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Deixe-se em paz

O mundo não vai parar para você ter tranqüilidade. A tão sonhada paz é você que produz e espalha por aí

por Priscilla Santos | foto Estúdio Mol

Imagine-se numa quietude inabalável, sem problemas e decisões difíceis a serem tomadas. Imagine que o mundo não tem mais injustiças de nenhum tipo e nada para abalar sua tranqüilidade. Enfim, imagine uma harmonia estável, constante e ininterrupta. Parece impossível? E é. A paz, que é o assunto deste texto, não tem nada a ver com um mundo perfeito, sem conflitos. Ainda bem, aliás, porque os conflitos são a matéria-prima da realidade, são a trama da vida. Paz, dizem as pessoas que a estudam e a conhecem, é o que se ganha quando se aprende a lidar com eles. E é sobre isso que trata este texto: sobre como construir sua paz e transmiti-la ao redor de si, nas suas relações. Convenhamos, o mundo anda carente disso.

Quando se fala em conflito, é comum a gente pensar em um confronto com outra pessoa. Mas os conflitos, dizem os especialistas, moram dentro da gente. Já ouviu falar que “quando um não quer, dois não brigam”? É isso. Em geral, entramos em conflito quando nossas necessidades não estão sendo atendidas. Sim, necessidades, aquelas coisas essenciais à vida, como comer, dormir e ser amado. Acontece que dificilmente dizemos claramente nossas necessidades, porque mesmo as mais básicas vêm ricamente embaladas em desejos e gostos pessoais. Necessitamos, por exemplo, de nutrição e saúde, por isso queremos comida. Sentimos necessidade de diversão, por isso queremos ver TV. Precisamos de segurança e intimidade, por isso queremos companhia. Quando a gestante decide que “precisa” comer cuscuz com queijo coalho, na verdade ela está com fome. Mas, em meio àquela tempestade hormonal típica da gravidez, o cuscuz é a única coisa em que ela consegue pensar sem sentir que vai virar do avesso. Pronto. Está armada a confusão entre necessidade e desejo. E tome conflito para convencer o marido a sair à caça de um cuscuz.Moral da história: o primeiro passo para quem quer viver numa boa é conhecer os próprios desejos e necessidades. E não confundi-los.

Desligue o automático
Patrícia ia tranqüilamente para o trabalho numa manhã de sol. Tão tranqüila que não viu o carro que vinha atrás e o fechou. Em retribuição, o outro motorista a saudou com palavrões. Patrícia pediu desculpas. E ganhou outros impropérios em troca. Sem saber o que fazer, ela lembrou um ensinamento de sua manicure a um sobrinho:“Na hora da raiva, em vez de mostrar o dedinho feio, é muito melhor mandar um beijo”. Foi o que ela fez, interrompendo o motorista, que ainda declamava seu repertório de insultos. “Ele ficou completamente surpreso e desarmado. No final, já estava mandando beijo também.”

Imagine se Patrícia, num reflexo, saísse a xingar o sujeito. Adeus, bom dia. “Em vez de entrar na mesma esfera de energia, de violência, de rudez, de agressão, a gente pode entender e responder de uma forma não agressiva”, diz a monja Coen, do Mosteiro ZaZen, de São Paulo. Não que seja fácil modificar velhos hábitos – para quem não é monge.Mas também não é impossível.

Assuma o que sente
O primeiro passo é observar as próprias emoções.Costumamos achar que nos conhecemos bastante e podemos agir só com o raciocínio. Mas a verdade é que os acontecimentos cotidianos afetam nossas emoções, e isso faz toda a diferença. Partindo dos mesmos fatos, mas montado em emoções diferentes, nosso raciocínio é capaz de chegar a conclusões (e atitudes) completamente distintas. E às vezes dignas de arrependimento. Isso porque o pensamento não dá conta de todas as variáveis da realidade.“Toda razão, por melhor e mais tempo pensada, é incompleta, o que obriga que não haja decisão sem risco, sem afeto”, escreveu o psicanalista Jorge Forbes em seu livro Você Quer o Que Deseja?.

A dica é velha, e por isso mesmo preciosa: em uma situação de confronto, pare e observe a si mesmo – se não deu para parar, analise depois. Você está nervoso? Por quê? Pode ser uma dor de cabeça que tirou o humor, um mal-entendido com alguém, uma ansiedade pela notícia de algum parente, uma noite mal dormida. Não, não é fácil descobrir. Facilita se tem alguém para ajudar, como um terapeuta. Mas dá para fazer sozinho, também. E com a prática fica mais rápido.

É claro que, ao espiar o próprio umbigo, periga você achar o que não queria ver: raiva do pai ou da mãe, culpa por uma atitude muito errada do passado, aquela invejazinha do sucesso do irmão. Não adianta fingir que não viu. Segundo os especialistas, esconder os sentimentos ruins não vai fazê-los ir embora, só vai deixá-los lá, criando conflito e tirando sua paz. A raiva, o egoísmo e a inveja fazem parte da natureza humana. Todo mundo sente, você também. E não vá sair por aí culpando as outras pessoas por isso.

