PUBLICIDADE PUBLICIDADE
Buscar:
100 RESPOSTAS AGENDA BIBLIOTECA COLUNAS COMER EQUILÍBRIO GENTE GRANDES TEMAS HORIZONTES MENTE ABERTA MORAR VÍDEOS

Pé na lama

Enfie o pé no barro, role na grama, sinta o suor. Sujar-se é um hábito essencial para a saúde, mas cada vez menos comum na nossa vida

por Leandro Narloch | foto Manuel Nogueira

Meia. Palmilha. Sola. Tapete ou carpete. Piso. Reboco. Tijolo. Total: sete camadas! Dia a dia, sete camadas protegem seu pezinho daquilo que chamamos de terra, lama, areia ou simplesmente chão. Não é coisa demais? Não (a-há, peguei você). Afinal de contas, a humanidade sofreu milênios por causa dos vermes, bactérias e protozoários escondidos na terra. Sem higiene, a expectativa de vida no Brasil provavelmente ficaria nos 33 anos, como era nas cidades cheias de esgoto de 1910. Além disso, ter higiene é agradável. Nada como se meter no meio do mato, rolar na grama, se sujar na roça, suar e depois tomar um belo banho e botar uma roupa limpa. O problema é que, hoje, a terra e o mato estão dando lugar a cimento e mais cimento. Entre carros estofados, escritórios e casas acarpetadas, ficamos longe demais da famosa vitamina S (de sujeira, que muita vovó dizia ser essencial para a criança). E elas estavam certas. Os especialistas andam preocupados com a falta de sujeira dos dias de hoje. Eles estão percebendo que ela é essencial para uma vida saudável. Pode evitar alergias, diminuir a ansiedade, equilibrar a mente e até apimentar seu apetite e prazer na cama.

Sujeira saudável
Todo mundo acha que bactéria faz mal à saúde. Mas isso depende da bactéria e da dose. Com uma semana de vida, por exemplo, um bebê já carrega uma flora intestinal com milhões de bactérias de mais de 400 espécies diferentes, um exército que carregaremos ao longo da vida e que é fundamental para a digestão. Os micróbios também ajudam a treinar e fortalecer as defesas do organismo.A falta de contato com a sujeira e o excesso de higiene podem ser a causa da explosão de alergias dos últimos anos, afirma a médica veterinária e imunologista Ana Paula Castro.Nas últimas três décadas, as pessoas premiadas com rinite alérgica passaram de 15% para 25% da população mundial; com asma, de 8% para quase 20%; e com dermatite, de 5% para 12%.Uma das razões para isso é que o sistema imunológico humano, para funcionar,precisa ser provocado, sobretudo na infância.

Sabe aquelas crianças superprotegidas, que viram adultos que não sabem se defender de nada e se irritam por qualquer coisa? O sistema imunológico funciona assim. É preciso deixar que, de vez em quando, ele troque uns cascudos com a turma da sujeira, só para largar mão de ser bobo. Um bicho de pé aqui, uma catapora ali, uma cachumbinha acolá, e assim se passam os primeiros anos de vida. Sem estímulo,o sistema imunológico pode ter reações polarizadas, como alergias ou doenças auto-imunes, diz Momtchilo Russo, presidente da Sociedade Brasileira de Imunologia. Em outras palavras: quando as defesas não são ensinadas a brigar, fazem um estardalhaço por qualquer pozinho (alergias) ou começam a olhar torto os vizinhos (doenças auto-imunes, em que o corpo é atacado por ele mesmo). A poluição, o pó dos ambientes fechados também têm grande influência sobre a inatividade do sistema imune.

Pelo mesmo motivo, o ato de pôr coisas na boca, comum em crianças entre os 2 e 3 anos, pode ser importante para a saúde.Além da explicação mais conhecida, de que a criança experimenta objetos para conhecer seu ambiente, esse hábito também é entendido pela necessidade de expor o sistema digestivo e imunológico da criança a substâncias diferentes do leite materno, afirma o antropólogo Daniel Fessler, da Universidade da Califórnia.

O pior é que o medo de sujeira vira obstáculo para as crianças fazerem o que mais gostam: brincar. Crianças que brincam mais são geralmente mais criativas, alegres e adaptáveis, diz o psicólogo John Richer, psicólogo da Universidade de Oxford, grande entusiasta mundial das brincadeiras ao ar livre. Elas compartilham mais, são menos agressivas e têm relacionamentos mais seguros com suas mães.Mas, por mais divertidos que sejam os videogames de hoje (e olha que eles estão cada vez melhores), é importante brincar lá fora,na rua, na praça.

