A enfermeira Sandra Celidonia da Silva nunca parou para dar autógrafos na rua. Tampouco ostenta na parede uma coleção de títulos e diplomas em universidades internacionais. Muito menos propaga por aí teorias elaboradas e revolucionárias sobre a área em que atua. A esta altura você deve estar se perguntando por que fizemos uma entrevista com ela, certo?
Pois bem. Sandra é uma pessoa comum que dedica seu tempo a cuidar dos outros. Ela faz parte daquele seleto grupo que pode dizer com todas as letras que já viu tudo – ou quase tudo – na vida. Gente com dor, gente com doenças degenerativas, gente morrendo, gente sem um fio de esperança. Cuidar com carinho dessa gente toda tem sido o ofício de Sandra nos últimos 23 anos. É por isso que ela está aqui.
Mesmo quando não se falava em humanização da saúde, Sandra já adotava a idéia de que cuidar não é apenas dar o remédio na hora certa. “Quem chega a um hospital não é uma máquina com defeito na engrenagem. É uma pessoa, com uma história de vida, igual a mim. E que tem muito a me ensinar também, por isso precisa ser ouvida.”
Além de atender no ambulatório de neurologia do Hospital das Clínicas de São Paulo, Sandra ajuda a criar grupos de acompanhamento de pacientes com doenças específicas, como o de dor, o de esclerose múltipla e o de assistência domiciliar. “Foi quando percebi que muitas pessoas morriam por não terem condições de ir até o médico. Lutar pela vida, seja ela de quem for, está acima do trabalho”, diz.
Aos 44 anos, casada, mãe de um filho, Sandra diz que, para ficarem bons, os pacientes precisam se sentir acolhidos, amados e com a certeza de que ainda têm muitos sonhos a serem realizados. Senão, diz ela, não há remédio que dê jeito. Palavra de uma pessoa comum que já viu de tudo na vida.
O que a move a ajudar os outros?
Talvez seja a incapacidade de me conformar com o sofrimento alheio. Quando determinadas situações passam a ser corriqueiras em nossas vidas, temos a tendência de nos acostumarmos com elas – e não dá para ser assim. No meu caso, eu teria que achar normal entregar os pontos e dar as costas para quem está morrendo? Já cansei de discutir com médicos por causa de pacientes com pouca chance de viver. Quando eles me dizem “acabou”, eu respondo: “Não. Vamos tentar outras saídas”. Para mim, o importante é incentivar nesses pacientes a vontade de viver – procuro estimular seus antigos sonhos,projetos. Quem sabe rever um parente que mora longe, terminar uma casa em construção, ver o filho se formar na faculdade, não importa. Quem tem um objetivo na vida e planos para o futuro não quer morrer. Curada é aquela pessoa que consegue amar a vida, não só aquela que tem a pressão controlada.
E isso já funcionou?
Várias vezes. Tem um senhor que vende pipoca aqui em frente ao hospital que teve tumor na laringe e um diagnóstico de dois meses de vida. Até hoje ele jura que ficou bom por causa de uma simpatia... Não importa, ele achou uma esperança num momento em que os médicos já não davam mais nenhuma chance. E sonhar sempre dá certo, eu incentivo.
Quando é o momento de desistir?
Sinceramente, eu não desisto nem quando o paciente já está inconsciente. Fico brigando por novas tentativas, quem sabe uma transfusão, um soro. Mas confesso a você que tem horas que eu desanimo, tenho vontade de largar tudo e entregar os pontos. Principalmente quando tenho que lidar com os familiares dos pacientes. Em geral, eles são ansiosos, muitas vezes agressivos conosco e com o doente. Eu sempre digo para que eles façam um exercício, colocando-se na situação do enfermo. Como gostaria de ser tratado, o que gostaria de ouvir de seus parentes próximos? Ansiedade, gritaria e cobranças, além de humilhantes, não ajudam em nada.
É mais difícil cuidar de quem a gente não conhece?
Pelo contrário, é mais fácil. Há alguns anos, meu ex-marido ficou muito doente, com cirrose hepática grave. Fui afastada do hospital só para cuidar dele, que faleceu algum tempo depois. Quando você tem um envolvimento pessoal, tudo fica mais complicado. Muitas vezes, acaba fazendo concessões que não poderiam ser feitas – como deixar o remédio amargo para depois, por exemplo. Cuidar de alguém com carinho nem sempre significa fazer tudo o que ele quer. Quando o paciente conhece você, sabe suas fraquezas, fica bem mais difícil.
E qual a medida certa de envolvimento com o paciente?
Costumo dizer que todo paciente precisa primeiro de atenção, depois do remédio. Perguntar se cortou o cabelo, comentar que hoje ele está corado, saber se ele quer me contar mais alguma coisa ou se viu o resultado do jogo de futebol. Conhecer a história de vida de alguém, saber como ela chegou ao estado em que está desenvolve uma relação de confiança e empatia imprescindível para qualquer tratamento. Mas, é claro, existe um limite para isso. Tem hora certa para dar o ombro. Se o envolvimento for excessivo, pode acabar atrapalhando o tratamento – não dá para ceder e deixar um diabético se empanturrar de doces, por exemplo.
Qual o principal problema no atendimento hospitalar?
Os profissionais atualmente parecem não saber mais tratar de gente, só de papéis. Sabem perfeitamente organizar uma planilha no computador, mas não são capazes de conversar com o doente. Há um despreparo muito forte, não há contato, só uma mecanização nas relações. Nada adianta jogar um comprimido e mandar a pessoa tomar: tem que explicar o que é, para que serve. Não é o remédio que faz efeito e sim a motivação do doente em ficar bom. Tanto é que muitos remédios não funcionam para determinadas pessoas. Deve existir uma relação com empatia, envolvimento, compaixão.
Falta humanizar a saúde?
Esse termo está na moda justamente porque o despreparo do profissional da saúde para lidar com pessoas chegou no limite do absurdo. Já vi muita gente chamando paciente pelo número. É por isso que, se eu pudesse, me dedicaria somente a dar aulas. Falta aos profissionais aprender – e se lembrar – que seu principal objeto de trabalho é a vida, o sofrimento humano. Quem passa muito tempo no computador preenchendo fichas não tem tempo de olhar nos olhos.
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