Não julgue
Camila estava grávida de três meses quando teve sua casa invadida por assaltantes. Sozinha, ela foi amarrada, amordaçada e colocada no sótão. Nesse meio-tempo, cruzou o olhar com um dos criminosos e o reconheceu. Era o ajudante que o pedreiro, conhecido da família há quase 20 anos, havia levado pela manhã para auxiliar na reforma da casa.

Descobriu depois que o pedreiro, “homem trabalhador, de muita confiança”, segundo Camila, havia se endividado e estava ameaçado de morte. Sem dinheiro para acertar as contas, ele ofereceu abrir a porta da casa de Camila para que os homens que o ameaçavam levassem tudo. Ela até chegou a recorrer à polícia, mas depois decidiu retirar a queixa. “Vi que não era nada pessoal, que foi uma coisa do acaso, a bomba tinha estourado na minha mão. Ele tinha um problema grave e não sabia como resolver, a solução que ele encontrou foi essa. Não o julguei por isso.”

Camila sabia onde o pedreiro morava e que seria fácil encontrá-lo, mas também sabia que ele seria jogado numa cela por vários anos e lá poderia apanhar e ser torturado. O resultado é que, na prática, isso não ia mudar nada na vida dela, mas a do pedreiro só iria piorar. “A compreensão de toda a história fez com que eu não tivesse raiva. Por eu conhecer o cara, saber que ele era uma pessoa trabalhadora, agi dessa maneira. Só consegui porque não me desesperei, estava bem comigo mesma.”

Tentar compreender o que move o outro, em vez de julgá-lo, pode evitar sentimentos que nos tiram a paz, como raiva e ansiedade. No caso de Camila, a partir do momento em que descobriu o porquê daquela atitude de um homem em quem tanto confiava, resolveu o conflito para si, pois teve certeza de que, diante da situação, o melhor que podia fazer era ter compaixão e seguir sua vida em frente, e que isso já era uma solução.

É isso que propõe a Comunicação Não-Violenta (CNV), método criado no início dos anos 60 pelo psicólogo norte-americano Marshall Rosenberg e difundido em 35 países, inclusive no Brasil. O modelo parte do princípio de que devemos entender os sentimentos e as necessidades, nossas e dos outros. Patrícia, a moça que manda beijos no trânsito, é praticante do método. “Quando eu me conecto com o que está acontecendo com o outro e ele comigo, o fluxo de informações acontece sem ruídos”, diz o coordenador da CNV Brasil, Dominic Barter.

Participei de uma reunião de CNV. Lá, passei mais de uma hora discutindo o exemplo de uma colega: o que fazer quando você chega em casa e encontra uma bagunça? Lição número 1: não julgar. Nada de sair reclamando dos outros. Saí do encontro animada e disposta a praticá-la. Não tive que esperar muito. Bastou chegar ao apartamento onde moro com meu namorado, que parecia ter sido visitado por uma boiada na minha ausência. Tudo estava fora do lugar, pela enésima vez. Minha reação foi a de sempre: reclamar. Cheguei a abrir a boca, mas a lição estava fresca na memória e consegui evitar. Sem saber o que fazer, comecei a rir. O objetivo da coisa não era esse, é claro. Se eu fosse faixa-preta em CNV, nem teria me passado pela cabeça culpar o desgraçado do bagunceiro. Mas funcionou. Não houve discussão em casa naquela noite.

Mantenha o foco
Adolfo Braga Neto é mediador de conflitos. Seu trabalho é intermediar pessoas com pendências a resolver, mas que preferem evitar os longos corredores da Justiça. Recentemente, Adolfo atendeu ao caso de uma mãe, Maria, e uma filha, Joana (nomes fictícios). Maria reivindicava a guarda da neta de 2 anos, filha de Joana.

A sessão de mediação transcorreu como de costume. Primeiro, as duas combinaram regras básicas, como esta: enquanto uma falasse, a outra ouviria – o que já aliviou bastante a ansiedade das mulheres, cansadas de gritar uma sobre a outra. Na seqüência, cada uma teve tempo para expor sua versão do conflito. Enquanto isso, o mediador as questionava sobre suas atitudes, propondo novas perspectivas para a situação. Experimentaram, por exemplo, o exercício de “calçar o sapato do outro”. Ou seja, mãe e filha deveriam se colocar uma no lugar da outra, para entender os diferentes pontos de vista e expectativas e tentar detectar a real origem do problema. “Na sessão, ficou claro que a criança tinha virado mero objeto de disputa. O que havia, na verdade, eram conflitos entre mãe e filha, originários de problemas antigos como o fato de Maria não ter aprovado o casamento de Joana”, diz Adolfo.

