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Casal 20

Pare de procurar o par perfeito, ele não existe. Saiba como se virar com um parceiro normal, de carne e osso, e ser feliz para sempre

por Alessandro Meiguins | foto Reprodução

Há dois anos, fui arrebatado pelo encanto de Mariana, um encantamento que persiste em meus poros até hoje e foi coroado no fim do ano passado, quando nos casamos, em uma cerimônia linda. Era uma noite quente, enluarada, cheia de estrelas e de amigos e parentes queridos, que abençoaram nossa união. Seria uma imagem perfeita para fechar uma reportagem sobre casamento, um final feliz. Mas não serve para este texto. Porque o assunto aqui é justamente o que vem depois do final feliz. Afinal, quem é ou foi casado sabe que as delícias e os desafios de uma relação aparecem dia após dia. Ano após ano.

Avaliadas a frio, as estatísticas demográficas sugerem que o casamento está na lista de espécies ameaçadas de extinção. Segundo o IBGE, nunca houve tantas separações e divórcios no Brasil. Mas essa impressão é falsa. Há muita gente feliz no casamento. Gente que desfruta, no dia-a-dia, do que dizem inúmeras pesquisas científicas: os casados vivem mais e melhor. O que você vai ler a seguir é um guia básico, com o arroz-com-feijão do casamento feliz, mas um arroz-com-feijão bem temperadinho, elaborado com as dicas de quem estuda essa receita há anos e de outros que tiram o sustento diário dessa iguaria que é a união bem feita.

É claro que a receita definitiva é algo muito pessoal. Dê os mesmos ingredientes básicos a diferentes casais e você vai ver nascerem relações muito diferentes.

Para sentir prazer
Primeiro, vale a pena entender o sentido dessa tradição. Até bem pouco tempo atrás, o casamento era símbolo da união de interesses e acordos familiares: negócios entre nações, tratados de paz, alianças para guerras, interesse pelos dotes familiares ou por status. Tudo era motivo para unir duas pessoas, menos a felicidade delas. Aos homens, a missão era a de prover e guardar o lar. Às mulheres, cuidar da casa e gerar herdeiros. E só.

Essa idéia de escolher o cônjuge pela vontade, pela paixão ou pelo amor, que parece tão óbvia e imprescindível, foi inventada há cerca de 200 anos no Ocidente. E só ganhou espaço porque trouxe consigo o rompimento de um tabu, o de que o sexo no casamento tinha como única finalidade a procriação. O fim dessa exigência liberou o pessoal para desfrutar do prazer na cama, mas teve um efeito colateral: era preciso desejo, o que complicava e muito os casamentos por conveniências sociais. Não deixa de ser irônico constatar que foi a vitória do amor carnal, caliente e apaixonado que botou em crise o modelo de casamento. "Esse conceito levou logicamente a outro: se alguém entra no casamento por sexo e prazer, deve poder deixá-lo se faltar isso", diz a psicanalista e sexóloga Regina Navarro Lins, autora de Conversas na Varanda e outros livros sobre o assunto.

Mundo de ilusões
Não é novidade que os casamentos têm durado pouco. Desde que a separação e o divórcio passaram a ser aceitos, a duração média dos casamentos agora é de 10,5 anos, menos que na época das uniões arranjadas, quem diria, e muito menos que o desejado "para sempre". Culpa do espírito consumista destes tempos, afirma o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, no livro Amor Líquido. Estamos tão acostumados às relações de mercado, diz ele, que queremos aplicá-las a tudo. Esquecemos que, em um casal, a recompensa não é imediata como no armazém. Quem paga com carinho e atenção nem sempre recebe na hora a retribuição que desejava - às vezes a encomenda não chega nunca. Sem paciência para esperar ou um Procon para reclamar, muita gente resolve mudar de fornecedor, e vai buscar o que quer no armazém do vizinho. Sim, porque, no mercado do desejo, o que não faltam são propagandas de bons produtos, bons negócios e até promoções. Casar, nesse sentido, parece até um mau negócio, pois estaríamos perdendo todo o resto.

