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Sábado à tarde no Sesc Pompéia, um espaço de lazer e cultura em plena paulicéia. Na passarela de entrada vêem-se crianças calçadas com chuteiras correndo da chuva torrencial. Elas gritam de euforia. Três meninas de cabelos amarrados e joelheiras se apressam para a partida de handebol prestes a começar. De um lado, mesinhas ao ar livre servem à lanchonete e de ponto de encontro para uma conversa – quando não está chovendo, claro. Do outro, há o acesso para o grande galpão que abriga as áreas de estar, as salas de jogos, as mesas de leitura da biblioteca, as mostras de arte ou de fotografia. Todos esses espaços se interligam e, embora separados por muretas ou escadas, compõem um só lugar.
Se estivesse viva e visse essas cenas, a arquiteta Lina Bo Bardi, que projetou o lugar ao longo de uma década entre 1976 e 1986, se sentiria realizada. Promover o encontro entre pessoas, o lazer, a conversa e a informação era tudo o que Lina queria com seu trabalho. Ao projetar o Sesc Pompéia, ela deu sua versão em concreto e tijolo de um espaço que atende às nossas necessidades mais simples, como encontrar amigos e se sentir bem.
Antes de começar a intervenção que transformaria a antiga Fábrica de Tambores da Pompéia num novo centro de artes e lazer, Lina procurou respeitar o uso que a vizinhança vinha fazendo dele. É que, mesmo abandonada, a fábrica servia espontaneamente de espaço de lazer no bairro. “As crianças corriam, jovens jogavam futebol. As mães preparavam churrasquinho e sanduíches na entrada. Pensei: tudo deve continuar assim, com toda esta alegria”, escreveu Lina em uma de suas anotações. Para ela, a arquitetura era um meio de melhoria e transformação social.
“Sua contribuição foi introduzir um olhar antropológico na arquitetura”, diz o arquiteto mineiro Marcelo Ferraz, que foi amigo e assistente dela, em São Paulo. Hoje, a obra de Lina é objeto de pesquisa no Brasil e no mundo – o Instituto Lina Bo e Pietro M. Bardi, guardião do seu acervo, atende em média 40 pesquisadores e estudantes todo mês.
Com o início da guerra na Europa, pouca coisa se podia fazer, menos ainda construir. E Lina, que nessa época já tinha um escritório profissional em Milão, foi trabalhar como ilustradora de revistas e jornais importantes, a exemplo do pai, que, aos 60 anos, se descobriu pintor surrealista. No dia 13 de agosto de 1943, Lina viu seu escritório posto abaixo por um bombardeio.
Quando enfim a guerra acabou, fundou juntamente com o arquiteto e crítico de arquitetura Bruno Zevi a revista A – Cultura de la Vita. “O A, no caso, estava no lugar de ansiedade, amor, antimesquinharia, aliança, acordo, audácia, aviso...”, escreveu Zevi num artigo. “Quando as bombas demoliam sem piedade a obra do homem, compreendemos que a casa deve ser a vida do homem, deve servir, deve consolar”, escreveu Lina. A publicação acreditava nisso, na arquitetura como instrumento para compreender e mudar, para melhor, a vida de todos nós.
A viagem dava frutos inesperados. Pietro (1900-1999) foi convidado pelo jornalista e colecionador de arte Assis Chateaubriand (1892-1968) para fundar e dirigir o museu de arte de São Paulo. “Disse a Pietro que queria ficar, que reencontrava aqui as esperanças das noites de guerra”, escreveu Lina. Quatro anos após sua chegada, ela se naturalizou brasileira. “Foi uma decisão importante na sua descoberta do que este país tem de diferente dos outros”, diz o arquiteto Marcelo Ferraz. “Seu olhar passa a ser não de uma estrangeira, mas de alguém que assumiu o país para viver”, diz o arquiteto André Vainer, que trabalhou com ela.
E o que ela via de especial no Brasil era a simplicidade.Num país que começava a se industrializar, ela opinava na contramão da história.Via a oportunidade de construir um país de desenvolvimento autônomo. “Ela queria que o Brasil tivesse uma indústria a partir das habilidades do povo”, disse o antropólogo Darcy Ribeiro (1922-1997) no documentário Lina Bo Bardi. “Poderíamos reinventar talheres, pratos, camisas, sapatos. O mundo de consumo como alguma coisa que tivesse ressonância em nosso coração”, disse Darcy, sugerindo uma indústria que fosse calcada no artesanato brasileiro.
