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A casa é nossa

Quando os moradores de um condomínio percebem que podem transformá-lo, mudanças mágicas podem acontecer

por Roberta De Lucca

Os moradores do condomínio onde vive a funcionária pública Dalva Maria de Araújo, no bairro do Cambuci, em São Paulo, estão empolgados com as mudanças que vêm ocorrendo ali. As áreas verdes, que andavam abandonadas, em breve vão receber um trato, e o melhor: quem vai cuidar das plantinhas serão alguns adolescentes moradores do próprio condomínio, que receberão para isso aulas de jardinagem e paisagismo. Também andam a passos largos os projetos para a implantação de uma biblioteca e para as melhorias nas quadras poliesportivas. E a vizinhança já está planejando, para o futuro, uma horta comunitária e uma composteira de lixo orgânico. E nada disso estava previsto no projeto do conjunto de 12 prédios, não. Nem foi iniciativa da administradora. A transformação é fruto da união dos moradores, que descobriram que queriam e que podiam viver melhor dentro da própria casa.

É claro que o espírito coletivo não baixou de uma hora para outra.Na verdade, a mobilização começou por um motivo pouco nobre, mas um dos poucos que costumam mobilizar a vizinhança: dinheiro. O antigo síndico, segundo os moradores, fazia uma gestão ineficiente e acumulava dívidas, e foi preciso uma união para tirá-lo do posto. Mas a luta rendeu frutos que ninguém esperava e deu à luz um espírito de vizinhança que deveria ser comum em condomínios.Afinal, estamos falando da nossa casa.

Quem compra um apartamento também paga pelas áreas livres, o jardim, a piscina, a churrasqueira e o parquinho, mas poucos se consideram donos dessas áreas e a maioria perde a chance de enxergar aquilo como um quarto ou um quintal que pode, sim, ser aproveitado de acordo com a vontade dos moradores. “As pessoas que moram num prédio têm realidades e personalidades muito diferentes e nem todos concordam com as mesmas coisas. Por esse motivo as áreas comuns são mal utilizadas”, afirma o professor de história da arquitetura da Faculdade de Arquitetura de Urbanismo da USP, Carlos Alberto Cerqueira Lemos.

O resultado é que as decisões acabam na mão do síndico. Certo, ele foi eleito pela maioria, mas isso não quer dizer que tenham que sair dele todas as idéias e iniciativas para tornar a vida melhor.Mesmo porque as vontades que vão dar frutos às melhores idéias moram na cabeça de cada morador, e só vão virar realidade se forem apresentadas aos outros. Participação, portanto, é fundamental.

A videomaker Irlândia Fonseca, por exemplo, mora num condomínio em que não havia sala de ginástica. Ela não pensou duas vezes para mobilizar alguns moradores a fim de criar o projeto para uma academia. Depois de conseguir permissão para usar uma sala desativada, o grupo implantou a coleta seletiva de lixo entre os condôminos dos mais de 280 apartamentos e, com o dinheiro da venda do material, montou a sala de ginástica, com equipamentos de segunda mão.A idéia deu tão certo que menos de um ano depois o condomínio, localizado no Butantã, também em São Paulo, construiu uma academia mais bem equipada, com maquinário novo, e assim os moradores ganharam um espaço não só para cuidar do corpo, mas também de convívio social.

Encampe boas idéias
Se os exemplos anteriores fizeram brotar boas idéias de como usar aquela sala ou aquele espaço que está abandonado no seu prédio, a primeira dica é: identifique o que pode ser feito, bem como sua utilidade e viabilidade. O passo seguinte é despertar o interesse dos outros moradores para sua idéia. Se ela for boa mesmo, pode ter certeza de que o apoio será imediato. A terapeuta corporal Ilana Kuschnir só percebeu a necessidade de revitalizar o parquinho do prédio em que ela vive, no bairro paulistano de Perdizes, depois que sua filha nasceu. Conversando com vizinhos, Ilana descobriu que um terço deles tinha filhos pequenos, mas quase ninguém usava o playground porque ele estava mal cuidado. Então ela fez a cotação de novos brinquedos e apresentou a idéia de compra para os moradores. “Coletei assinaturas de apoio e levei para o síndico a sugestão, que foi aprovada.Hoje temos um parquinho ao ar livre e uma sala com brinquedos para os dias de frio ou chuva.”

Parece pouco, mas com essa iniciativa simples a vida no prédio, acredite, mudou. As crianças passaram a ter espaço e liberdade e brincam como se morassem em uma vila ou rua bem tranqüila e estreitaram ainda mais as amizades. De quebra, os pais se conheceram melhor e alguns até se tornaram amigos. Ilana, que até então praticamente não conhecia ninguém no edifício, hoje conhece quase todo mundo. E seu poder de comunicação com a comunidade é tão grande que já foi escalada para coordenar a implantação da coleta seletiva de lixo.

