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Jardinzinho, jardinzão

Para uns, isto é só areia e pedras. Mas tem gente que enxerga o mundo

por Priscilla Santos | foto André Spinola e Castro

Quando monge noviço no templo Zuioji, em Niihama, Japão, o brasileiro Francisco Handa tinha a tarefa de cuidar diariamente de um jardim zen, um jardim de areia e pedras usado pelos monges para meditação. Ninguém pisava no jardim, a não ser os noviços na hora da limpeza. Ao seu redor, havia uma varanda com salas reservadas de onde os monges contemplavam a paisagem como na maioria dos jardins zen, aliás. Ao contrário da maioria dos trabalhos monásticos, para aprender a cuidar de um jardim zen não havia mestre. Então, como transformar um monte de pedras e areia numa paisagem que acalmasse os olhos e a mente? Vou fazer e você copia, era tudo o que dizia o monge já familiarizado com a tarefa. Então ele dava forma à areia. Com olhar atento, o noviço repetia o feito. Tínhamos que pegar um rastelo e andar fazendo um traço retinho. Se não ficasse bom, o jeito era repetir.Mas ninguém falava onde estava o erro, diz Handa, hoje na Comunidade Budista Soto Zenshu, em São Paulo. Perceber onde faltava harmonia fazia parte do aprendizado.

A única dica era seguir os contornos naturais do jardim. Assim, os desenhos começavam retos, acompanhando as margens, e só perdiam essa forma quando contornavam as pedras. A reta simboliza o pensamento correto, um caminho a ser seguido. O círculo é a união, diz a mestra Sinceridade, do templo Zu Lai, de São Paulo. O budismo não estimula as fórmulas com pontas (como o triângulo) porque as pontas são como espinhos, machucam. Embora seja chamado de jardim, o retângulo de areia e pedras representa o mundo. A areia e os pedriscos representam o mar. As pedras são rochas e ilhas. Portanto, os círculos ao redor das pedras seriam como ondas, que batem na rocha e voltam, batem e voltam, no mesmo movimento contínuo, cheio de altos e baixos, que é a vida. Entender e visualizar essa dinâmica de forças é essencial para conseguir a harmonia necessária para a contemplação.

Só podia ser idéia de japonês, né? É, mas esse jardim de areia e pedra, popularmente conhecido como jardim japonês, foi inventado por monges chineses, em algum momento entre os séculos 7 e 10. A idéia já era representar a dinâmica da natureza, para contemplação. Foi de lá que os zen-budistas japoneses importaram a idéia e começaram a construir os seus em seus templos. Sorte nossa, porque a maioria dos jardins chineses não resistiu à história turbulenta daquele país, e hoje os jardins mais antigos estão no Japão, onde são chamados de kazan ou kazansui (paisagem seca). O mais famoso do mundo fica no templo de Ryoan-ji, em Kyoto.

Contemplação
Ainda que o jardim zen seja conhecido como a natureza em miniatura, sua interpretação não é fechada. Depende do estado espiritual da pessoa. Ela pode sentir o Universo, mas também pode sentir-se no meio de um monte de pedras, diz o paisagista de São Paulo Hiroyoshi Ishibashi.

É como olhar uma casa de perto e de longe. De longe, você consegue enxergar a casa inteira, sem precisar se prender a nada. Mas, se você olha de perto, começa a reparar na cor da cortina, no trinco da porta, e não consegue visualizar o todo. E é por isso que o jardim zen não tem muitos detalhes.

Paisagens com poucos elementos e cores confortam a mente. Diante de tão pouca informação, o pensamento pára de saltar de um assunto para o outro, como ocorre no dia-a-dia. O equilíbrio visual é o que permite nos concentrarmos. Por essa razão o kazansui está tão ligado à meditação, que nada mais é que a atenção total no momento presente. Assim como no zazen (meditar sentado) é preciso concentrar-se na respiração, na meditação sobre o jardim o foco está na paisagem. É meditar com os olhos. Ou simplesmente contemplar.

Impermanência
Logo que chego ao templo Zu Lai perguntando do assunto da reportagem, a mestra Sinceridade me convida a visitar o jardim zen, que fica numa área de acesso restrito do mosteiro. Ali, ela pede que eu apague o desenho que havia sido feito pelos aprendizes pela manhã e faça o meu próprio, com o que estivesse na minha cabeça. Na dúvida (e usando o que já havia lido sobre o assunto), passo o rastelo e faço uma reta, que sai meio torta.

Então, a mestra toma o rastelo nas mãos e começa a traçar seu caminho enquanto me revela um segredinho: Tem que ser devagar, não pode ter ansiedade. Relaxe, preste atenção na respiração e concentre-se totalmente na atividade.

Lembro-me então de quando perguntei ao monge Francisco Handa se arrumar um jardim zen era também um momento de meditação. Com simplicidade, ele me respondeu que não havia diferença entre lavar um banheiro e fazer um jardim. Tudo que se faz num templo é meditação. A mestra Sinceridade já terminava a segunda reta quando me detive no som quase uniforme dos pedriscos sendo puxados pelo rastelo. Sinal de uma velocidade constante que resulta em traços retos, penso eu.

Tento usar a tática na minha vez. Não funciona muito. Comento com a mestra. É preciso treinamento, diz. Tolerância é um dos três ensinamentos do budismo trabalhados na manutenção do jardim zen. Não é fácil. Às vezes, é preciso assumir que não deu certo e tentar de novo, sucessivas vezes, até alcançar um resultado harmônico. Uma harmonia não só visual, e sim da energia representada ali (o mar, as ilhas, lembra?).

Mas, antes que você desista de vez de ter um jardim zen em casa (sim, dá para encomendar a um paisagista, no espaço que você tiver), é bom lembrar que ele precisa de manutenção, e isso faz até parte de sua filosofia.Mas não precisa virar tarefa religiosa. O ideal é refazê-lo a cada dia. Mas, se não der, pelo menos tome conta para que não vire um tanque de areia. É preciso tirar uma ou outra grama intrusa, limpar a sujeira e fazer os contornos, usando o rastelo.

Se falta espaço, tudo bem apelar para um jardim zen em miniatura, desses vendidos por aí como peças decorativas. Por razões óbvias, esses menorzinhos não servem como um espaço de contemplação, mas quebram um galhão num momento de desequilíbrio. Numa hora de raiva ou tristeza, saque o rastelinho e desenhe o que passar pela mente. Sempre com atenção plena na atividade, porque concentração é fundamental para a manutenção de um jardim zen. É com ela que se conseguem traços harmônicos intuitivos, não racionalmente calculados.

Não bastasse tudo isso, aquele punhado de areia e pedras ensina ainda que nada é permanente, tudo é dinâmico, pois a cada vez que bate um vento ou se passa o rastelo o jardim é outro. Foi o que aprendi no mosteiro quando, absorta com o rastelo, me detenho ao perceber que vou atropelar o desenho que a Mestra acabara de fazer. Ela me olha e sorri. Passe por cima.Um faz, o outro desmancha e refaz. O jardim zen está sempre sendo construído.

PARA SABER MAIS

LIVROS
The World of the Japanese Garden, Loraine Kuck, Weathermark
Gardens of Gravel and Sand, Leonard Koren, Stone Bridge Press

SITE
www.templozulai.com.br, Templo Zu Lai
www.sotozen.org.br, Comunidade Budista Soto Zenshu

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