PUBLICIDADE PUBLICIDADE
Buscar:
100 RESPOSTAS AGENDA BIBLIOTECA COLUNAS COMER EQUILÍBRIO GENTE GRANDES TEMAS HORIZONTES MENTE ABERTA MORAR VÍDEOS

Hora da preguiça

Os primeiros instantes da manhã ditam o ritmo do dia. Então, vá devagar...

por Marina Motomura | foto Marcelo Zocchio

Um fiapinho de sol entra pelas venezianas e ilumina as poeirinhas que o edredon deixou pelo ar do quarto. Lá fora, os sabiás e bem-te-vis vão aos poucos preenchendo o silêncio. Logo vem o cheiro de café, de leite fervido e de pão estalando de quente. Manteiga derretendo, sereno na capota do carro, bochecho com gosto de menta, jornal intacto esperando o primeiro leitor, crianças esfregando os olhos, beijo de bom dia. Dito assim, parece que um bom dia vem aí, né? E, no entanto, tudo isso que foi descrito acima acontece todo dia. A diferença é que a gente, na maioria das vezes, está apressado ou preocupado demais para perceber que o piado é do sabiá, que pão quente tem cheiro, sim senhor, que ver o jornal dobradinho, sem nenhum amassado, dá uma sensação de novidade. Acredite: despertar aos poucos é importante. Se você é daqueles que acordam com as chaves do carro na mão e dizem “bom dia” para a família já da porta, acompanhado de um “tchau”, esta reportagem lhe foi feita sob medida. Pense em desacelerar e cultivar um “boommm diiiiia” assim, mais prolongado e lento.

É curioso que todo mundo se preocupe com o sono – quantas horas dormir, em que posição, que travesseiro escolher – mas pouca gente dê bola para o momento de despertar, que é tão importante quanto o descanso gostoso de toda noite. Tudo bem que nem sempre despertamos tão zerados assim – quem nunca acordou tão cansado como quando deitou que atire o primeiro travesseiro. Nesses casos, você tem um motivo a mais para investir em um começo de dia relaxante e calminho. Então vamos entrar no clima e desacelerar este texto.

Va-mos de-va-gar. Em vez de pensar em expressões como “sair correndo” e “mergulhar de cabeça na papelada do escritório”, imagine a manhã em termos de “escorregar da cama” e “submergir no trabalho como quem entra numa banheira”. De-va-gar. Tanto a medicina oriental quanto a alopática concordam: despertar sem sobressaltos é fundamental para a saúde do corpo e da mente. “Devemos acordar lentamente, bem devagarinho, fazendo respiração e alongamento”, afirma o médico Aderson Moreira da Rocha, da Associação Brasileira de Ayurveda. Eis o primeiro passo para ter um bom dia de verdade.

Não, ninguém aqui ignora que a vida diária é atarefada. A maioria das pessoas enxerga aquela mesma manhã idílica lá de trás da seguinte forma: comer algo, ler o jornal do dia, levar os filhos à escola, dirigir até o serviço e trabalhar bastante, tudo isso apenas nas primeiras horas da manhã. O resultado você também conhece: estresse, ansiedade, frustração, tédio e até problemas cardíacos – puxa, está vendo? Basta um descuido e até este texto, que deveria inspirar sua manhã, se acelera. “Geralmente, durante o sono, o coração funciona de uma maneira diferente, porque estamos em repouso. Podemos dizer que o coração bate mais devagar. Ao acordar, precisamos dar um tempo para ele recuperar o ritmo”, diz a neurologista Dalva Poyares, especialista em dorminhocos e em insones da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

Então por que a gente insiste na correria? Para a professora de filosofia Dulce Critelli, da PUC (Pontifícia Universidade Católica) de São Paulo, há uma epidemia de pressa. “Nossa sociedade está montada sobre trabalho e resultados. Parece que todo o tempo livre tem que ser ocupado por uma atividade produtiva. Se estiver ociosa, a pessoa se sente culpada.” Segundo ela, muita gente se entrega de bom grado a esse problema. “Como a pressa desconcentra e dispersa, isso é um alívio para muitos, porque estar cheio de tarefas é uma grande desculpa para não se ocupar consigo mesmo.” Dulce fala com experiência. Ela pesquisa o assunto todo dia. “Nunca levanto imediatamente da cama. Respiro fundo, me espreguiço, sinto meu corpo, presto atenção ao ambiente. Gosto de tomar café demorado, fazer uma coisa de cada vez. Nem sempre consigo, mas tento.”

Cama, doce cama
“Todo dia ela faz tudo sempre igual, me sacode às seis horas da manhã, me sorri um sorriso pontual e me beija com a boca de hortelã”, cantarola Chico Buarque nos versos iniciais de “Cotidiano”. Nem todo mundo tem o privilégio de acordar com um beijo de hortelã – a maioria dos mortais acorda mesmo é com a gritaria do despertador. O ideal seria cultivar o hábito de dormir sempre na mesma hora, o que faz o corpo despertar naturalmente, na mesma hora. Se você não tem essa disciplina, tudo bem. Amenize o sobressalto de acordar com o “pé-pé-pé” do despertador com uma técnica consagrada e aprovada tanto pelos estudiosos mais conservadores quanto pelos cientistas de ponta: fique na cama mais uns minutos, se espreguiçando.

