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Orlando gente boa

E a incrível aventura do encontro com um ser, o humano

por Marcia Bindo | foto Arquivo família Orlando Villas Boas

Aos pés do velho pajé, curumins e adultos se juntam para ouvir mais uma história. A de hoje é sobre o homem dos olhos mágicos. Todos fazem silêncio em sinal de respeito. Os mais velhos são os donos da sabedoria, carregam consigo a história do seu povo. Assim, quando a fogueira é acesa, não se ouve um pio, ou melhor, só os pios do mato em volta e o crepitar da fogueira, finalmente cortados pela voz do índio.

Era uma vez um homem branco que veio de longe para conhecer o que havia na mata. Idéia não tinha do que encontraria pela frente. Menos ainda que sua viagem seria tão longa e espinhosa. Conheceu de perto onça, lobo, jacaré, sucuri. E bicho menor mas também danado: muriçocas, marimbondos, carrapatos.Vivia a abrir picada e fazer acampamento, longe do conforto a que estava habituado na sua terra. O corpo muitas vezes arriou às coisas da natureza: frio, temporal, quentura abafada. Tinha dias que não havia comida e aí faltavam vitaminas. Não deu outra: pegou febre, um monte de doenças, corpo mole. Mas mesmo com tanta agrura ele foi capaz de enxergar longe.

Esse homem é Orlando Villas Bôas, e sua vida bem que parece uma lenda ou um filme de ação. Sua jornada começa em 1943, quando é criada uma expedição para explorar as áreas do mapa que estavam em branco no coração do Brasil. Era a Expedição Roncador-Xingu, aprovada pelo então presidente Getúlio Vargas. Naquela época, o território brasileiro era pouco povoado – éramos 40 milhões de habitantes, a maioria salpicada pela faixa litorânea. Orlando, como conta na autobiografia que será publicada até o fim do ano, tinha 29 anos quando soube da notícia – na época tinha um emprego entediante e burocrático em São Paulo e não via futuro na cidade. Nascido em 1914 em uma fazenda de café no interior de São Paulo, Orlando passou a infância com a família em Botucatu. A fazenda ia mal, o que fez a família se mudar para São Paulo. Os pais morreram logo depois.

Animado com a possibilidade de mudança de emprego e atiçado pelo desbravamento do interior, Orlando mais seus dois irmãos também solteiros, Cláudio, com 27, e Leonardo, com 25, tentaram se inscrever na expedição, sem sucesso – só eram aceitos sertanejos, gente que, dizia-se, tinha mais resistência para encarar a expedição e explorar lugares selvagens. Mas isso não era um problema. Com uma trouxa nas costas, os Villas Bôas viajaram para Aragarças, em Goiás, base da expedição. Com roupas surradas e barba por fazer, conseguiram passar por sertanejos e ganhar emprego como trabalhadores braçais. Até que um dia foram desmascarados – por serem alfabetizados – e nomeados para cargos mais importantes. Tudo pronto, Orlando começa a marcha para o oeste, um percurso que iria mudar sua vida.

A olho nu: os índios
Mas aquelas áreas do Brasil central não eram desabitadas. Havia muita gente morando lá, há muito tempo. À medida que a expedição, com seus 20 e tantos homens, abria picada mata adentro, os índios começavam a dar sinais de que estavam por perto. Deixavam restos de fogueira, faziam fumaça e barulho, sem atacar. O chefe da expedição, o sisudo coronel Flaviano de Matos Vanique, com medo dos possíveis ataques indígenas, cogitou a possibilidade de criar uma frente militar para “limpar a área”. Orlando achou que isso seria uma burrice e escreveu uma carta ao marechal Rondon (que já havia chefiado diversas missões de demarcação de fronteiras nos sertões), dizendo que essa atitude poderia provocar conflitos e mortes e seria um desastre para os índios. Rondon gostava de um programa de índio. Tanto que organizou o primeiro órgão federal para os nativos (só em 1967 ele foi substituído pela Fundação Nacional do Índio – Funai). Ao receber a carta, conversou com ministros e os convenceu de que não era sábia uma ação militar. E foi assim que, sem apoio militar, Vanique se retirou da expedição, deixando o posto de chefe para Orlando.

Ao mesmo tempo que Orlando se embrenhava na mata e fazia contato com um universo totalmente desconhecido, mais clara ficava sua visão – ele se abria para perceber e aprender com o outro. “Orlando era dotado de uma sensibilidade muito grande, ele via o que tinha por trás das pessoas, e percebeu a plenitude do índio”, diz a fotógrafa Maureen Bisilliat, que fez trabalhos fotográficos na região do Xingu.

Seus relatos dão conta de que ele se encantou com aquelas sociedades, como ele mesmo dizia, estáveis, organizadas, onde ninguém manda em ninguém e as pessoas respeitam a natureza, as crianças, os idosos. “Ele observou que era possível as pessoas terem uma vida boa, plena, rica – com muito pouco”, diz a antropóloga Carmen Junqueira, professora da PUC-SP, que conheceu Orlando durante suas pesquisas na região. “Nesse período, com a Segunda Guerra Mundial estourando, a sociedade já apontava para o consumismo e a superficialidade das relações humanas. Os índios eram auto-suficientes, e o que surpreendeu Orlando foi a ligação profunda que eles têm uns com os outros, de carinho e respeito.”

