PUBLICIDADE PUBLICIDADE
Buscar:
100 RESPOSTAS AGENDA BIBLIOTECA COLUNAS COMER EQUILÍBRIO GENTE GRANDES TEMAS HORIZONTES MENTE ABERTA MORAR VÍDEOS

Baú de brinquedos

O arsenal da molecada tem que ser variado, para incentivar todo tipo de brincadeira: de faz-de-conta, de construir, de pegar, de...

por Lia Hama | foto André Spinola e Castro

Que adulto nunca ficou perdido ao entrar numa loja de brinquedos? Quanto mais produtos vão surgindo nas prateleiras, maiores são as indagações sobre o que escolher para uma criança.Hum, dizem que essa boneca estimula o consumismo... Será que eu vou estragar a educação dela se eu der um videogame? E essa pistola de mentirinha, incita a violência? É melhor comprar um brinquedo educativo? Dúvidas, dúvidas e mais dúvidas. Pais, tios, avós, enfim, todo mundo que depara com a difícil tarefa de escolher um presente fica logo desnorteado. Afinal, hoje a variedade de produtos é infinitamente maior do que no passado (só no Brasil são comercializados mais de 50 mil modelos de brinquedos) e o interesse das crianças muda numa velocidade muito grande. Além disso, questões que antes não faziam parte da lista de preocupações dos pais, como a violência e o uso excessivo de brinquedos eletrônicos, agora estão presentes e devem ser levadas em conta.

Brinquedos são um convite para brincar e brincar é fundamental para o desenvolvimento da criança. É brincando que ela desenvolve características como a criatividade, a inteligência, a concentração,a afetividade e a capacidade de resolver problemas. Também aprende valores fundamentais como o respeito às regras e a importância de saber compartilhar as coisas presentes, por exemplo, nos jogos coletivos. Os brinquedos ajudam no desenvolvimento da linguagem corporal, escrita e oral e ajudam a ampliar o vocabulário. É por meio das brincadeiras que as crianças elaboram vivências e aprendem formas de lidar com situações com as quais mais tarde elas vão deparar na vida adulta. Pode soar piegas, mas é a pura verdade: a criança que brinca se torna um adulto melhor.

Antes de nascer, a criança já brinca com seu próprio corpo dentro da barriga da mãe. Isso pode ser observado na imagem do ultrassom, quando o bebê chupa o polegar. Ele também pode ser estimulado a brincar quando a mãe canta para ele ou o acaricia apalpando a barriga. Isso estimula respostas da criança, como chutes que mostram seu desenvolvimento e motivam a mãe para novas brincadeiras, afirma Leonardo Posternak, pediatra do Hospital Albert Einstein e presidente do Instituto da Família, em São Paulo. No livro Homo Ludens, o historiador holandês Johan Huizinga (1872-1945) chega a dizer que o brincar permeia não apenas a infância, mas todas as situações da vida de uma pessoa, e está na base do surgimento e do desenvolvimento da civilização humana.

Quem escolhe é ela
E como deve ser a seleção dos brinquedos? Não é porque quando era pequeno você sonhava em ter um Autorama que ele necessariamente vai fazer sucesso com seu filho ou sobrinho. Quem deve escolher o brinquedo é a criança, afirma a educadora Nylse Helena Silva Cunha, fundadora da Associação Brasileira de Brinquedotecas.Ao entrar numa loja, deixe a criança escolher o que ela quiser. Se você achar que aquele produto não é adequado, deve mostrar o porquê. Por exemplo, se for um objeto frágil, que vai quebrar logo, você deve explicar isso à criança. Sempre que possível, faça o teste na loja. Deixe a criança brincar por alguns minutos. Muitas vezes ela é enganada pela propaganda na TV e o carrinho que ela tanto sonhava não era nada do que ela imaginava. Se estiver fora do orçamento, você pode fazer acordos. Por exemplo, falar que tem apenas 50 reais para comprar um brinquedo naquele mês. Se o escolhido for o dobro do preço, fica combinado que ele valerá para aquele mês e o próximo.

É importante que a criança tenha um conjunto variado de brinquedos. Quanto maior a variedade, melhor. Desde brinquedos de afeto (como o ursinho e a boneca) até os para brincar ao ar livre (como a bola e a bicicleta), passando pelos de faz-de-conta (como as fantasias e as que imitam profissões de adulto) e os de brincar sozinho (como os de montar e desmontar e a pintura). Vale tudo: brinquedos artesanais, industrializados, antigos, modernos, brasileiros, importados etc. A brincadeira é o tesouro da criança. Ela precisa dominar diferentes práticas culturais para que possa conversar com as outras crianças. A criança bem desenvolvida é aquela que domina diferentes linguagens, afirma Tizuko Kishimoto, professora da Faculdade de Educação e coordenadora do Labrimp (Laboratório de Brinquedos e Materiais Pedagógicos), da USP.

