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No coro do mosteiro da Luz, no centro da cidade de São Paulo, há duas novas cadeiras. De traços retos e madeira maciça em tom claro, elas contrastam com o restante do cadeiral, do século 18, escuro e com detalhes minuciosos em curvas e arabescos. O novo par de cadeiras foi pensado para ser posto bem no centro do coro e servir de assento para as duas irmãs responsáveis por puxar o canto. O espaço embaixo dos dois móveis, que são idênticos, é entrecortado por uma prateleira para que as freiras possam guardar as partituras. As cadeiras foram desenhadas pelo arquiteto paulista Julio Katinsky. São lindas. Feitas exclusivamente para servir às necessidades das freiras naquele espaço de oração. Embora de encher os olhos, uma cadeira igual àquela jamais serviria para qualquer outro lugar senão o mosteiro da Luz. Pesadas, são de difícil deslocamento. De madeira maciça, dificilmente poderiam ser reproduzidas em série. Foram feitas para durar séculos, tal qual as outras do coro, com mais de 200 anos. Enfim, as cadeiras são ideais. Mas para as freiras, e só para elas.
Cada modelo de cadeira serve a um propósito. E são muitos os propósitos. Alguns deles bem objetivos, como o caso das freirinhas que precisavam de assentos para as irmãs que puxam o canto. Mas há ainda cadeiras próprias para a conversa na sala de estar, que são diferentes das indicadas para quem, como eu, trabalha sentado à mesa com um computador. Há ainda cadeiras que, conforme a cultura, servem a metas mais subjetivas. A exemplo da cadeira de um rei, que afirma sua soberania sentando-se no trono. Em algumas tribos indígenas latinoamericanas, sentar no banco é um atributo exclusivo do pajé.
Poucas coisas são tão humanas quanto o ato de se sentar. Desde que o Homo sapiens ficou de pé, sentiu a necessidade de sentar-se. No momento em que começamos a ter uma atividade intelectual que implica processar algumas coisas, fazemos isso na posição sentada, diz Adélia Borges, jornalista e diretora do Museu da Casa Brasileira, em São Paulo. E que atividade intelectual mais carente de um assento que escrever? Sentado no chão é praticamente impossível rabiscar palavras. A cadeira é tão importante em nosso dia-a-dia que até os astronautas têm as suas, embora só precisem delas como referência, diz Adélia Borges, no livro Cadeiras Brasileiras. Ou seja, no espaço, onde não há gravidade, não é preciso nem possível sentar-se, mas as cadeiras estão lá, para dar um ar de ambiente habitado, em meio àquela esquisitice de botões e luzinhas piscando.
De certa forma,essa função mais requintada foi preservada até hoje, e o jeitinho bem brasileiro de viver de fato privilegia o uso da cadeira em momentos mais formais. Em famílias do interior ou nas casas de pescadores no litoral nordestino, a vida cotidiana acontece no terraço, em tamboretes, banquinhos e, claro, em redes. As cadeiras estão sempre na sala, um lugar, digamos assim, mais nobre para receber a visita.
Parece banal, mas o projeto de um móvel tão utilizado no cotidiano é uma prova de fogo. Desenhar uma cadeira é quase tão difícil quando projetar uma casa, diz Adélia, parafraseando o arquiteto alemão Mies van der Rohe (1886-1969). Uma das disciplinas, aliás, dos cursos tradicionais de arquitetura no Brasil ensina a desenhar o quê? Uma cadeira. Tem lógica. Ao pensar nos móveis para sua casa,você pode ir ao marceneiro na esquina e tentar criar, ou desenhar com ele, uma estante, uma mesa e até uma cama.Mas uma cadeira não dá para improvisar. Pois é ela quem vai dar sustentação ao seu corpo, é quase uma extensão dele, tem costas, pés. Além disso, já parou para pensar quanto tempo, num único dia, você fica sentado? É daí que vem, aliás, o nome sedentário: do latim sedens,nada mais que sentar.
Ainda sobre propósitos, tem o caso da arquiteta Lina Bo Bardi (1914-1992), conhecida por ter projetado, entre outros prédios, o do Museu de Arte de São Paulo, o Masp. Quando desenhou o anfiteatro do Sesc Pompéia, em São Paulo, Lina recebeu várias críticas pelos assentos que desenhou para o lugar. Falaram a ela que a cadeirinha de madeira durinha e em forma de caixa era desconfortável.Ora, ora. Lina, afiada, respondeu à critica. Os teatros greco-romanos não tinham estofados, eram de pedra, ao ar livre (...), como hoje são os degraus dos estádios de futebol, que também não têm estofados. Estofado, disse ela, é coisa dos teatros da nobreza e da luxúria da sociedade de consumo. A cadeirinha do teatro, afirmou Lina, se presta muito bem ao seu propósito, que é de manter o sujeito acordado e atento ao espetáculo.
Da mesma forma, para a sala onde recebemos as visitas ou aquela que nos serve de ambiente de leitura, a cadeira boa é aquela que nos deixa com os movimentos livres,que nos coloca confortavelmente entre os amigos, sem nos deixar afundados, mergulhados. Já percebeu como fica difícil a conversa quando é você que senta no pufe? Para os mais idosos, uma boa cadeira ou poltrona é aquela que tem braços que permitam apoio na hora de se levantar, diz o arquiteto João Bezerra de Meneses, professor de arquitetura e consultor em ergonomia de cadeiras.
A Pelicano, ganhadora do Prêmio Design Museu da Casa Brasileira em 2003, tem assento e encosto feitos de uma peça única em lona de algodão que não esquenta no calor e é produzida no país. Já a estrutura é de eucalipto, madeira de reflorestamento. Leve, a Pelicano pesa 9 quilos e pode ser facilmente montada e desmontada. Além de ter proporções equilibradas. Enfim, a Pelicano é um bom exemplo de cadeira versátil, de fácil transporte e, se um dia chegar ao mercado,muito provavelmente terá um preço acessível. E isso é um exemplo de designer contemporâneo. Ou seja, adequado ao nosso tempo, diz a arquiteta Yvone Mautner. Ela e a colega Angélica Santi estão trabalhando para colocar no mercado a cadeira Kris, um dos últimos trabalhos deixados por Arnoult e que segue a mesma lógica da Pelicano.
Por fim, na hora da escolha da sua cadeira, considere não apenas se ela serve ao lugar e à função que vai ocupar. Veja se possui materiais de boa qualidade e, se possível, sustentáveis. Experimente se você se sente confortável nela. Atente, ainda, se o modelo cai bem aos olhos. É importante. Pois nos aproximamos de um objeto não apenas por sua utilidade, mas porque nos agrada a alma de alguma forma. E por isso mesmo pode fazer parte da nossa casa.
LIVROS
Cadeiras Brasileiras, Adélia Borges, Museu da Casa Brasileira, 1995
Modern Chairs, Charlotte e Peter Fiell, Taschen, 1993
A Poética do Espaço, Gaston Bachelard, Martins Fontes, 2003
SITES
www.mcb.sp.gov.br, site do Museu da Casa Brasileira
www.movelpop.com.br, linha Movelpop desenvolvida pela Oficina de Arte e Design e Núcleo de Apoio à Pesquisa: Produção e Leitura do Ambiente Construído (FAU/USP)
VÍDEO
Michel Arnoult, Design e Industrialização de Móveis, entrevista feita pela arquiteta Yvone Mautner, FAU/USP, 1998
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