Visão apurada: o sertanejo
Com o mesmo olhar cuidadoso, Orlando conseguiu estreitar a relação com um personagem peculiar e desconhecido da sociedade urbanizada: o sertanejo. Afinal, a maioria dos braços contratados para a expedição foi recrutada entre os esparsos grupos de extrativistas da mata – seringueiros, castanheiros, garimpeiros, enfim, aquela gente sem lei, embrutecida e acostumada com o crime. Era preciso habilidade, muito tato e jeito para comandar, durante anos, nas situações mais adversas da mata, as dezenas de trabalhadores como Cuca, João Mandioca, Zé Eufrásio, Celino Muriçoca, Zacarias, Zé Preto, Eleutério. Pessoas que aparecem aqui e ali em relatos no livro A Marcha para o Oeste, o diário de Orlando e Cláudio escrito durante os acampamentos da expedição.

Da mesma maneira como viu o ser humano que havia debaixo da pele nua pintada e enfeitada com penas dos índios, Orlando descobriu que o sertanejo, por trás das palavras rudes, do olhar duro, da mão calejada e da pele castigada pelo sol, era um homem de extrema boa-fé. Eram broncos, é verdade. Mas também eram desembaraçados, com muita prosa, contadores de casos e festeiros. E, como Orlando relata, era nas cantorias feitas no improviso que os sertanejos deixavam transparecer sua alma.

Com seu temperamento extrovertido e brincalhão, Orlando era o portavoz da expedição. Já Cláudio era introspectivo e retraído e Leonardo, o mais brigão e teimoso. Juntos, prepararam os sertanejos para o encontro pacífico com os índios. Orientavam para que eles jamais usassem armas e mostravam que os nativos tinham uma organização social diferente, que deveria ser respeitada.

Criação do Xingu
Orlando achou que era preciso garantir a sobrevivência e a cultura das numerosas tribos da região. Ele acreditava que o índio só sobreviveria em sua própria cultura e que o governo brasileiro deveria protegê-lo, assegurando suas terras, sem a preocupação de assimilá-lo em nossa sociedade.

Comunicador astuto, articulou durante anos com políticos, empresários, donos de terras da região, lideranças indígenas, jornalistas e sertanejos maneiras de preservar a cultura indígena. Sua postura lhe valeu muitas críticas, de gente que execrava sua atitude paternalista com os índios. Mas suas idéias prosperavam, a despeito da resistência, um pouco por seu charme pessoal e sua capacidade de diálogo. Ele sabia cativar as gentes, falava muitas línguas – e assim dialogava com todos.

Após quase dez anos de campanha dos irmãos Villas Bôas, com a orientação de pessoas como o marechal Rondon e o antropólogo Darcy Ribeiro, foi criado pelo governo brasileiro em abril de 1961 o Parque Nacional do Xingu, hoje conhecido como Parque Indígena do Xingu, localizado na região nordeste do estado do Mato Grosso.

Um dos objetivos da criação do parque era o isolamento do índio xinguano, para evitar contatos prematuros e nocivos com a sociedade urbana em expansão.O segundo objetivo era manter no centro do país uma grande reserva natural. “O olhar apurado dos Villas Bôas resultou na criação de uma reserva que comporta hoje cerca de 5 mil habitantes, divididos entre 14 tribos assentadas em uma região do tamanho da França e Inglaterra juntas”, diz Mercio Pereira Gomes, antropólogo e presidente da Funai há dois anos. Mercio o conheceu ainda rapazote, na década de 80, e tinha admiração por seu trabalho e dedicação aos índios.

O Grande Cacique Branco do Xingu, como Orlando ficou conhecido entre os índios, passou 40 anos na região do Xingu. E foi lá que conheceu sua mulher, Marina, uma moça que chegou em 1963, aos 25 anos, para trabalhar como enfermeira no parque. “Fui com a intenção de ficar um curto período e acabei ficando 15 anos”, diz Marina. “Logo que conheci Orlando, me apaixonei. Ele era muito amoroso, conseguia se entrosar com qualquer pessoa. E tinha uma alegria contagiante, um contentamento muito grande pela vida”, afirma ela, que teve com o sertanista dois filhos – ambos criados em São Paulo.

Seu marido achava que seria necessário pouco a pouco preparar as comunidades indígenas para enfrentar o inevitável contato com a civilização. Até o fim de sua vida ele visitava a reserva, ensinando os índios para um dia assumirem a organização do parque. Foi o que aconteceu.

Kuarup, a despedida
Dia 20 de julho de 2003. Aos poucos o pátio da aldeia Yawalapiti é tomado por gente de todas as tribos xinguanas para assistir ao kuarup – cerimônia realizada quando morre alguém de importância nas tribos. Era o kuarup de Orlando, falecido em 12 de dezembro de 2002. Os primeiros brancos homenageados na cerimônia foram seus irmãos Cláudio, falecido em 1998, e Leonardo, que morreu no início da expedição, em 1961. O kuarup é a encenação da lenda da criação. Os mortos são representados por toros – pedaços de troncos de árvores – plantados no centro da aldeia. Há cantos, danças e lutas. Cada família enfeita seu morto com enfeites e chora um dia e uma noite. Ao pé de cada toro de madeira é aceso um pequeno fogo pela família.

Acredita-se que o morto continua vagando pelos lugares de que gostava quando era vivo. Só quando acontece o kuarup e a chama do fogo se apaga o morto finalmente se desliga da vida terrena. Para a família de Orlando, que foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz em 1976 pelo resgate e pacificação das tribos xinguanas, o kuarup foi a maior das homenagens.

Nessa altura da história, a chama do fogo que iluminava o velho pajé se apaga. Mas o trabalho do homem de olhos mágicos continua vivo, e suas idéias, clareando a cabeça de muitas e muitas pessoas.

PARA SABER MAIS

LIVROS • A Marcha Para o Oeste, Orlando Villas Bôas e Cláudio Villas Bôas, Globo
• A Arte dos Pajés, Orlando Villas Bôas, Globo
• O Xingu dos Villas Bôas, coordenação Agência Estado, Metalivros

SITE
www.estadao.com.br/villasboas, site oficial de Orlando Villas Bôas

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