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Há dois anos, fui arrebatado pelo encanto de Mariana, um encantamento que persiste em meus poros até hoje e foi coroado no fim do ano passado, quando nos casamos, em uma cerimônia linda. Era uma noite quente, enluarada, cheia de estrelas e de amigos e parentes queridos, que abençoaram nossa união. Seria uma imagem perfeita para fechar uma reportagem sobre casamento, um final feliz. Mas não serve para este texto. Porque o assunto aqui é justamente o que vem depois do final feliz. Afinal, quem é ou foi casado sabe que as delícias e os desafios de uma relação aparecem dia após dia. Ano após ano.
Avaliadas a frio, as estatísticas demográficas sugerem que o casamento está na lista de espécies ameaçadas de extinção. Segundo o IBGE, nunca houve tantas separações e divórcios no Brasil. Mas essa impressão é falsa. Há muita gente feliz no casamento. Gente que desfruta, no dia-a-dia, do que dizem inúmeras pesquisas científicas: os casados vivem mais e melhor. O que você vai ler a seguir é um guia básico, com o arroz-com-feijão do casamento feliz, mas um arroz-com-feijão bem temperadinho, elaborado com as dicas de quem estuda essa receita há anos e de outros que tiram o sustento diário dessa iguaria que é a união bem feita.
É claro que a receita definitiva é algo muito pessoal. Dê os mesmos ingredientes básicos a diferentes casais e você vai ver nascerem relações muito diferentes.
Essa idéia de escolher o cônjuge pela vontade, pela paixão ou pelo amor, que parece tão óbvia e imprescindível, foi inventada há cerca de 200 anos no Ocidente. E só ganhou espaço porque trouxe consigo o rompimento de um tabu, o de que o sexo no casamento tinha como única finalidade a procriação. O fim dessa exigência liberou o pessoal para desfrutar do prazer na cama, mas teve um efeito colateral: era preciso desejo, o que complicava e muito os casamentos por conveniências sociais. Não deixa de ser irônico constatar que foi a vitória do amor carnal, caliente e apaixonado que botou em crise o modelo de casamento. "Esse conceito levou logicamente a outro: se alguém entra no casamento por sexo e prazer, deve poder deixá-lo se faltar isso", diz a psicanalista e sexóloga Regina Navarro Lins, autora de Conversas na Varanda e outros livros sobre o assunto.
Coincidência ou não, cresce também a porcentagem dos que, após um casamento desfeito, optam por viver sós. "A solteirice sem compromissos é uma opção menos arriscada e mais compensadora para se obter prazer, em que não se sofre e se curte mais", escutei de alguns. E de repente a solteira que ficou para titia e o tio solteirão deixaram de ser motivo de chacota e suspeita da família, como até bem pouco tempo atrás, para serem invejados.
Um fator decisivo para a crise das relações, dizem especialistas, é a imagem distorcida que se tem hoje do casamento. A idéia de o que é se casar, e de o que o casamento adiciona a sua vida, não bate com a realidade. "A idéia que as pessoas fazem do casamento é do encontro do par perfeito, com quem a vida seriam só flores. Isso é reforçado pelas novelas, em que ou o casal é hipócrita e não se ama mais ou é muito feliz e casa no último capítulo. O casamento então é mostrado como o inferno ou o passaporte ao paraíso, nunca em sua forma real, nunca possível", diz o psicanalista reichiano Arnaldo Bassoli. Então, quais são os passos para a felicidade no casamento?
"Quando se casa mais maduro, às vezes até com a vida já desenhada, fica mais fácil você saber o que está fazendo. Você compreende com facilidade que aquela pessoa se encaixa com o que você gosta, porque você já aprendeu a ser feliz", diz o velejador Amyr Klink, casado há dez anos com Marina. "É sua a responsabilidade de fazer dos seus sonhos uma realidade", diz Moacir Mazzariol Soares, monge budista do Templo Zu Lai, em São Paulo
Mas os pais não são os únicos modelos. Estereótipos e sensos comuns que chegam até você pelos mais diversos canais, dos ditados populares até as propagandas na TV, vendem uma idéia do casamento que nem sempre é sábia e adequada à vida a dois. "Casar dá trabalho", "farra só fora de casa" ou "santo de casa não faz milagre" são exemplos de idéias preconcebidas - e não muito lisonjeiras - sobre o que é casar. A principal delas, e a mais impactante, é que só dá para ser feliz fora de casa, um conceito que serve de premissa para 90% das piadas sobre casamento.
Para aprender a viver da sua forma, o primeiro passo é entender por que agimos como agimos. O segundo é agir por vontade própria, e não pela dos outros.