“Antes de levantar, espreguiçe e movimente o corpo para tudo quanto é lado”, diz o professor de educação física Arthur Siqueira, da Unisa (Universidade de Santo Amaro), em São Paulo. Não é preciso nenhum grande malabarismo – algumas esticadas e espreguiçadas, que são movimentos naturais, são suficientes para lembrar seu corpo que o descanso chegou ao fim. Ao espreguiçar, ajudamos também a circulação do sangue, que fica mais lenta durante o repouso. “Muita gente dorme encolhida, numa posição só ou tem problema com o travesseiro. Resultado: ao acordar, a musculatura está ‘travada’ por ter ficado inativa algumas horas.”

Por isso, mexa-se e dê uma sacudida no corpo ainda sob os lençóis. Cuidado também ao sair da cama. “Devemos levantar virando o corpo de lado, jogando as pernas para fora da cama e empurrando com a mão contrária. A última coisa a levantar deve ser a cabeça. Assim, não forçamos a coluna cervical, dando aquela ‘pescoçada’ para a frente”, diz Aderson da Rocha.

O próximo passo é seguir o exemplo do seu animal de estimação. Já reparou como bichanos e cachorros fazem ao acordar? Alongam as patas da frente e empinam o traseiro lá para cima. Em seguida, esticam o corpo para a frente, apoiados nas patas dianteiras. Se você já fez ou viu alguém fazendo ioga, deve ter notado a semelhança. Os movimentos dos bichos são idênticos aos da “saudação ao Sol”, uma seqüência de posturas muito usada por algumas vertentes da ioga para dar vitalidade. Não por acaso, a postura em que botamos a bunda lá para cima chama-se “cachorro olhando para baixo”. A posição seguinte, de olhar para cima, adivinhe: “cachorro olhando para cima”.

Gatos e cães também bocejam. “A função do bocejo é liberar a dormência e extravasar. Junto com a respiração, ele ajuda a acordar”, afirma Arthur Siqueira. Ao bocejar, o segundo e o terceiro ramos do nervo trigêmeo (um dos nervos da face) são ativados e dão um recado ao cérebro: acorde.

Já que a ordem do dia é se esticar, não custa nada fazer alguns exercícios de estica-e-puxa. Para isso, não precisa de academia nem equipamentos especiais. Basta espichar os braços, colocando-os atrás da cabeça, e as pernas, apoiando uma das mãos na parede e usando a outra para segurar uma perna dobrada. Vinte segundos de cada exercício são um bom começo. Para acordar também as articulações, dê uma desmunhecada. “Faça pequenos movimentos circulares com o pescoço, o cotovelo e o punho”, diz o professor de educação física.

De pé, mas sem pressa
Agora que você está de pé, olhe em volta. Arrume a cama e o quarto, faça uma pequena meditação ou oração, tome um belo banho, saboreie o café da manhã. Essa lista de pequenas ações, que nem tomam tanto tempo assim, podem mudar os rumos do seu dia. É o que afirma a professora de ioga Regina Shakti, de São Paulo. “De acordo com a ioga, a primeira coisa a fazer ao acordar é lembrar que nada é mais importante que a vida, nem a profissão, o romance ou a família. Ao invés de focar sua atenção em atividades mundanas, tente olhar para dentro de você.”

“Ao tomar banho, aproveite para fazer um exercício de respiração. A água limpa o corpo e o exercício de respiração limpa a mente das frustrações do dia anterior”, diz. Coloque uma roupa limpa e tome um café da manhã reforçado – o velho chavão de que ele é a principal refeição do dia continua sendo verdadeiro. “Depois de um longo período em jejum, a pessoa tem que comer alguma coisa pela manhã, mesmo que não esteja com fome, para equilibrar a concentração de açúcar no sangue”, afirma Dalva Poyares. Só não vale comer uma barra de chocolate, porque os doces e alimentos carregados de carboidratos processados disparam o nível de açúcar no sangue de uma vez, o que é ruim. Pão integral, fruta, leite, queijo e cereal são boas opções.

Espreguiçar-se, bocejar, fazer alongamentos, arrumar o quarto, tomar um banho energizante e caprichar no café da manhã levam um tempo, sim. Mas dizer um “bom dia” sincero vale a pena. Ainda mais se você lembrar a falta que esses minutinhos de bobeira fazem quando você está no trânsito, com fome e cansado. Portanto, ouça o recado dos poetas arcadistas, que louvavam os prazeres de uma vida tranqüila no campo: “Carpe diem”. Aproveite o dia.

PARA SABER MAIS

Devagar, Carl Honoré, Record

Conheça a edição do mês Conheça a edição deste mês folheando a revista aqui no site Destaques da edição Edições anteriores Assine a revista Folheie a edição
PUBLICIDADE:
Simplifique a sua vida
DÚVIDAS EXPEDIENTE FALE CONOSCO NEWSLETTER MINHA ASSINATURA LOJA ABRIL
Editora Abril Copyright © 2008 Editora Abril S.A.
Todos os direitos reservados. All rights reserved