus sentimentos, mas é certo que sabem levá-los em consideração de forma mais tranqüila. “Na nossa cultura, nós, mulheres, temos mais permissão para assumir as emoções”, afirma a antropóloga Maria das Graças Pinho Tavares, coordenadora do programa “A Executiva e o Feminino”, que resgata a feminilidade das mulheres no meio profissional. “E o cara muito sentimental ganha fama de maricas. Muitas mulheres também se comportam assim e se transformam em rolo-compressor ao virar chefe.”
Mas responda rápido: que mal há em assumir que as emoções têm peso importante em todas as áreas da vida, incluindo o trabalho? Ninguém está aqui dizendo para você abrir o berreiro no meio de uma reunião ou sair gritando com os colegas. “É preciso parar de querer controlar tudo e deixar que a emoção flua”, diz a psicoterapeuta Ruth Chemin. “O primeiro passo é reconhecer que o sentimento existe. Assim é possível refletir sobre ele.”
Gleisi Hoffmann é diretora financeira da hidrelétrica de Itaipu e comanda 271 homens e 89 mulheres, num cargo que exige praticidade e sangue frio. Diante dos desafios, Gleisi poderia virar um trator. Em vez disso, levou seu lado emocional para dentro da empresa. “Exercito isso quando me esforço para ver que o outro também tem sentimentos, não tentando dissociá-los só porque estou no trabalho. Não me sinto fragilizada ao me comportar assim.
Conheça a edição deste mês folheando a revista aqui no site
Destaques da edição
Edições anteriores
Assine a revista
Folheie a edição