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Que adulto nunca ficou perdido ao entrar numa loja de brinquedos? Quanto mais produtos vão surgindo nas prateleiras, maiores são as indagações sobre o que escolher para uma criança.Hum, dizem que essa boneca estimula o consumismo... Será que eu vou estragar a educação dela se eu der um videogame? E essa pistola de mentirinha, incita a violência? É melhor comprar um brinquedo educativo? Dúvidas, dúvidas e mais dúvidas. Pais, tios, avós, enfim, todo mundo que depara com a difícil tarefa de escolher um presente fica logo desnorteado. Afinal, hoje a variedade de produtos é infinitamente maior do que no passado (só no Brasil são comercializados mais de 50 mil modelos de brinquedos) e o interesse das crianças muda numa velocidade muito grande. Além disso, questões que antes não faziam parte da lista de preocupações dos pais, como a violência e o uso excessivo de brinquedos eletrônicos, agora estão presentes e devem ser levadas em conta.
Brinquedos são um convite para brincar e brincar é fundamental para o desenvolvimento da criança. É brincando que ela desenvolve características como a criatividade, a inteligência, a concentração,a afetividade e a capacidade de resolver problemas. Também aprende valores fundamentais como o respeito às regras e a importância de saber compartilhar as coisas presentes, por exemplo, nos jogos coletivos. Os brinquedos ajudam no desenvolvimento da linguagem corporal, escrita e oral e ajudam a ampliar o vocabulário. É por meio das brincadeiras que as crianças elaboram vivências e aprendem formas de lidar com situações com as quais mais tarde elas vão deparar na vida adulta. Pode soar piegas, mas é a pura verdade: a criança que brinca se torna um adulto melhor.
Antes de nascer, a criança já brinca com seu próprio corpo dentro da barriga da mãe. Isso pode ser observado na imagem do ultrassom, quando o bebê chupa o polegar. Ele também pode ser estimulado a brincar quando a mãe canta para ele ou o acaricia apalpando a barriga. Isso estimula respostas da criança, como chutes que mostram seu desenvolvimento e motivam a mãe para novas brincadeiras, afirma Leonardo Posternak, pediatra do Hospital Albert Einstein e presidente do Instituto da Família, em São Paulo. No livro Homo Ludens, o historiador holandês Johan Huizinga (1872-1945) chega a dizer que o brincar permeia não apenas a infância, mas todas as situações da vida de uma pessoa, e está na base do surgimento e do desenvolvimento da civilização humana.
É importante que a criança tenha um conjunto variado de brinquedos. Quanto maior a variedade, melhor. Desde brinquedos de afeto (como o ursinho e a boneca) até os para brincar ao ar livre (como a bola e a bicicleta), passando pelos de faz-de-conta (como as fantasias e as que imitam profissões de adulto) e os de brincar sozinho (como os de montar e desmontar e a pintura). Vale tudo: brinquedos artesanais, industrializados, antigos, modernos, brasileiros, importados etc. A brincadeira é o tesouro da criança. Ela precisa dominar diferentes práticas culturais para que possa conversar com as outras crianças. A criança bem desenvolvida é aquela que domina diferentes linguagens, afirma Tizuko Kishimoto, professora da Faculdade de Educação e coordenadora do Labrimp (Laboratório de Brinquedos e Materiais Pedagógicos), da USP.
Qualquer coisa serve para brincar. Podem ser legumes e verduras esculpidos na forma de objetos; tampas e panelas de diferentes tamanhos para brincar de encaixe; e até mesmo roupas dos adultos, que servem como fantasia. Baldes com água e areia são ótimos para modelagem. Mas isso não quer dizer que as crianças não devam ter brinquedos industrializados. Os brinquedos carregam o seu tempo. A criança deve ter acesso a essa cultura para se familiarizar com ela, diz Tizuko. Prova disso está na brinquedoteca da USP, onde é possível encontrar até mesmo um caixa 24 horas em miniatura, feito com caixas de papelão e um teclado de computador. A educadora Ruth Elizabeth de Martim conta que a idéia surgiu porque inúmeras crianças chegavam para brincar na vendinha do lugar e, na hora de pagar, perguntavam: Pago em cartão ou em dinheiro? O dono da vendinha falava: Pode ser em dinheiro. Mas onde eu posso sacar dinheiro? Tem um caixa 24 horas aqui perto?, indagava o minicliente.
Freqüentemente a criança expressa sentimentos por meio de um brinquedo. Um caso clássico foi descrito por Freud. Tratava-se de uma criança de 1 ano e meio que fazia desaparecer e aparecer um carretel com linha, jogando-o embaixo de um móvel, mas segurando-o sempre a ponta com a mão. Segundo Freud, com isso a criança tentava dominar a angústia do desaparecimento/aparecimento de sua mãe, simbolizada pelo carretel. A psicóloga Edna Jorge Ribeiro, que tem uma clínica em Bauru, no interior de São Paulo, conta que uma vez um paciente de 8 anos construiu um avião. João (nome fictício), o paciente, dizia que aquele avião era de um garoto que queria ir embora porque o pai não gostava dele. Naquela época, os pais de João estavam se separando e o brinquedo que ele construiu foi uma forma de ele colocar para fora a angústia que ele estava sentindo, afirma Edna. O avião foi feito com um kit que a psicóloga desenvolveu inicialmente para ser usado em terapias infantis e hoje já é comercializado para pais em geral, a marcenaria da alegria, que inclui uma bancada e um quadro de ferramentas, mais tintas, cola, pincéis e pedaços de madeira e sucatas.
E é bom lembrar: não adianta apenas dar o brinquedo, tem que participar. Às vezes basta ficar ao lado da criança e observá-la. Uma hora ela vai te convidar para participar. Mas, até que isso aconteça, deixe-a livre para brincar da maneira que ela quiser. Do contrário é provável que você vá direcionar a brincadeira dela, afirma Posternak.Mais do que um brinquedo, muitas vezes o que a criança precisa é de um bom companheiro ao lado dela. E, nessa hora, nada melhor do que você mostrar que está lá, presente, pronto para colocar em prática o seu lado Homo Ludens.
Livros
Homo Ludens, Johan Huizinga, Perspectiva
E Agora, o Que Fazer?, Magdalena Ramos e Leonardo Posternak , Ágora
Brinquedos, Desafios e Descobertas, Nylse Helena Silva Cunha, Vozes
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