O primeiro projeto de Lina por estas terras foi a ambientação do Museu de Arte de São Paulo. Não o Masp como o conhecemos agora. Tratava-se, digamos, de uma primeira versão, que funcionou na rua Sete de Abril, em São Paulo. A coleção, embora importante, não era a questão central. Para ela, um museu em um país de história ainda muito recente não seria um guardião de peças antigas ou modernas, e sim um lugar para exercício da criatividade.“Além de apresentar a obra, a intenção era inventar a obra”, disse Pietro Maria Bardi, então curador do museu. Lina criou o espaço em que isto fosse possível. Propôs suportes nos quais os quadros não ficariam situados em destaque. A idéia de Lina era que o suporte não valorizasse a obra de arte e não comunicasse, portanto, algo do tipo “deves admirar, é um Rembrandt”. Lina queria tudo bem mais simples e essencial.
Foi assim que Lina desenhou um dos poucos espaços privados que compõem o conjunto de sua obra: sua própria casa, a primeira a ser construída no bairro do Morumbi, em São Paulo – e que ganhou o nome pela boca do povo de Casa de Vidro. A residência do casal Lina e Pietro, em sua simplicidade de traços retos, fachadas de cristal e piso de pastilhas de vidro ou tacos pau-marfim, tornou-se um marco na arquitetura moderna paulista e,por isso mesmo, foi tombada como patrimônio pelo Estado. Em breve, com o projeto de restauração da casa, será possível visitá-la. A idéia, segundo o Instituto Lina Bo e Pietro M. Bardi, é abrir o acervo para atividades culturais, pondo à mostra objetos antigos de Pietro e móveis desenhados por Lina, assim como sua colorida coleção de objetos nordestinos.
No mesmo ano, Lina foi convidada a fundar e dirigir o Museu de Arte Moderna da Bahia. O trabalho incluiria a formação do acervo e recuperação do Solar do Unhão – prédio histórico escolhido para sediar o museu. Novamente, Lina imaginou espaços onde a obra de arte era motivo de encontro e convívio entre pessoas. Durante os cinco anos em que viveu lá, Lina não somente recuperou e montou o Unhão, hoje aberto ao público, como participou do movimento pela valorização da cultura nordestina e brasileira, do qual saíram nomes como Caetano Veloso, Gilberto Gil e Glauber Rocha. “Ela civilizou minha geração, tendo uma verdadeira inserção na vida da cidade”, diz o antropólogo baiano Antônio Risério, que, em 1986, convidou Lina para voltar à Bahia, desta vez para restaurar o centro histórico de Salvador.
Mas só na obra do Sesc Pompéia Lina conseguiu se libertar da idéia da composição. Interessava a ela, por fim, apenas o que seria simples. “O Sesc foi um de seus maiores exercícios de simplicidade”, diz o arquiteto André Vainer. “Ela se libertou da necessidade de beleza, dos elementos bem equilibrados”, diz Marcelo Ferraz. E chegou ao que sempre pensou da arquitetura: algo que proporciona coisas boas na vida das pessoas.
Lina Bo Bardi morreu na noite do dia 20 de março de 1992 em sua casa de vidro. Não teve filhos, “dizia que era mãe de todas as crianças do Brasil”, conta sua irmã, Graziella Bo Valentinetti. Dizia ainda ser um “arquiteto”, e não arquiteta, porque em italiano o substantivo “arquiteto” não existe no feminino. E, mesmo no Brasil, foi sempre firme ao se dizer “arquiteto Lina Bo Bardi”, embora o conjunto de seu trabalho seja bem feminino. Pois, como escreveu o arquiteto Paulo Mendes da Rocha, Lina, como uma mãe, “soube abrigar meninos e amparar os sonhos da juventude”.
LIVROS
• Lina Bo Bardi, Marcelo Ferraz (org.), Instituto Lina Bo e P.M.Bardi, 1993
• Cidadela da Liberdade, André Vainer e Marcelo Ferraz (curadores da exposição), Instituto Lina Bo e P.M.Bardi e Sesc São Paulo, 1999
• Sesc Fábrica da Pompéia, Marcelo Ferraz (org.), Editora Blau, 1996
SITE
• http://www.institutobardi.com.br, Instituto Lina Bo e P.M.Bardi
• www.masp.art.br, Masp
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