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Malas prontas,Rubens Cafuk parte em direção ao mar. Não só para ficar na praia. De máscara e nadadeiras, mais uma vez ele vai se encontrar com seu velho amigo, o silêncio. Sob o som das borbulhas da própria respiração, ele mergulha na quietude do oceano. É quando sua alma descansa, seu corpo relaxa. “Sem isso, não sobreviveria”, diz o comerciante paulista.“É um momento em que posso estar em paz comigo.” Pouco tempo atrás, Rubens percebeu que na maior parte do tempo ele era o que as pessoas queriam e fazia o que elas esperavam. E que a quietude lhe reservava a rara possibilidade de ser ele mesmo.
Grande sabedoria, a dele. E de muita gente que aprendeu que esse encontro com o silêncio é fundamental.Na verdade, antes de escrever esta reportagem, não tinha idéia de que tantas pessoas já descobriram a importância desses momentos de calma e planejam a vida para que eles aconteçam cada vez mais.
Quando as pessoas sentem sede de silêncio, o primeiro lugar que pensam em deixar mais tranqüilo é a própria casa. Muita gente no Brasil procura seguir o exemplo dos japoneses, transformando suas moradias em templos silenciosos, com tatames ou tapetes forrando o chão, poucos eletrodomésticos e sapatos do lado de fora da porta.“Cada vez mais tenho pedido para diminuir os ruídos internos das moradias”, diz o especialista em acústica Francisco Bemitz, que trabalha há 30 anos nessa área. Para isso, ele usa materiais especiais para forros e janelas com vidro duplo e até recomenda paredes mais grossas entre os ambientes.“Para haver conforto acústico, o ruído interno deve estar entre 40 a 50 de decibéis.” Isso é o equivalente a conversas em voz baixa, música baixa e sons acolchoados por cortinas e tapetes. Ele não recomenda, no entanto, transformar a casa numa tumba à prova de ruídos. “O silêncio completo pode surtir o efeito contrário e causar agitação. Passamos a ouvir os barulhos digestivos, o estalar dos ossos.Com o tempo, isso pode dar nos nervos.” Segundo Francisco, o ser humano precisa de uma gama variada de percepções. O silêncio torna-se bem- vindo justamente porque estamos continuamente imersos no barulho e necessitamos dele como uma outra qualidade de impressão.
Um amigo meu diz que durante o dia procura “tirar o som” da vida. Isto é, olha para o que está acontecendo procurando abstrair o barulho, como num filme sem trilha sonora. Ele garante que a vida ganha outro sabor e que, a partir disso, passa a olhar para coisas que jamais olharia: o movimento das folhas das árvores, a textura dos gravetos no chão.Outro amigo, jornalista, que trabalha a semana inteira com as palavras, no sábado de manhã vai para uma praça, senta num banco, e fica ali parado, por meia hora. Procura tirar as palavras do pensamento, olha para as coisas sem rotulá-las e aquieta o falatório interno. “Me dou o luxo de vegetar”, resume laconicamente. Diz ele que sai dali renovado.
Outro grande mestre, o monge alemão Eckart, do século 13, também falou sobre isso, no magnífico texto “O Silêncio da Criação”, encontrado no Livro da Divina Consolação. Eckart se pergunta onde está Deus em nós, e responde que “deve estar no que a alma tem de mais puro, de mais nobre e de mais delicado”. Para Mestre Eckart, o silêncio do fundo da alma é o único lugar onde o Criador pode se manifestar plenamente.
Músicos também têm uma grande relação com o silêncio. Artur Andrés, flautista e compositor do grupo mineiro Uakti, diz que para tocar bem é preciso procurar o silêncio interno de onde surge a música. Para ele, a música é um conjunto que combina massas sonoras e silêncios.Artur lembra que o compositor americano John Cage,músico de vanguarda do século passado, compôs uma peça em que se sentava ao piano, permanecia ali três minutos quieto, fechava o teclado e saía. Com esse gesto, convidava as pessoas a ouvir o silêncio que está sempre presente.
CDS
• Música dos Sayyds e dos Derviches, (piano e flauta) – Gurdjieff/De Hartmana – com Regina Amaral, Artur Andrés e Mauro Rodrigues.
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