Coincidência ou não, cresce também a porcentagem dos que, após um casamento desfeito, optam por viver sós. "A solteirice sem compromissos é uma opção menos arriscada e mais compensadora para se obter prazer, em que não se sofre e se curte mais", escutei de alguns. E de repente a solteira que ficou para titia e o tio solteirão deixaram de ser motivo de chacota e suspeita da família, como até bem pouco tempo atrás, para serem invejados.

Um fator decisivo para a crise das relações, dizem especialistas, é a imagem distorcida que se tem hoje do casamento. A idéia de o que é se casar, e de o que o casamento adiciona a sua vida, não bate com a realidade. "A idéia que as pessoas fazem do casamento é do encontro do par perfeito, com quem a vida seriam só flores. Isso é reforçado pelas novelas, em que ou o casal é hipócrita e não se ama mais ou é muito feliz e casa no último capítulo. O casamento então é mostrado como o inferno ou o passaporte ao paraíso, nunca em sua forma real, nunca possível", diz o psicanalista reichiano Arnaldo Bassoli. Então, quais são os passos para a felicidade no casamento?

Saiba quem você é
O casamento real começa antes do primeiro encontro. Começa você com você, cara a cara. Você precisa saber quem você é e o que o faz feliz. Isso inclui saber do que você gosta, o que é imprescindível. Mais: saber se fazer feliz sozinho. "Esse conhecimento sobre si mesmo é fundamental para que não ocorram dependências nas relações", diz a educadora Adriana Friedmann. A dependência pode ocorrer em qualquer campo da vida do casal. É o marido que não sabe lidar com dinheiro e entrega a tarefa à mulher, a mulher que nunca escolhe nada e deixa todas as decisões para o marido, até o sabor da pizza - "O que você quiser está ótimo, querido". E dependência não é bom para a vida do casal.

"Quando se casa mais maduro, às vezes até com a vida já desenhada, fica mais fácil você saber o que está fazendo. Você compreende com facilidade que aquela pessoa se encaixa com o que você gosta, porque você já aprendeu a ser feliz", diz o velejador Amyr Klink, casado há dez anos com Marina. "É sua a responsabilidade de fazer dos seus sonhos uma realidade", diz Moacir Mazzariol Soares, monge budista do Templo Zu Lai, em São Paulo

Case do seu jeito
Pode parecer esquisito, mas tem muita gente que imita o casamento dos pais. Pode ser em pequenos detalhes, como o pingüim em cima da geladeira, ou no jeito de conversar com os filhos. Para Marisa Thame, no livro Como Passar Sua Vida a Limpo, na infância aprendemos todos os traços dos pais. E depois os repetimos inconscientemente quando começamos a nos relacionar. É normal. Uma parte dessas lições será útil e adequada a nossa vida. Outras não. Para piorar, esperamos que o parceiro participe da imitação, num teatrinho cujo roteiro só existe em nossa cabeça. O pior é que na do parceiro há outro script, que ele também espera que você acompanhe. A mulher que esperar, hoje em dia, que o marido seja o provedor, que decida tudo, como foi seu pai, vai ter problemas para ser feliz no casamento.

Mas os pais não são os únicos modelos. Estereótipos e sensos comuns que chegam até você pelos mais diversos canais, dos ditados populares até as propagandas na TV, vendem uma idéia do casamento que nem sempre é sábia e adequada à vida a dois. "Casar dá trabalho", "farra só fora de casa" ou "santo de casa não faz milagre" são exemplos de idéias preconcebidas - e não muito lisonjeiras - sobre o que é casar. A principal delas, e a mais impactante, é que só dá para ser feliz fora de casa, um conceito que serve de premissa para 90% das piadas sobre casamento.

Para aprender a viver da sua forma, o primeiro passo é entender por que agimos como agimos. O segundo é agir por vontade própria, e não pela dos outros.

Não tente mudar o outro
Mudar hábitos dá um trabalhão. Incluir exercícios na rotina diária, por exemplo, ou parar de fumar. Imagine mudar o outro. Pois é o que muita gente espera do casamento: que ele mude o outro. "As pessoas acreditam que o outro pode ficar melhor assim, assado. Idealizam. Ideal mesmo é ser feliz com o que a pessoa é, não com o que ela pode vir a ser", diz Bassoli. Os projetos de reforma do parceiro seriam mais eficazes se aplicados a nós mesmos. A roupa fica jogada pela casa? Junte. Cansa juntar a bagunça do outro? Converse. Não teve efeito o pedido? Seja menos crítico e deixe as roupas jogadas pela casa. Só não vale brigar todo dia por causa da louça na pia, dos atrasos para a janta ou se ela falou demais do trabalho. "Ame o outro como ele é. Aprenda com ele, colha o fruto da verdade de ver o outro, e a si, como são", diz o monge Moacir.

