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Comer fora

Fora do habitual, fora do ambiente de todo dia. A comida pode ser a mesma, mas ganha outro sabor num piquenique

por Priscilla Santos

Fazer esta reportagem me trouxe à memória uma piadinha clássica da minha família nas reuniões de domingo. No almoço, sempre alguém diz alto, numa voz cheia de (falsa) animação: Hoje vamos comer fora! Todos riem, porque sabem, há anos, o desfecho da piada: Comer fora ali, no quintal. E assim é. Quando o cheiro das receitas começa a transbordar das panelas, cada um vai para o quintal, como quem não quer nada, carregando sua cadeira ou seu banquinho, escolhe seu canto e fica lá, conversando à espera da comida. Não há mesa, come-se com o prato apoiado no joelho.Parece improviso, mas, se eu dissesse que todo domingo tem piquenique em casa, você ia imaginar um cenário idílico, um bosque com passarinhos, que nem o da pintura desta página. E piquenique não precisa disso.

O almoço de domingo na minha casa, por exemplo. Para virar um piquenique, só falta que cada um leve sua receita uma regra básica. Piquenique nada mais é que uma reunião de pessoas num local ao ar livre, onde cada um leva um alimento para ser dividido com todos. Você acha isso uma farofa só? Acertou. Piquenique e farofa são a mesma coisa. E ambos são uma delícia.

O piquenique é a prova viva de que é possível comer fora do ambiente diário e bem acompanhado gastando pouco (quando se compara a comer em restaurante) e sem ter muito trabalho (como ao oferecer aos amigos um almoço). Quer coisa mais prática do que cada um levar uma comida em vez de um coitado só encostar o umbigo no fogão para cozinhar para um batalhão? (É um prazer presentear os amigos com uma iguaria, mas nem sempre a gente tem paciência.) Também é muito melhor comer com pratos de plástico do que tirar a louça do armário e depois passar um tempão lavando a tralha (veja um kit para piquenique na página 72). Sem contar que, ao ar livre, não tem perigo de faltar cadeira ou não caber todo mundo na mesa. No clima de improviso, todo mundo se ajeita e, melhor, aproveita.

O preparo
O prazer do piquenique começa muito antes de estender a toalha xadrez. Da escolha dos ingredientes dos pratos à seleção do local, tudo tem gostinho de celebração e merece atenção. Que o diga Rodolpho del Guerra, escritor e historiador nascido em São José do Rio Pardo, interior de São Paulo. Durante sua infância, sua mãe e sua avó passavam em claro as madrugadas do dia 1º de maio como a maioria das pessoas na cidade , batendo o bolo e temperando o frango que antes do dia raiar já estavam prontamente embalados à espera da saída para o piquenique. Algumas famílias passavam ainda mais tempo, um ou dois dias, envoltas em cadernos de receitas e batendo à porta do vizinho para pedir mais uma xícara de açúcar ou uma dúzia de ovos que faltasse a algum prato, numa tradição que segue viva.

Ainda hoje, em Rio Pardo, na alvorada do dia 1º de maio, com foguetório e banda tocando o Hino do Trabalho, famílias inteiras, cada uma com sua merenda, saem para o campo, para a montanha ou para a beira do rio para passar um dia em contato com a natureza. Isso porque os imigrantes italianos que aportaram por aquelas terras na época do café trouxeram consigo duas manias: a de comemorar bravamente o Dia do Trabalho e a de comer em grupos, ao ar livre. Para unir o útil ao agradável, decidiram comemorar a data com piqueniques, e todo ano é assim, desde o primeiro convescote, em 1905.

Conterrânea de Rodolpho, a professora Carmem Maschietto relembra a excitação da criançada com o aproximar da comemoração: Minha família ia sempre a um lugar chamado areião, uma praia de rio. O areião estava sempre lá, igual, o ano inteiro, mas não era o mesmo do dia do piquenique. Carmem também relembra as histórias de sua avó, uma italiana de Nápoles que lhe revelou casos que podem guardar a chave da tradição riopardense. Após o domingo de Páscoa, as famílias napolitanas pegavam o que havia sobrado da ceia dominical, colocavam numa cesta de vime e subiam ao alto da montanha para uma refeição tranqüila.

O lugar
Os italianos sabiam das coisas. Afinal, o alto de uma montanha é um excelente cenário para um piquenique, que pode acontecer em qualquer espaço ao ar livre. As praças, por exemplo, já eram usadas na Grécia Antiga para banquetes públicos em que os cidadãos aproveitavam a comilança para discutir as questões da polis.

