Errar é humano, superar é divino. Nada mais verdadeiro quando se olha a trajetória de Ademir da Guia, jogador que se consagrou no Palmeiras dos anos 70, ganhou estátua no clube, foi apelidado de Divino e mereceu até poema de João Cabral de Melo Neto. A superação está nos capítulos mais importantes da vida de Ademir. Primeiro, venceu uma infância de poucas perspectivas no subúrbio de Bangu, no Rio de Janeiro. Depois, atropelou o consenso de que era um jogador lento e sem futuro. Virou lenda, mesmo sendo filho de Domingos da Guia, craque dos anos 30. Já consagrado, sofreu com uma falta de ar que nunca foi diagnosticada, mas que o tirou do futebol. Ademir chegou a ficar trancado em casa durante anos por conta do que chama de “o problema”. Levou mais de duas décadas para vencer essa batalha e logo inventou outra: entrou para a política e hoje é vereador de São Paulo. Aos 63 anos, está recomeçando. Para quem tem um apelido como o dele, sua história traz uma ironia. O Divino tira sua força da humildade. Uma qualidade que ele nem precisou chamar pelo nome durante a entrevista que concedeu em seu gabinete na Câmara, mas que sempre aparece quando fala da vida. Um exemplo? “Nunca pensei: ‘Ah, eu sou o melhor’. Há sempre o que aprender.” Não é à toa que, além de estátua, virou poema.
O jogador de futebol era mais feliz antigamente?
Era mais feliz, por causa da raiz que ele conseguia plantar. Eu, por exemplo, tenho no Palmeiras a minha segunda casa. Joguei lá durante 16 dos meus 20 anos de carreira. Eles me reconhecem como uma pessoa que dedicou a vida ao clube. Aquela era outra época, de um futebol romântico,em que era possível botar torcidas adversárias lado a lado no estádio. Hoje, o futebol dá mais condição para jogar. Tem calendário organizado, campos em melhor estado. Tem 50, 100 jogadores brasileiros que ganham muito dinheiro.Mas não há mais identificação com a camisa. Dinheiro é muito importante, mas daqui a 20 anos esse jogador tem de ver se deixou alguma coisa plantada em algum lugar.
Como você lidava com a vaidade?
Eu vim com 15 anos de Bangu, um bairro muito simples do Rio, onde comecei jogando. Comecei sem ter ilusão de virar profissional. Vir para o Palmeiras foi uma coisa grandiosa. O time tinha sido campeão em 1959 contra o Santos, tinha um senhor esquadrão. Cheguei como um garoto que ficava na reserva esperando uma oportunidade. Quando ela surgiu, nunca achei que eu era titular absoluto.Havia outros bons jogadores, e o Palmeiras vivia contratando. Isso não permitiu que eu vivesse de glória, a gente tinha de batalhar para manter a posição. Nunca pensei: “Ah, eu sou o melhor”.Hoje você poderia ser titular e amanhã, já não ser. E há sempre o que aprender.
Mas você fazia muito sucesso...
O futebol é assim: se você joga bem, todo mundo cumprimenta, te abraça, te aplaude. Se você joga mal, aí vem a crítica.Você tem de aceitá-la também.
Como era nos momentos de baixa?
Para isso, meu início no Palmeiras foi muito importante. Foi muito difícil, sofria muitas críticas. Diziam que eu era lento, que jamais seria titular. E era verdade. Eu vinha do futebol carioca, bem mais lento que o paulista. Sabia que jamais poderia ser rápido, mas que poderia melhorar. E melhorei. O pessoal começou a dizer que eu era o “falso lento”. Foi um degrau que eu subi. A crítica tem de ser encarada de forma construtiva. Partir dela para melhorar. O certo é, quando a gente está mal, batalhar em dobro. Vi muita gente que o técnico tirou do time e, em lugar de treinar mais para se superar, o cara ficava zangado e desestimulado.
O futebol ensinou coisas que serviram para a vida toda?
O futebol foi tudo na minha vida. Nele plantei coisas que me trouxeram até aqui, à política. O esporte tem o dom de aproximar as pessoas. Um exemplo: você pega um grupo que vive no nervosismo de uma empresa, coloca esse pessoal em uma quadra para jogar e tudo muda. Vira todo mundo igual, do chefe ao motorista. O esporte me ensinou a valorizar a igualdade. E também me deu essa noção de que hoje você pode estar ganhando, mas amanhã pode perder.
Como foi parar de jogar?
Eu parei com 35 anos, mas poderia ter ido até os 40. Foi um problema que eu tive. Eu corria e me ressecava a garganta. Parecia que tinha alguma coisa me afogando.Comecei a ter medo. Entrava no campo, sentia que iria afogar, vinha aquela secreção, que parecia um chiclete na boca, eu já não podia mais correr. Eles me operaram, operação de septo nasal, mas eu voltei depois de um mês e o problema persistia. Operei de novo depois de um ano, mas não consegui mais me sentir bem. Aí, parei.
E se sentiu melhor?
O problema começou no futebol, mas depois passou para a vida toda. Comecei a não querer mais sair de casa. Quando eu saía, sentia a poluição. Era o problema. Uma coisa horrível para mim,sentia muito medo.Eu saía de casa para ir a algum lugar, mas não conseguia continuar e voltava. Era ruim no frio, era ruim no calor, era ruim no sol, era ruim na sombra. Eu fui me recolhendo. Aos 35 anos, me vi doente, trancado dentro de casa. Os primeiros seis, sete anos foram terríveis. Fiquei muito fora de tudo. Eu não pensava mais em jogar, mas em me curar. Voltar a ter vida de pessoa normal.
Ninguém descobriu o que era?
Nunca foi diagnosticado. Se você tem um problema e pode operar, é uma coisa espetacular, aquilo resolve. Mas, se você não sabe o que é, e sente, é difícil de as pessoas acreditarem e entenderem.
Como você superou?
Depois de uns dez anos, eu recebia muito convite para jogar de brincadeira e comecei a querer ir. Em geral, sentia medo e não ia. Teve vez que venci o medo, comecei a brincar com a bola e senti o problema. Aí eu ficava mais uns dois ou três anos sem pisar no campo. Depois eu recomecei a trabalhar em escolinha de futebol, mas sem nunca correr. Tinha medo.Depois foi passando, de um jeito bem lento. Acho que meu organismo deve ter se acostumado com o problema e ele mesmo foi se curando, devagarzinho. Só há uns dois, três anos, eu pude voltar a brincar sem preocupação. Foram mais de 25 anos. Muito tempo sem o futebol, que era tudo na minha vida.
Você começou na política com 60 anos. Deu medo de enfrentar um ambiente tão diferente?
Para mim,a política é, sim,uma vida totalmente diferente da que eu sempre vivi. É uma oportunidade de recomeçar. Nesses seis meses (seu mandato começou em janeiro), já aprendi muita coisa. O xis da questão é a vitalidade, é ter força.Graças a Deus, tenho força e coragem para enfrentar tudo isso.