A criança não pode ficar aprisionada por normas rígidas de higiene, afirma a professora Maria Lúcia Boarini, psicóloga da Universidade Estadual de Maringá.E também não há pecado nenhum que os adultos façam isso.

A sujeira e a mente
Higiene, na verdade, é um costume novo entre nós.Faz pouco mais de cem anos que o homem percebeu que a imundície do seu corpo e do seu redor era a causa de pestes, pragas, cricris, coceiras. Até então, ratos, baratas e pulgas eram animais de estimação. Os primeiros manuais de etiqueta, no Renascimento, ensinavam a falar e a seduzir na corte, mas tratavam pouco de banho e roupa limpa. No fim do século 19, quando caiu a ficha de que ser limpinho é fundamental, começou um mutirão mundial por saneamento das cidades, o chamado higienismo.

O Rio de Janeiro imperial, que tinha rios de fezes jogadas de baldes pela cidade, ganhou encanamento, vacina, ruas largas. Na zona rural, circularam almanaques com o Jeca Tatu,personagem de Monteiro Lobato que teve a vida transformada depois que botou uma alpargata no pé. Com menos parasitas pelo corpo, o Jeca largou a preguiça, ficou capaz de produzir e trabalhar mais. Os higienistas e sanitaristas foram tão importantes que muitos são lembrados até hoje, no nome de ruas, praças e cidades, como Franco da Rocha e Oswaldo Cruz. Não é para menos: eles fizeram as pessoas parar de morrer à toa.

Mas essa higienização veio com uma idéia de limpeza racial, de que os problemas da sociedade eram baseados na sujeira e no desleixo dos pobres e pretos, diz a professora Maria Lúcia, que é autora do livro Higiene e Raça. Nasceu aí a idéia de higiene como norma, como regras a serem seguidas para ser uma pessoa decente, que cada vez ficaram maiores. É por isso que hoje, quando toda aquela sujeirada está mais longe, quebrar um pouco das regras já na idade adulta pode fazer muito bem.

Imagine se, para evitar suar ou se sujar, você evitasse jogar bola, correr de manhã ou plantar aquelas flores no jardim. Teria muito mais ansiedade, menos serotonina (aquele neurotransmissor que dá sensação de prazer) no sangue, muito menos criatividade e senso de coletividade que o esporte propicia.

Além disso, ter contato com a terra e a natureza é uma boa forma de começar a fazer uma faxina interior. Muita gente se recusa a ver a sujeira que tem dentro de si, afirma a psicanalista Mirtes Carneiro, de São Paulo. É o caso, em última instância, dos portadores de transtorno obsessivocompulsivo, que lavam a mão ou o rosto dezenas de vezes por dia com um desejo de se purificar. Por isso, lidar com a sujeira real pode ser um primeiro passo para enfrentar o lixo que carregamos dentro de nós. Cair na lama, entrar nas experiências limitantes e nos sentimentos ruins são formas de fazer uma faxina interior.

Sexo sujo, sexo bom
Mas, se você não tem problemas com higiene em demasia ou com manias de limpeza, a sujeira pode ajudar num item bem importante: sexo. Isso mesmo. Encarar a sujeira do sexo quer dizer, os fluidos, secreções como natural é prioridade para uma boa transa. Primeiro, por causa da vergonha com seus cheiros. Muitas mulheres têm vergonha do cheiro da vagina e por isso não conseguem relaxar e chegar ao orgasmo, afirma Rosana Durães, professora de ginecologia da Universidade Federal de São Paulo. Os cheiros do corpo são, na verdade, uma forma de atração biológica. Quando mais excitação, mais odor está presente. Esconder esses cheiros com perfumes é contrariar um processo natural de excitação.

Aproveitar os feromônios (substâncias exaladas pelo suor) do corpo do seu parceiro, em vez de se concentrar apenas na atração visual, é uma vantagem mais que provada. Um dos sintomas da perda do olfato, a chamada Síndrome de Kalman, é adivinha o quê? A perda de apetite sexual. Hoje, já há empresas de perfume fabricando loções afrodisíacas baseadas em feromônios. Também são eles, os feromônios, os responsáveis pela sincronia de menstruação de mulheres que andam muito tempo juntas. A concentração dos feromônios aumenta conforme passam as horas que a pessoa tomou banho e conforme o suor, diz a ginecologista Rosana.