Talvez você esteja pensando: "Claro que ele (ou ela) pode melhorar!" Sim, sem dúvida a evolução é possível para todos. Entretanto, cada um é que sabe o que reformar em si, não só para agradar alguém, mas a si mesmo. Até porque existem partes da pessoa que são sua marca, sua personalidade. Um torcedor fanático não vai mudar de time para agradar a mulher. E, se mudar, talvez perca parte de seu encanto.

Seja cúmplice
Ter vida própria, ser apaixonado pelo que faz, cuidar dos próprios afazeres e sonhos, ultrapassar suas fronteiras, crescer. Quando nossa energia criativa está solta, ativa, estamos plenos, os olhos brilham. E esse brilho alimenta a admiração e a paixão de quem está ao nosso lado. "A pessoa que sabe lutar pelo que acredita tem uma disposição para ser feliz que nos instiga a querer estar sempre perto", diz Marina Klink, produtora de eventos e casada com Amyr.

Mas a energia criativa não está confinada na relação a dois. Há experiências ricas fora dela, no trabalho, com os amigos ou em uma viagem. E isso vale para o outro, também. Você está pronto a incentivá-lo a quebrar suas barreiras e avançar? "Senti que meu marido estava comigo quando ele me apoiou abertamente a fazer uma viagem de trabalho, para a Nova Zelândia, quase só com homens. Por um mês", conta a esportista Lisa Grinfeder. "Ele só quis saber se eu estava feliz. E ponto." Com isso, o casamento vira um caminhar junto. "Ninguém possui ninguém, somos apenas bons companheiros de jornada", comenta o psicanalista Bassioli. Isso vale para tudo. "Não é estar perto que conta. Você pode estar o tempo todo junto e estar longe do coração", diz Marina.

Doe-se
O casal está sentado frente a frente. Com as mãos seguras atrás das costas, ambos pedem amor, carinho, prazer. Mas, como continuam esperando o outro, ninguém recebe o amor. Para o pensador Jiddu Krishnamurti (1895-1986), criador dessa imagem no livro Sobre a Liberdade, a postura paralisada e pedinte seria um vício individualista das pessoas: o costume de receber amor, antes de oferecê-lo. Me faz um cafuné? Ah, que delícia. Só que na hora de retribuir bateu uma preguiça...

É natural que quem receba o carinho relaxe muito e nem possa se mexer. A idéia, aliás, deveria ser essa. Só que o senso comum sobre "amar" é este: eu dou para você se você der para mim (não é um trocadilho). É um amor condicionado. O resultado é que ninguém entrega o amor. Ou o entrega cobrando, como um boleto de banco: massagem + cafuné = um beijo agarradinho. E assim tudo fica burocrático, exigente, impositivo, sem excitação, sem liberdade. "Entregue seu amor. Perca a preguiça e parta para a ação, o tempo todo", diz o psicanalista Bassioli. Ele experimentou isso em seu próprio casamento. Passou a não pensar em receber amor em troca. Assumiu o que chama de "atitude amorosa o tempo todo". "Eu procuro dar toda a atenção que posso o tempo todo que tenho disponível. Não é quantitativo o critério, pois muitas vezes tenho pouco tempo. Para que isso seja efetivo, depende da qualidade dessa atenção."

Saiba conversar
Pintou uma sensação ruim? Ouviu algo que não caiu bem? E aí disse uma frase dura para rebater? Ficou aquele silêncio cinza? Melhor resolver logo. Pequenas mágoas vão se represando e quando você menos espera está gritando por causa de um copo sujo na pia. O copo pode ter lembrado um outro acontecimento, e aquele outro também, e aí você resolve falar de tudo. Eu costumava fazer isso. Quer dizer, ainda faço. Fico achando que as coisas devem ser perceptíveis, que, se eu senti, minha mulher deve perceber também. Como se ela andasse por aí com uma bola de cristal.

