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Quando Paulinho da Viola pegou um violão pela primeira vez, tinha uma certeza: seu futuro estava na contabilidade. A música, com sorte, seria um hobby – que levaria com seriedade e paixão – , mas nada que pudesse ser encarado como profissão. O sustento estava na carreira de contador, ele acreditava.
A descrença no próprio talento é coisa do passado. Mas a falta de pretensão, não. A modéstia continua, uma desambição que aparece assim, com naturalidade, e se reflete em um carinho pelas coisas que sempre compuseram seu mundo: as pessoas simples, a vida comum, as rodas de samba, os pequenos prazeres da vida. Em outras palavras, Paulinho não ficou mascarado. O sucesso não lhe subiu à cabeça. Para alegria dos velhos amigos de vida modesta, o sambista manteve o espírito simples do jovem contador. Mesmo porque sua música não existiria fora das feiras, botecos, sinucas e pequenas oficinas do centro do Rio de Janeiro, onde ele a concebe. Nem fora dos milhares de estabelecimentos semelhantes espalhados pelo Brasil inteiro, onde ela é apreciada.
Mas não vá você já pensar em boemia e cantoria o dia inteiro, de papo para o ar. Quando pegou a viola e começou a compor, na adolescência, Paulo César já trabalhava. Era contador em um banco e tinha planos de cursar economia em alguma universidade, especializar-se em números. Uma de suas primeiras composições, “14 Anos”, dá uma idéia do que ia pela sua cabeça na adolescência. Tinha eu 14 anos de idade / Quando meu pai me chamou / Perguntou-me se eu queria / Estudar filosofia / Medicina ou engenharia / Tinha eu que ser doutor / Mas a minha aspiração / Era ter um violão / Para me tornar sambista / Ele então me aconselhou / Sambista não tem valor / Nesta terra de doutor.
Mas quando o samba chama, pouca gente resiste. Ele é que não. Certo dia, quando estava em seu posto no banco, viu entrar um rosto familiar. Era o poeta Hermínio Bello de Carvalho. Conheciam-se de vista de rodas de choro na casa de Jacob. Ficaram amigos e, em pouco tempo, Paulinho já estava musicando versos do jovem poeta. Naquele momento, o Brasil perdia um criativo e ponderado economista.
Em meados de 1964, Hermínio o levou a um novo restaurante na rua da Carioca, o Zicartola, mantido (nesta ordem, como o nome deixa claro) por dona Zica e seu marido, o sambista Cartola. Seguiram-se noites de boa comida, bons papos e as primeiras apresentações. Foi ali que Paulinho recebeu o primeiro cachê, das mãos de Cartola. Ser feliz começava a virar profissão.
Ali também selou amizade com sambistas como Zé Kéti e Elton Medeiros. Ao lado de Elton, aliás, e de Jair do Cavaquinho, Nelson Sargento, Anescarzinho do Salgueiro e Jair do Cavaquinho, fundou o grupo A Voz do Morro, com quem lançou suas primeiras gravações, em 1965. Ao lado de Elton lançaria ainda um disco em dupla em 1968, e, nesse mesmo ano, surgia também seu primeiro disco solo.
A escola fez o primeiro regalo. Em sua primeira visita, no começo dos anos 60, Paulinho foi apresentado à ala de compositores da escola, com bambas como Monarco e Candeia. Vencendo a timidez, mostrou um samba que havia acabado de compor, ainda não terminado. O portelense Casquinha gostou, pediu uma licencinha, não repare, e terminou ali mesmo a música. Assim, de cara, o novato ganhou um parceiro e uma composição, a primeira na nova casa: “Recado”, que serviu de ingresso para a ala de compositores da escola. Desde então, desfilou na avenida, escreveu sambas-enredo. E foi lá que garimpou a inspiração para compor, em 1970, um de seus maiores sucessos, “Foi um Rio que Passou em Minha Vida”. Ah, minha Portela / Quando vi você passar / Senti meu coração apressado / Todo o meu corpo tomado / Minha alegria a voltar / Não posso definir aquele azul / Não era do céu / Nem era do mar / Foi um rio que passou em minha vida / E meu coração se deixou levar.
