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Movido a paixão

A vida do Beatle que perseguia os próprios desejos, assumia seus sonhos e inspirava um mundo melhor

por Marcelo Zorzanelli Ferro | agradecimentos Blackbird Music Shop

Em 2004, Paul McCartney deu uma longa entrevista à revista de música inglesa Uncut. E ninguém se espantou que boa parte da entrevista tenha versado sobre John Lennon, seu ex-companheiro de banda, um cara morto há 25 anos, de uma banda que acabou há 35 anos. Sinal da influência do ex-companheiro. "John era um cara fantástico. Mas não tinha monopólio sobre o bom senso. Era tão besta quanto um homem normal", disse Paul. É claro que existem frases melhores sobre John. Então por que começar a reportagem com essa? Primeiro, porque ela vem de alguém que o conhecia muito bem. Depois, porque não foi dita no calor do relacionamento diário entre os dois, e sim décadas depois.

E o que fica da frase de Paul é que seu amigo de banda, embora admirado e tido por muitos como um sábio, um ser mais elevado, era um cara normal - até aí, nenhuma novidade -, mas um cara normal que vivia intensa e apaixonadamente. E olha que os anos 60, época em que as vidas dos dois se cruzaram, estiveram entre os mais apaixonantes da história. Foram os tempos em que se acreditou, talvez pela única vez, que era possível jogar fora tudo que havia de mesquinho e ruim no pensamento do mundo. Em um ambiente desses, fica difícil destacar-se pelos ideais grandiosos. Pois John conseguiu. Foi um dos mais apaixonados em um mar de paixões. E o que você vai ler a seguir é uma história de suas paixões.

O moleque estranho
Nascido em Liverpool, em 1940, John disse que sempre se sentiu diferente. Logo depois de seu nascimento, seu pai desapareceu nas brumas do porto, de onde só ressurgiu depois que o filho já havia se enchido de dinheiro. Sua mãe, muito jovem, deu o filho para a irmã criar e foi morar quarteirões adiante. A infância pobre o menino passou devorando os livros de Lewis Carroll, seu autor preferido, e convivendo com a estranha companhia que era ele mesmo. "Eu era o garoto que os pais não queriam ao lado de seus filhos."

Sua paixão era a arte. Desenhava seus próprios personagens, escrevia poemas com aliterações e metáforas aos 7 anos e não gostava da escola formal - nem a entendia. "Meus amigos foram criados na mentalidade burguesa, só pensavam em dinheiro. Eu pensava em meu próprio mundo, onde me divertia, e secretamente esperava alguém para me comunicar."

A salvação surgiu no começo da adolescência: a catarse do rock. A tia deu a ele um violão, com as recomendações que achou devidas: "Isso é bom como um hobby, mas você nunca vai ganhar a vida assim". O uso que ele fez do instrumento todo mundo sabe. O violão serviu até para ele reencontrar a própria mãe, que o incentivava ensinando novos acordes. Mas não houve tempo para desfrutar da reaproximação. Pouco depois do reencontro, um policial bêbado a atropelou, matando-a. John tinha 17 anos. "Minha primeira lembrança da vida é a de um pesadelo", diz ele na autobiografia dos Beatles.

Entrega à música
Como todo bom jovem, John sufocou a raiva e foi se divertir. Vestiu-se de couro e gomalina, comprou uma guitarra elétrica barata e tocou até os dedos sangrarem. Conheceu Paul numa quermesse de igreja, George por intermédio de Paul e Ringo durante um show da banda que haviam montado. Foram então para o território da Luz Vermelha de Hamburgo, na Alemanha, o lugar perfeito para jovens instrumentistas se conhecerem melhor, tocando oito horas por noite. Tocou durante dias, sem dormir, sustentado por cerveja e anfetaminas. Até aqui, quem poderia dizer que esse seria o autor de "Imagine", a balada repleta de valores elevados como fraternidade, altruísmo e desapego? Sem dúvida, nenhum daqueles marinheiros de Hamburgo, que assistiam ao jovem com um assento de privada pendurado no pescoço conversar ao pé do ouvido de uma dançarina de cabaré.