Talvez você esteja pensando: "Claro que ele (ou ela) pode melhorar!" Sim, sem dúvida a evolução é possível para todos. Entretanto, cada um é que sabe o que reformar em si, não só para agradar alguém, mas a si mesmo. Até porque existem partes da pessoa que são sua marca, sua personalidade. Um torcedor fanático não vai mudar de time para agradar a mulher. E, se mudar, talvez perca parte de seu encanto.
Mas a energia criativa não está confinada na relação a dois. Há experiências ricas fora dela, no trabalho, com os amigos ou em uma viagem. E isso vale para o outro, também. Você está pronto a incentivá-lo a quebrar suas barreiras e avançar? "Senti que meu marido estava comigo quando ele me apoiou abertamente a fazer uma viagem de trabalho, para a Nova Zelândia, quase só com homens. Por um mês", conta a esportista Lisa Grinfeder. "Ele só quis saber se eu estava feliz. E ponto." Com isso, o casamento vira um caminhar junto. "Ninguém possui ninguém, somos apenas bons companheiros de jornada", comenta o psicanalista Bassioli. Isso vale para tudo. "Não é estar perto que conta. Você pode estar o tempo todo junto e estar longe do coração", diz Marina.
É natural que quem receba o carinho relaxe muito e nem possa se mexer. A idéia, aliás, deveria ser essa. Só que o senso comum sobre "amar" é este: eu dou para você se você der para mim (não é um trocadilho). É um amor condicionado. O resultado é que ninguém entrega o amor. Ou o entrega cobrando, como um boleto de banco: massagem + cafuné = um beijo agarradinho. E assim tudo fica burocrático, exigente, impositivo, sem excitação, sem liberdade. "Entregue seu amor. Perca a preguiça e parta para a ação, o tempo todo", diz o psicanalista Bassioli. Ele experimentou isso em seu próprio casamento. Passou a não pensar em receber amor em troca. Assumiu o que chama de "atitude amorosa o tempo todo". "Eu procuro dar toda a atenção que posso o tempo todo que tenho disponível. Não é quantitativo o critério, pois muitas vezes tenho pouco tempo. Para que isso seja efetivo, depende da qualidade dessa atenção."
Falar das pequenas mágoas é vital. E tem que ser do jeito certo: com atenção, com bons ouvidos, com tempo para cada um. Além de evitar o acúmulo de ressentimentos, serve de aprendizado. Uma hora ou outra podem acontecer problemas de verdade, e então vai ser útil saber falar um com o outro, sem inibições. Para quem já conseguiu entrar em acordo sobre como apertar a pasta de dente, decidir a compra do apartamento vai ser bico.
E não faltam assuntos para treinar a comunicação a dois. Se você precisar de um estímulo, eis alguns tópicos infalíveis para discussão: desejo (ou a falta dele), solidão (ou necessidade de mais espaço), sonhos e frustrações. "Nossa relação nasceu em meio a incríveis conversas, muito amigas, íntimas, surpreendentes", conta Maria Fernanda Cardoso Santos, psicóloga de São Paulo, que mora em Natal. Casada com Maurício há cinco anos, Fernanda ainda admira as conversas que eles mantêm, e as considera o grande segredo deles.
Agora, todo mundo sabe, mas vale comentar: tem papos que vocês vão preferir ter fora da relação. Muito natural, por sinal. Preenchemos uma parte das necessidades afetivas dos nossos pares. Outras partes são nutridas pela família, parceiros de trabalho, colegas da faculdade ou do futebol.
Ah, sim. Um último toque sobre as conversas: paciência. Achar que uma conversa vai melhorar tudo de uma vez pode ser frustante. Muitas vezes, são várias conversas que trazem uma boa compreensão sobre algo e, finalmente, uma mudança de atitude. "Mostrar seu sentimento e acolher o do outro, sem depois um dia usar isso contra ele, ou cobrá-lo, é fundamental", diz Monja Coen, do Mosteiro ZaZen, de São Paulo. Transformações levam tempo.
Como ficamos então, diante da realidade de que o outro é tão livre para sentir e viver quanto você? Sim, você sente desejo por outras pessoas, mas seu(sua) parceiro(a) também. O que fazer? Confiar. Não é o que você sente, mas o que faz com isso que vai contar. Da confiança e do respeito mútuos pode nascer uma fidelidade espontânea.
FILMES
• Antes do Pôr-do-sol, de Richard Linklater, Warner, 2004
• Um Casamento à Indiana, de Mira Nair, Europa Filmes, 2001
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