Como se sujar?
Apesar de todas as vantagens aí de cima,ninguém está querendo dizer que o sujeito deve descuidar de doenças sexualmente transmissíveis, enfiar o pé no esgoto ou deixar o filho de 2 anos lanchar as aranhas e baratas que quiser. Ter mais contato com a sujeira não significa deixar-se infectar por vermes, micoses, bactérias e outros patógenos, o nome que reúne tudo de ruim que pode existir na terra. Há formas inteligentes de cair na lama. Para conhecê-las, é legal saber bem o que, afinal de contas, é sujeira.

Se você pensar conceitualmente, é tudo aquilo que está fora do lugar. Uma lata de refrigerante pode estar esterilizada, mas, no meio da sala, é sujeira. O mesmo acontece com um resto de maçã na praia, um pneu no rio ou um metal pesado no solo.Sujeira é o que fede? Bem, cocô fede, mas queijo francês também e é bom demais. O cheiro de comidas do restaurante por quilo abre o apetite, mas, segundo uma pesquisa da Faculdade de Saúde Pública da USP, 78% dos restaurantes por quilo oferecem comida infectada depois das 14h. É uma prova de que grande parte da sujeira a gente não vê nem sente.

Do mesmo modo,muita coisa que parece suja não é. Trata-se de um grande erro confundir terra com sujeira, afirma a agrônoma Elke Nogueira Cardoso, professora de bioquímica do solo da Universidade de São Paulo. A terra nativa, feita de minerais como nitrogênio, fósforo e potássio, é até nutritiva para o corpo humano. O problema são as interferências no solo causadas pelo homem. Entre essas interferências estão os metais pesados, que podem causar desde deformações congênitas até a morte, e todo tipo de patógenos (lá vêm eles de novo).

E eles, os patógenos, estão por aí. Uma pesquisa da Vigilância Sanitária do Paraná mostrou que 46% dos tanques de areia de creches municipais de Curitiba abrigavam parasitas como o famoso bicho geográfico.Por isso, uma boa atitude pra quem quer rolar na areia é deixá-la livre de gatos e cães vira-latas, não tratados.

A boa notícia é que contágio de vermes da terra acontece na grande maioria das vezes por via oral. Por isso, mais importante que cuidar da areia onde você vai se esborrachar, é tomar um belo banho depois. Também ajuda lavar bem as mãos e escovar as unhas após atividades como jardinagem, diz a imunologista Ana Paula Castro. Se, mesmo depois desses cuidados, um bicho-de-pé aparecer, dê de ombros, relaxe. Ele pode te salvar de uma bela alergia.

Verdade ou mentira?
Banho faz bem

Verdade. Banho todo dia, apesar de muito europeu tomar só um por semana, é aconselhável, ainda mais no clima tropical de grande parte do Brasil. Mais que isso, porém, não precisa. Pior se forem banhos demorados e quentes demais, que ressecam a pele, diz a dermatologista Ediléia Bagatin, da Unifesp.

Esfregar a pele é saudável

Mentira. Usar buchas ou escovas para dar uma lustrada no corpo durante o banho é recomendável somente até uma vez por semana. Mesmo assim, a pessoa pode viver sem a bucha, diz a dermatologista Cristiane Dal Magro, de Brasília.

Andar descalço é um perigo

Em termos. Em pisos limpos de casas e apartamentos, não há perigo nenhum, mas só vantagens, como deixar a sola do pé fortalecida. Fora desses locais, é bom se assegurar de que o chão onde você está pisando é de qualidade, ou seja, é livre de patógenos.

Os micróbios que causam doenças estão em toda parte. Em vez de evitar a sujeira, lave-se depois

Conheça a edição do mês Conheça a edição deste mês folheando a revista aqui no site Destaques da edição Edições anteriores Assine a revista Folheie a edição
PUBLICIDADE:
Simplifique a sua vida
DÚVIDAS EXPEDIENTE FALE CONOSCO NEWSLETTER MINHA ASSINATURA LOJA ABRIL
Editora Abril Copyright © 2008 Editora Abril S.A.
Todos os direitos reservados. All rights reserved