"Somos a melhor banda do mundo. Sabemos disso. Agora só falta contar para o resto do mundo", disse John, profeticamente. De fato, depois de Hamburgo as coisas andaram rápido. Descobertos por um empresário, fecharam contrato com uma gravadora e em três anos já podiam ser considerados estrelas. Embriagado por sua paixão pela música, John trabalhava como nunca imaginou que trabalharia. Quem não o conhecesse (e quem o conhecia?), acreditaria que ali estava um jovem workaholic, sem nada na cabeça a não ser rock e a badalação que o envolvia.

Rito de passagem
Mas ele tinha opiniões. E um jeito muito especial de expressá-las. E logo foi possível notar que havia ali um sujeito intrigante. O John filósofo apareceu pela primeira vez em 1963, durante uma apresentação ao vivo na TV, para uma platéia peculiar. Antes de tocar "Twist and Shout", John pediu que as pessoas nos assentos mais baratos acompanhassem a canção batendo palmas. O resto podia apenas sacudir as jóias. "O resto" eram os príncipes, duques, condes, a rainha. Seu medo e hesitação enquanto dizia essas palavras estarão para sempre gravados em filme, como atestados de seu rito de passagem para os assuntos mais sérios.

O sucesso logo os conectou com influências do mundo todo, entre elas a de Bob Dylan. O lado apaixonado de John Lennon, aquele que fez o menino dedicar-se ao desenho, aos livros, ao violão e ao trabalho, inquietou-se. Ele copiou o estilo de Dylan em algumas músicas, colocou ali palavras e temas novos e expandiu as canções dos Beatles para mais perto do espírito da juventude universitária americana.

Mas ainda falava de si mesmo. A paz e o amor entre os povos não eram assunto. Pode-se dizer que John transformou-se num poeta de mão cheia. Exemplo disso é "In My Life", uma balada melancólica inspirada por uma viagem de ônibus por Liverpool em que analisa seus poucos 24 anos. "In My Life" marca a chegada do John reflexivo, curioso, que, ao olhar para os lugares de sua juventude, diz que "alguns mudaram para sempre, não para melhor". O desconforto também estava em "Help!", hit comercial que vendia o filme homônimo. "Ajude-me se você puder, estou me sentindo mal," gritava ele. "Quando era mais jovem, não precisava da ajuda de ninguém. Mas não me sinto mais tão seguro. Preciso de você como nunca precisei." A ajuda estava a caminho.

Cara-metade
Entra em cena a japonesa. Numa exibição de arte, em 1966, John encontra Yoko Ono. A galeria está fechada. Ele quer entrar. Ela não quer abrir exceções para celebridades. A negativa atrai o Beatle, que deseja ver de perto a instalação do centro da sala. Ela finalmente concorda. Ele se detém diante de uma escada, sobe os degraus, olha dentro de uma caixa branca e encontra uma lupa. No topo da caixa, uma palavra impressa em letras minúsculas. Com a lente de aumento, ele lê: "Yes". Sim, John se apaixonou na hora. "Ela podia ter escrito qualquer coisa; guerra, sexo, morte. Mas ela escreveu 'sim', tudo que eu precisava naquele momento."

Com Yoko a tiracolo, John e os Beatles são convidados em 1967 para estrelar a primeira transmissão ao vivo de áudio e vídeo para todo o mundo, originada da Inglaterra. Mas teriam que cantar algo inédito. Os executivos da televisão pediram algo simples, com palavras fáceis, para que todos entendessem. Duas semanas depois de encomendada, a canção "All You Need Is Love" era ensaiada e cantada nos estúdios da BBC. Espiritualmente, esse foi o ponto alto da década. Até hoje, quando nos lembramos do espírito dos anos 1960, o que vem à cabeça é o sublime contentamento dessa música e a imagem dos quatro rapazes, vestidos como santos hindus, cercados de flores e placas com mensagens de amor escritas à mão.

Mas o sonho de mudar o mundo à base de boa vontade começava a acabar. O empresário da banda morreu de overdose. Os problemas administrativos escalaram as muralhas onde os quatro meditavam e desentendimentos minaram um clima que deveria ser harmônico. John começou a tomar heroína. E Yoko passou a ser companhia constante nas gravações, mesmo doente, numa cama instalada dentro do estúdio. Um divórcio dos Beatles já era cogitado.