Usando Ilana como exemplo, compreende-se que o passo número 2 para uma boa idéia dar certo é definir um líder para comandar o barco. Não estou falando de um líder centralizador e despótico, mas de uma pessoa que abrace uma tarefa e a leve até o fim, com muita determinação. Esse líder, que bem pode ser você, contagia os demais e abre uma série de novas possibilidades em benefício dos moradores. Dalva de Araújo, aquela do condomínio do Cambuci, carrega essa aura de liderança com tanta firmeza que todos os moradores a apoiaram quando ela os mobilizou pela moralização do condomínio. Naturalmente, ela se tornou administradora interina. “Tudo isso está sendo possível porque os vizinhos acreditaram que seríamos capazes de assumir o condomínio e fazer mudanças”, diz ela.

Que tal mudar?
Não temer mudanças é o terceiro item para quem deseja participar ativamente da vida do condomínio. Olhe para os espaços de lazer e áreas comuns do seu prédio.Tudo funciona e é usado pelas pessoas? Ou tem uma sala abandonada ou sendo mal utilizada? O que pode ser feito para esse espaço ser usufruído? Fazer essas perguntas e procurar respostas junto com seus vizinhos pode resultar em grandes idéias. O importante é não ter medo de mudar o padrão e acreditar na mudança.

No prédio em que a dentista Christiane Sader Neves Ferreira mora, todos apoiaram quando ela, que é síndica, sugeriu a criação de uma brinquedoteca em substituição ao salão de jogos que ninguém usava.“Os vizinhos doaram brinquedos e fantasias e os comerciantes do bairro patrocinaram a compra de mesas, cadeiras e outros móveis. Negociei com a operadora de TV a cabo a doação de um televisor e de um ponto para a transmissão dos programas”, diz Christiane, que levou tão a sério o encargo que implantou o sistema de autogestão no prédio. “Tentei duas novas administradoras e elas não funcionaram. Então resolvi administrar sozinha e está dando certo”, afirma.

Na base da confiança
Partir para soluções mais radicais como a autogestão é conquistar a confiança dos moradores – pelos menos da maioria. E ganhar essa confiança é resultado de uma postura firme e segura. Com foi dito no começo deste texto, uma boa idéia é sempre bem apoiada desde que esteja com o foco bem definido. Um condomínio na cidade se Santo André, região metropolitana de São Paulo, tem amargado, como muitos do país, a falta de verba de manutenção por conta da inadimplência. Mas, em vez de aumentar o valor do condomínio, a síndica Isabel Barbosa Guimarães partiu para as ações coletivas. Organizou um mutirão com a participação dos moradores para pintar os halls de entrada dos prédios, o salão de festas e os muros, além da plantar uma cerca-viva e diversas plantas e flores para incrementar o jardim. “O mutirão também aproximou as pessoas. Tinha gente que não se falava e que acabou se tornando amiga.”

Quando você conhece melhor seu vizinho, não são apenas as relações sociais que melhoram – muita coisa pode acontecer. No condomínio da Christiane, foi um arquiteto que mora no prédio que fez os projetos de reforma da quadra poliesportiva e da criação da ciclovia e da pista de skate. Detalhe: o trabalho não custou um centavo, pois foi abatido do condomínio em atraso. Moradores de outro edifício no Morumbi têm à sua disposição temperos e plantas medicinais para chás e infusões que estão em 20 canteiros plantados e mantidos pelo próprio síndico, que adora medicina natural. É só ir lá e pegar.

E você, está esperando o que para tomar posse do que é seu?

Para levar à reunião
A ÁREA DE LAZER Criança precisa de espaço para brincar e correr. Tem lugar para isso no prédio? Não é o caso de aposentar os brinquedos velhos do parquinho e dar espaço para as crianças usarem a imaginação?

O PARQUINHO Na hora de substituir os brinquedos do playground, procure outros que sejam fáceis de conservar e de pouca manutenção

AQUELA SALA SEM USO O salão de jogos pode virar um espaço multiuso, para aulas de artesanato de adultos e crianças, como brinquedoteca e sala de TV. Tudo depende de criatividade para dispor os móveis e guardar os objetos de uso comum

BIBLIOTECA É possível montar uma biblioteca e gibiteca com livros e revistas doados pelos moradores

COBERTURA Um toldo retrátil pode ampliar o espaço do salão em dia de festa. No verão, pode fazer sombra para a criançada brincar

PERSONAL TRAINER Que tal contratar um personal trainer, um professor de ioga, tai chi ou meditação? Até quem nunca se mexeu vai querer participar

JARDIM Se o condomínio tem área verde, por que não fazer uma horta ou canteiros de temperos? O condomínio pode pagar o curso a quem for cuidar das plantinhas

ORGANIZAÇÃO Fazer coleta seletiva e vender o lixo reciclável pode render dinheiro para manutenção, compra de ferramentas e outras necessidades do condomínio.

PARA SABER MAIS
SITES
• Informações sobre e para condomínios: www.portaldoscondominios.com.br, www.sindiconet.com.br
• Coleta seletiva: www.acaoreciclagem.com.br, www.institutogea.org.br
• Associação de Agricultura Orgânica: www.aao.org.br (curso de horta comunitária)

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