Paulinho soube retribuir. Atento, desde a infância, aos músicos mais experientes, percebeu a quantidade de lindos sambas criados pelos compositores mais antigos da escola. E assim organizou a Velha Guarda da Portela. Para muitos daqueles veteranos, como Manacéa, Aniceto e Ventura, foi a chance de eternizar suas obras-primas, em LP produzido por Paulinho. O álbum Portela Passado de Glória foi a estréia de um grupo que viraria lenda na música brasileira e teria outro disco, Tudo Azul, produzido em 2000 pela cantora Marisa Monte.
Aos 28 anos, o jovem compositor se tornava padrinho daqueles que o inspiravam. O admirador passou a também ser admirado. O influenciado passou a também influenciar. O passado se fazia de novo presente. A tradição renascia e se renovava. Dois anos depois, Paulinho compôs “Dança da Solidão”. Meu pai sempre me dizia / Meu filho tome cuidado / Quando eu penso no futuro / Não esqueço meu passado.
Na canção, Paulinho trocava a cadência do samba por uma tensão criada com acordes dissonantes, melodia quase falada e uma letra sobre os desencontros da vida moderna. Moderna então e ainda atual, a música encenava um diálogo rápido em um sinal fechado, com lembranças de uma amizade perdida no ritmo da vida, com versos como “pois é, quanto tempo”, “me perdoe a pressa” e “por favor, telefone”.
Elifas conta: “Fui até o apartamento dele em Botafogo para ouvir as músicas que estariam no disco. Quando entrei, estava tudo vazio. Ele me recebeu pedindo desculpas pela casa de poeta desquitado e sentamos em dois banquinhos. A primeira música que ele me tocou no violão foi 'Nervos de Aço', do gaúcho Lupicínio Rodrigues, uma triste canção de separação. Naquele momento, a música se misturava com sua história. Quis, então, fazer uma capa que de alguma forma contasse o que havia acontecido e mostrasse esse seu lado. Na capa, Paulinho chora e oferece flores. Na contracapa, Paulinho com as flores e a imagem de sua ex-mulher, também chorando. Eu sabia que, com Paulinho, mesmo uma separação teria que ser feita assim, com flores”.
Tem uma oficina em um terreno na Barra onde guarda carros antigos, que abre, desmonta, monta, conserta. No documentário sobre ele intitulado Meu Tempo é Hoje, lançado nos cinemas em 2003, há um momento revelador, quando mostra um belo Karmann Ghia todo desmontado para sua mulher, Lila, que comenta espantada: “Mas esse carro já estava quase pronto, você desmontou de novo?”. Ele desconversa, encabulado.
E assim, ao seu jeito, o sambista desfruta daquilo que os gurus e mestres não se cansam de repetir: que a felicidade está no caminho, não no destino. A graça não está no resultado, mas no processo, nessa terapia que o filho mais famoso da Portela aprendeu a aplicar a todas as coisas, do virabrequim do possante aos acordes finais de um samba-canção. É como se o sujeito se retirasse do mundo, mas sem sair dele. E como se voltasse de lá, de onde nunca saiu, com um olhar novo sobre tudo. No documentário, sua filha Beatriz achou uma boa maneira de explicar sua transcendência. “Ele vive a dois palmos do chão.”
Mas não a ponto de não enxergar a emoção alheia, como em “Coisas do Mundo, Minha Nêga”, de 1969, uma crônica da vida de sambista carioca. Nos versos, Paulinho conta seus encontros com personagens como Zé Fuleiro e Seu Bento, cada um deles com seus problemas e cada um ganhando uma música do jovem cantor. Por fim, o encontro com um corpo, vítima de uma morte estúpida. Não tirei minha viola: / Parei, olhei, vimme embora / Ninguém compreenderia / Um samba naquela hora. Ao final, conclui: As coisas estão no mundo / Só que eu preciso aprender. Vixe. Se ele, que descobriu o segredo dessa alegria serena, precisa aprender, imagina eu.
DVD
• Meu Tempo É Hoje (Videofilmes, 2003)
• Documentário dirigido por Izabel Jaguaribe, com roteiro de Zuenir Ventura.
SITE
• www.paulinhodaviola.com.br,
site oficial com discografia, biografia, textos, imagens, letras.
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