A bem da verdade, essa história de comer ao ar livre guarda, além de muita poesia, um grau de praticidade (lá vem ela de novo). Na era dos suntuosos banquetes gregos e romanos, os mais pobres não dispunham de espaço em suas casas nem do equipamento culinário e criadagem doméstica necessários a esse tipo de ocasião. Por isso, não só a refeição como o preparo da comida extrapolou os limites dos lares e ganhou parques, bosques, praças e jardins.

Mas não é preciso ir longe para fazer um piquenique. Quem tem um bom quintal pode fazer como nós lá em casa. E não pense que minha família está sozinha na farofa. O viajante inglês John Luccock conta que, no sul do Brasil, no século 19, durante as refeições, a família em geral ficava na varanda, na parte de trás da casa, lugar em que se acha quase tão isolada do mundo como se se encontrasse nas profundezas de uma floresta, diz ele no livro História da Alimentação do Brasil.

Bosques, praças, praias ou jardins, não importa. O espaço perfeito é cada um quem cria. Aliás, essa é uma das partes mais saborosas do piquenique: o improviso. Você junta a turma, escolhe um destino, mas para saber onde montar o acampamento só desbravando caminhos. Uma hora, bingo, você encontra o lugar que mais agrada. É de abrir o apetite.

Hora de comer
Puxando da memória, Carmem Maschietto lembra com facilidade os cardápios dos piqueniques riopardenses: Frango picado na farofa, pão com lingüiça, rosca, bolo e empadinha. Havia quem gostasse de levar arroz. Tenho 67 anos. Naquele tempo, não tinha coca, era limonada, laranjada, frutas. Rodolpho del Guerra ajuda com as receitas: Arroz com farofa, frango recheado e muito doce.

Os dois também contam que, a certa hora, as pessoas de diferentes piqueniques começavam a trocar seus quitutes. Era um que levava o bolo para o outro provar,o outro que insistia para que o colega tomasse um golinho do suco feito com uvas colhidas no próprio quintal. E, nesse leva e traz, a comida acabava sendo um um pretexto para começar uma conversa, anunciar as últimas notícias. Enfim, para resgatar uma convivência que, a gente bem sabe, acaba ficando de lado no dia-a-dia.

A saúde agradece. Faz diferença para a saúde e o bem-estar ter uma refeição gostosa num ambiente agradável, numa situação tranqüila. A gente se alimenta é do prazer da alimentação. Mais que da comida, do estímulo aos sentidos: paladar, cor, cheiros, isso também é nutritivo, afirma a nutricionista com orientação antroposófica Cecília Quaresma.

Ócio
Mas a comida é só metade da história. Num piquenique de verdade, ninguém sai lavando pratos e arrumando coisas quando a refeição termina.Nada disso. Tem que tirar uma soneca na sombra de uma árvore ou ficar bem quietinho, deitado sob sua copa, só apreciando o emaranhado de folhas. Os mais agitados podem até jogar baralho, tocar violão, ler um livro ou jogar fora aquela conversa mole de quem acabou de limpar um prato. Nesse universo quase infindável de possibilidades, o bom é que cada um faz o que quer, na hora em que bem entende. Não há obrigações.

Afinal de contas, piquenique também é momento de descanso. E isso desde a Idade Média, quando os caçadores paravam a labuta para comer suas marmitas sossegados, debaixo do arvoredo. Imagine que, depois de traçar um típico almoço medieval, alguém ia sair correndo atrás de bicho de novo? A sesta era indispensável para recompor os ânimos.

Cecília Quaresma atesta o efeito. Para ela, o piquenique é uma boa oportunidade para desintoxicar não só o corpo físico, mas também os sentidos, por dar o privilégio de simplesmente contemplar a natureza. Após um dia de piquenique, qualquer um volta para casa com a sensação de tarefa cumprida, pois o simples fato de haver estado ali, perpetuando um costume que atravessou os tempos, em meio a um cenário tão acolhedor quanto as companhias, já é muito.

PARA SABER MAIS

LIVROS
A São José! Una Nuova Storia, Rodolpho del Guerra
História da Alimentação, direção de Jean-Louis Flandrin e Massimo Montanari, Estação Liberdade
História da Alimentação no Brasil, Luís Câmara Cascudo, Global
The Oxford Companion to Food, Alan Davidson, Oxford University Press

SITE

São José do Rio Pardo, www.saojoseonline.com.br

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