Paz no coração
Quando acabou, em 1970, John já tinha uma nova paixão. Primeiro foram os compactos em parceria com Yoko. Depois, as campanhas pacifistas. O casal transformou seu casamento numa coletiva de imprensa de uma semana, posando para fotos na cama de um hotel.

Foi então que a raiva do jovem John veio à tona. Somente aos 30 anos. Internou-se com Yoko na clínica do doutor Janov, o pai da "terapia do grito primal", em que os pacientes eram estimulados a gritar, chorar e bater em objetos, para liberar traumas reprimidos na infância. Daí nasceu Plastic Ono Band, um disco gravado em no máximo dois takes para cada música, com canções expressivas que deveriam funcionar como confissões brotadas diretamente do inconsciente. Uma obra vibrante, para dizer o mínimo. E, como não poderia deixar de ser, apaixonada. A bolacha começa com um grave tocar de sinos. Nos 40 minutos seguintes, ele pergunta à mãe e ao pai por que o haviam abandonado, diz que não acredita em Deus, decreta o fim do sonho, afirma que o amor deve começar em casa e que não deseja ser herói ou porta-voz de nada. Como Dylan, tira o pé do acelerador - o abismo estava logo à frente. Era este o recado: ninguém está a fim de entender você, só querem tirar seu melhor e depois abandoná-lo à beira da estrada. É o que está dito e gravado na música "Working Class Hero" (herói da classe operária), uma visão ácida sobre a mentalidade burguesa.

Mas um apaixonado não precisa ser coerente. Um ano após decretar o fim do sonho, John retorna com nada menos que o sonho dos sonhos: "Imagine se não houvesse paraíso. É fácil se você tentar...". Era "Imagine", uma canção que ele vinha amadurecendo havia três anos. Foi como se tivesse rebobinado o sonho. John transforma sua vida pública numa campanha permanente contra a guerra. Compra outdoors e páginas do The New York Times para divulgar uma frase: "A guerra acabou. (Se você quiser)". Torna-se figura fácil nos protestos e talk shows, sempre com algumas palavras de ordem na ponta da língua. A exposição o torna inimigo da direita americana, que o considerava antiamericano. Nova-iorquino por opção, quase foi deportado para a Inglaterra em 1975.

Fase caseira
Aos 35 anos, finalmente, a maturidade. John baixa a crista e se cansa de bater na mesma tecla. Discos e músicas vão rareando, até que a voz independente e sóbria da contracultura fica rouca - e seu dono se retira para assar pães e tomar conta do filho. Ser dona-de-casa aos 37 anos foi sua última e grande paixão. De alguma forma, uma vida levada às últimas conseqüências parece ter dado a ele clareza e tranqüilidade para enxergar a felicidade dentro de casa, ao lado da família, fazendo coisas simples. É o que revelam os filmes em super-8 dessa época. Neles, John aparece mais brincalhão do que nunca, pulando pelo Central Park com o filho amarrado às costas; em trajes de banho, perto de um lago; apagando as velas de um bolo de aniversário numa cozinha normal, com latas e objetos gastos pelo tempo. Sua cozinha.

Alguns anos depois, como era de se esperar, a inquietação do jovem voltou. "Esta dona-de-casa quer um emprego", disse ele aos amigos. Gravou um disco lindo, ao lado de Yoko, dizendo que seu maior hobby era sentar nas calçadas de Nova York e olhar as rodas dos carros passando rápido. "As pessoas não entendem como posso não estar frustrado de ter saído da roda-viva do sucesso. Saltei daquele carrossel." Parece que essa mensagem não chegou ao fã louco que só queria virar celebridade. Com cinco tiros, achou que matava um mito. Matou apenas um homem comum.

John era tão besta quanto o homem normal. Mas um homem normal apaixonado, sem medo de errar. Se é possível tirar uma lição da vida de alguém, a da vida dele é esta: siga suas paixões. Esforce-se por realizá-las. "Fica fácil se você tentar."

PARA SABER MAIS
Livros
The Beatles: Antologia, The Beatles, Cosac & Naify
Amor de Verdade: Desenhos para Meu Filho, John Lennon, Salamandra

DVD
Gimme Some Truth - The Making of John Lennon's "Imagine" (2000)
Imagine: John Lennon - The Definitive Film Portrait (1988)

Site
www.blackbird.com.br

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