Falar das pequenas mágoas é vital. E tem que ser do jeito certo: com atenção, com bons ouvidos, com tempo para cada um. Além de evitar o acúmulo de ressentimentos, serve de aprendizado. Uma hora ou outra podem acontecer problemas de verdade, e então vai ser útil saber falar um com o outro, sem inibições. Para quem já conseguiu entrar em acordo sobre como apertar a pasta de dente, decidir a compra do apartamento vai ser bico.

E não faltam assuntos para treinar a comunicação a dois. Se você precisar de um estímulo, eis alguns tópicos infalíveis para discussão: desejo (ou a falta dele), solidão (ou necessidade de mais espaço), sonhos e frustrações. "Nossa relação nasceu em meio a incríveis conversas, muito amigas, íntimas, surpreendentes", conta Maria Fernanda Cardoso Santos, psicóloga de São Paulo, que mora em Natal. Casada com Maurício há cinco anos, Fernanda ainda admira as conversas que eles mantêm, e as considera o grande segredo deles.

Agora, todo mundo sabe, mas vale comentar: tem papos que vocês vão preferir ter fora da relação. Muito natural, por sinal. Preenchemos uma parte das necessidades afetivas dos nossos pares. Outras partes são nutridas pela família, parceiros de trabalho, colegas da faculdade ou do futebol.

Ah, sim. Um último toque sobre as conversas: paciência. Achar que uma conversa vai melhorar tudo de uma vez pode ser frustante. Muitas vezes, são várias conversas que trazem uma boa compreensão sobre algo e, finalmente, uma mudança de atitude. "Mostrar seu sentimento e acolher o do outro, sem depois um dia usar isso contra ele, ou cobrá-lo, é fundamental", diz Monja Coen, do Mosteiro ZaZen, de São Paulo. Transformações levam tempo.

Confie sempre. Respeite
As pessoas se apossam daquilo que amam, para garantir a repetição daquele afeto tão bom, e isso gera problemas: ciúmes, controles, cobranças. "Há um acordo silencioso, porém muito presente, que exige a fidelidade entre o casal", diz Regina Navarro Lins. "Mas a libido, o sexo, é algo individual. Portanto, a sexualidade só pertence à pessoa, ao que ela se dispuser a viver".

Como ficamos então, diante da realidade de que o outro é tão livre para sentir e viver quanto você? Sim, você sente desejo por outras pessoas, mas seu(sua) parceiro(a) também. O que fazer? Confiar. Não é o que você sente, mas o que faz com isso que vai contar. Da confiança e do respeito mútuos pode nascer uma fidelidade espontânea.

Ao juntar tudo...
É emocionante ouvir casais falando de casamento. Principalmente quando, mesmo cheios de diferenças, eles acharam sua fórmula para ser feliz. Para todos, a pitada de felicidade no casamento é o foco no positivo. No fim, o que decide a felicidade do casal não é a escolha do parceiro ou da parceira ideal, mas como você se coloca diante dessa pessoa, como lê seus gestos, como age. Não há príncipe encantado, não há a mulher da sua vida. O segredo para ficar bem não está no outro, mas em você. Casar por amor pede a você atenção, consciência. Exige uma coisa só: que você esteja aberto a desenvolver o amor dentro de si. Vai lá. Experimenta. De mãos dadas. Com os olhos nos olhos.

PARA SABER MAIS
LIVROS
• Amor Líquido, Zygmunt Bauman, Jorge Zahar, 2003
• Sobre a Liberdade, J. Krishnamurti, Cultrix, 1998.
• Conversas na Varanda, Regina Navarro Lins, Rocco, 1999
• Vínculos Amorosos Contemporâneos, Purificación Barcia Gomes, Callis, 2003
• Casamento, Amor e Desejo no Ocidente Cristão, Ronaldo Vainfas, Ática, 1992
• História do Amor no Ocidente, Denis de Rougemont, Ediouro, 2003
• Como passar sua vida a limpo, Marisa Thame e Kani Comstock, Pensamento, 1994

FILMES

• Antes do Pôr-do-sol, de Richard Linklater, Warner, 2004
• Um Casamento à Indiana, de Mira Nair, Europa Filmes, 2001

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