Quando tomaram consciência disso, ficou fácil.Maria se deu conta de que, se tomasse a guarda da neta, estaria tirando de Joana o direito à maternidade. Enquanto Joana percebeu que a avó necessitava participar mais da vida da neta. No fim, ficou decidido que a mãe manteria a guarda e que a avó conviveria mais com a criança. A última notícia que se tem é que elas querem mudar de casa para morar mais perto uma da outra.

O caso de Maria e Joana é um exemplo clássico de como, freqüentemente, perdemos o foco das discussões. Quantas vezes brigamos porque um quer passar as férias na praia e outro no campo sem pensar que no fundo o que os dois querem é descansar e curtir bons momentos juntos? O problema é que normalmente acreditamos que para satisfazer nossas necessidades temos que excluir a do outro, como se duas vontades não pudessem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo. Pois podem.

O monge indiano Paramahansa Prajñanananda tem uma maneira mais poética e intuitiva de descrever a falta de foco. Um dos mestres da krya ioga, uma técnica milenar que visa o bem-estar, a calma e o equilíbrio, Paramahansa diz que a paz vai embora quando nos distanciamos de nós mesmos.“Sair de nosso centro nos gera um vazio muito grande, uma angústia que vai criando um caos interior.” E o que nos empurra para longe de nós? O que nos tira do foco? A vida – o excesso de atividades, o estresse e a falta de tempo ou disposição para a prática espiritual. E, por estar vivo, o próprio guru consome o remédio que receita para falta de foco, a meditação.

Quando nos atemos demais ao passado, corremos o risco de alimentar sentimentos como o arrependimento e a mágoa por algo que se fez ou se deixou de fazer ou por experiências ruins. Já quando nos preocupamos demais com o futuro, abrimos espaço para a ansiedade e o medo do que está por vir. Isso não quer dizer que não devamos ter boas memórias ou fazer planos, mas que não podemos viver, exclusivamente, do que já foi ou do que ainda será.

Meditar é uma técnica para aumentar a concentração no momento presente.Você aí, nesse momento, está apenas lendo este texto ou também está assistindo TV, comendo ou ouvindo música? Se estiver, saiba que isso não é bom. Experimente parar o que mais estiver fazendo e saboreie, nem que seja por um minutinho, a tranqüilidade de estar concentrado em apenas uma tarefa. Bom, né?

Aceite a frustração
André e Cecília eram sócios e namorados há um ano. Mas o namoro acabou e a separação das escovas de dentes abalou a sociedade. Eles tentaram de tudo para manter a empresa de consultoria que tocavam juntos, mas o flerte profissional se tornou insustentável. Recorreram então a um mediador de conflitos, cientes de que, como sócios, estavam brigando como marido e mulher.“Não é um processo tranqüilo, você tem que colocar o dedo na ferida. Senão, não sai do lugar”, diz André. Ao fim da quinta sessão, após encontros e desencontros, Cecília pediu o divórcio da sociedade.

Aceitar que nem sempre as coisas se resolvem como a gente gostaria é a cartada final na busca da paz.Você fez tudo certinho: compreendeu o que você e o outro sentiam, tomou consciência antes de agir, conversou para tentar achar uma solução que atendesse às necessidades comuns.Mas não resolveu o conflito. Que fazer? Aceitar. E ficar em paz, pois fez tudo o que podia. Como lidar com a frustração? Nesse caso, adianta sim chorar o leite derramado ou tirar as calças e pisar em cima. Se for impossível evitar a raiva e a mágoa, melhor vivê-las agora, já. Macerar a mágoa é essencial para que ela fique bem resolvida e, dessa forma, possamos seguir adiante, centrados no que realmente somos e queremos.

Cecília é hoje uma solteira convicta, quer dizer, é consultora autônoma e está sendo paquerada por vários clientes. Sua história nos alerta para o fato de que não existe paz absoluta. Para haver equilíbrio é preciso haver desequilíbrio, são opostos complementares. A paz é um movimento cíclico constante, é uma escolha que se faz a cada dia. Ter paz é saber que tudo é transitório, as coisas boas e as ruins.As paixões, assim como as tristezas, vêm e vão, a calmaria também. E, mesmo num momento de alteração, o simples fato de você saber disso o acalma. Estar em paz é ter a certeza de que se está no caminho.

Para saber mais

Livros
• A Não-Violência Explicada às Minhas Filhas, Jacques Sémelin, Via Lettera, 2001
• A Essência dos Ensinamentos de Buda, Thich Nhat Hanh, Rocco, 2001
• Viva Zen, Monja Coen, Publifolha, 2004
• Você Quer o Que Deseja?, Jorge Forbes, Best Seller, 2003
• Sabedoria para o Novo Milênio, Sri Sri Ravi Shankar, Elo, 2004

Sites
www.cnvbrasil.org, CNV Brasil
www.conima.org.br, Conselho Nacional das Instituições de Mediação e

Arbitragem
www.monjacoen.com.br, Monja Coen
www.artedeviver.org.br, Fundação Arte de Viver

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