Qualquer coisa serve para brincar. Podem ser legumes e verduras esculpidos na forma de objetos; tampas e panelas de diferentes tamanhos para brincar de encaixe; e até mesmo roupas dos adultos, que servem como fantasia. Baldes com água e areia são ótimos para modelagem. Mas isso não quer dizer que as crianças não devam ter brinquedos industrializados. Os brinquedos carregam o seu tempo. A criança deve ter acesso a essa cultura para se familiarizar com ela, diz Tizuko. Prova disso está na brinquedoteca da USP, onde é possível encontrar até mesmo um caixa 24 horas em miniatura, feito com caixas de papelão e um teclado de computador. A educadora Ruth Elizabeth de Martim conta que a idéia surgiu porque inúmeras crianças chegavam para brincar na vendinha do lugar e, na hora de pagar, perguntavam: Pago em cartão ou em dinheiro? O dono da vendinha falava: Pode ser em dinheiro. Mas onde eu posso sacar dinheiro? Tem um caixa 24 horas aqui perto?, indagava o minicliente.

Depende do uso
É comum os pais simplesmente proibirem o uso de um brinquedo por o considerarem maléfico à educação das crianças.No entanto, um brinquedo não é maléfico em si mesmo, depende do uso que se faz dele. Proibir nunca é a melhor saída porque a proibição aguça a vontade de ter. Os jogos eletrônicos, por exemplo, são motivo de preocupação para pais que temem que a criança passe muito tempo em frente ao computador. A saída é permitir o uso apenas em determinados horários, por exemplo, uma hora por dia ou só nos fins de semana. Com isso, o videogame será apenas mais uma das inúmeras atividades da criança. Bonecas como a Barbie, que supostamente estimulam o consumismo, não são necessariamente ruins. Muitas vezes o problema está na cabeça dos pais. A criança não está interessada em saber se a Barbie é consumista ou não, mas em colocar o sapatinho da boneca e brincar com ela, diz Tizuko. No caso dos revólveres de mentirinha, os educadores geralmente concordam que o uso não deve ser estimulado. Ou seja, nada de dar brinquedos que incitem a violência. Mas se a própria criança montar um revólver com peças de Lego é porque ela precisava extravasar aquele sentimento de agressividade e isso precisa ser trabalhado com ela, diz Nylse.

Freqüentemente a criança expressa sentimentos por meio de um brinquedo. Um caso clássico foi descrito por Freud. Tratava-se de uma criança de 1 ano e meio que fazia desaparecer e aparecer um carretel com linha, jogando-o embaixo de um móvel, mas segurando-o sempre a ponta com a mão. Segundo Freud, com isso a criança tentava dominar a angústia do desaparecimento/aparecimento de sua mãe, simbolizada pelo carretel. A psicóloga Edna Jorge Ribeiro, que tem uma clínica em Bauru, no interior de São Paulo, conta que uma vez um paciente de 8 anos construiu um avião. João (nome fictício), o paciente, dizia que aquele avião era de um garoto que queria ir embora porque o pai não gostava dele. Naquela época, os pais de João estavam se separando e o brinquedo que ele construiu foi uma forma de ele colocar para fora a angústia que ele estava sentindo, afirma Edna. O avião foi feito com um kit que a psicóloga desenvolveu inicialmente para ser usado em terapias infantis e hoje já é comercializado para pais em geral, a marcenaria da alegria, que inclui uma bancada e um quadro de ferramentas, mais tintas, cola, pincéis e pedaços de madeira e sucatas.

E é bom lembrar: não adianta apenas dar o brinquedo, tem que participar. Às vezes basta ficar ao lado da criança e observá-la. Uma hora ela vai te convidar para participar. Mas, até que isso aconteça, deixe-a livre para brincar da maneira que ela quiser. Do contrário é provável que você vá direcionar a brincadeira dela, afirma Posternak.Mais do que um brinquedo, muitas vezes o que a criança precisa é de um bom companheiro ao lado dela. E, nessa hora, nada melhor do que você mostrar que está lá, presente, pronto para colocar em prática o seu lado Homo Ludens.

Para saber mais

Livros
Homo Ludens, Johan Huizinga, Perspectiva
E Agora, o Que Fazer?, Magdalena Ramos e Leonardo Posternak , Ágora
Brinquedos, Desafios e Descobertas, Nylse Helena Silva Cunha, Vozes

Conheça a edição do mês Conheça a edição deste mês folheando a revista aqui no site Destaques da edição Edições anteriores Assine a revista Folheie a edição
PUBLICIDADE:
Simplifique a sua vida
DÚVIDAS EXPEDIENTE FALE CONOSCO NEWSLETTER MINHA ASSINATURA LOJA ABRIL
Editora Abril Copyright © 2008 Editora Abril S.A.
Todos os direitos reservados. All rights reserved