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A mente de Jung

O psiquiatra suíço que mergulhou em visões e sonhos e mudou a forma como entendemos a consciência

por Liane Alves | ilustração Gian Paolo la Barbera

Você certamente sabe se é uma pessoa introvertida ou extrovertida. Ou se alguém da sua família - talvez você mesmo - tem algum complexo: de inferioridade, de superioridade ou de feiúra.Também já deve ter ouvido falar do inconsciente coletivo. Ou, quem sabe, dos arquétipos e da importância dos símbolos nos sonhos. Pois saiba que, se hoje você usa todos esses conceitos com naturalidade, há 100 anos eles causaram uma revolução na incipiente história da psicologia. E o causador desse furacão chamava-se Carl Gustav Jung.

Um dos fundadores da psicanálise e nascido na Suíça há 130 anos, Jung abriu uma janela entre a psicologia e a espiritualidade, além de criar conceitos e testes psicológicos usados até hoje nas sessões de terapia.

E, para entrar no clima junguiano, falemos de seu assunto preferido: sonhos. Não de qualquer sonho, mas sim daquele que influiu em sua teoria sobre o inconsciente comum da humanidade, ou inconsciente coletivo, uma das pedras angulares do seu pensamento. Era o ano de 1909 e o jovem psiquiatra Carl Jung estava em viagem pelos Estados Unidos com Sigmund Freud, seu colega e mestre, 20 anos mais velho e médico neurologista.

Jung sonhou com uma casa, que ele sabia ser sua casa,embora fosse diferente da sua moradia real. Segundo sua interpretação posterior, a casa era um símbolo dele mesmo, com seus diferentes níveis de consciência. No andar mais alto havia uma sala bem mobiliada com móveis de estilo rococó. Para Jung, isso era uma representação de seu nível consciente. Descendo as escadas, viu outro andar, na penumbra, com móveis mais antigos em uma instalação medieval, o que ele interpretou como sendo o começo de seu inconsciente. Descendo outro lance de escadas, encontrou um porão, com paredes características da época romana, que ele considerou um nível ainda mais profundo do inconsciente.No piso empoeirado, viu um alçapão que o conduziu a uma gruta, onde encontrou ossadas, vasos de cerâmica e vestígios de uma civilização primitiva. Ali, Jung finalmente descobriu dois crânios, meio desintegrados, que fariam parte do último extrato de consciência, representando camadas muito antigas. Depois disso, acordou.

No período de sete anos que durou sua amizade, Jung e Freud analisavam mutuamente seus sonhos. Quando contou o sonho da casa a Freud, este o interpretou segundo suas teorias, focalizando nos crânios, que, para o velho mestre, poderiam significar desejos secretos de morte. Jung discordou. Ele estava mais interessado no conjunto integral das imagens do sonho. E, a partir dele, concluiu que o inconsciente seria mais que um depositário de desejos reprimidos expressos em sonhos, como acreditava Freud.Embora não negasse a existência do inconsciente individual, Jung acreditava em um inconsciente maior, mais profundo, não pessoal, comum a todos os homens e culturas (era o que sugeriam os vários andares, com representações de várias fases históricas da cultura ocidental). A isso ele chamou de inconsciente coletivo.

Segundo Jung, esse inconsciente se exprime por meio de símbolos,que vêm à tona em sonhos, mitos e expressões artísticas. Todos os seres humanos, de qualquer povo, diz ele, compartilham os mesmos símbolos, mas em cada cultura eles têm roupagens próprias. A essas fôrmas comuns ele deu o nome de arquétipos.

A divergência entre os dois azedou a relação. Em 1913, Jung rompeu com seu mestre, e nunca mais os dois se entenderam. "Freud era um típico cientista de gabinete do século 19, enquanto Jung é um cientista do século 21, que viajou pelo mundo, integrou conhecimentos de várias áreas e experimentou nele mesmo suas teorias", diz o psicólogo paulista José Roberto Prazeres, que coordenou grupos de estudos junguianos.

Não causa surpresa o fato de que dois homens brilhantes discordassem tanto. O estudo da consciência humana é controverso por natureza. Há poucas evidências e sobram deduções. Afinal, como explicar o que se passa na cabeça dos outros com objetividade, se os elementos para trabalhar são os relatos subjetivos de cada um sobre os próprios pensamentos e emoções? Não é por acaso que a psicologia sempre foi criticada pelos cientistas, em especial os neurocientistas, que, embora saibam pouco sobre a mente, olham com desconfiança as teorias propostas pelos psicólogos. A recíproca é verdadeira. Terapeutas e analistas questionam igualmente os parâmetros (limitadores, segundo eles) impostos pela ciência.

Cobaia de si mesmo
Jung conhecia todas essas dificuldades. Assim,para ter acesso total ao resultado da aplicação de suas teorias, decidiu experimentá-las em si mesmo. Foi o que fez. Durante cinco anos, enquanto levava sua vida normal como pai de família e diretor do Hospital Psiquiátrico de Bugholzli, em Zurique, anotou seus sonhos e insights. E em 1913 resolveu mergulhar no próprio inconsciente, uma viagem que ele realizou como se entrasse em um sonho, quase hipnoticamente. É bom dizer que o médico sempre teve esse tipo de visões.Mas dessa vez, em vez de afugentá-las, partiu em sua direção.

"Foi no ano de 1913 que decidi tentar o passo decisivo - no dia 12 de dezembro. Sentado em meu escritório, considerei mais uma vez os temores que sentia, depois me abandonei à queda. O solo pareceu ceder sob meus pés e fui como que precipitado numa profundidade obscura. Não pude evitar um sentimento de pânico.Mas, de repente, sem que ainda tivesse atingido uma grande profundidade, encontrei-me, com grande alívio - de pé, numa massa mole e viscosa. A escuridão era quase total", descreveu.

Lá, Jung teve inúmeras visões, que posteriormente ele interpretou como arquétipos.Mas, para nós, o important é que, no fundo desse local escuro, ele viu o brilho intenso de um sol vermelho nascendo. Para ele, significava que no inconsciente mais profundo havia algo muito bom, uma salvação. E Jung dedicaria sua vida para procurá-la.

Afinal, a teoria
Jung concordava, como dizia Freud, que, quando um paciente entendia racionalmente o motivo pelo qual um símbolo aparecia em seus sonhos, esse símbolo perdia seu poder perturbador. Se um paciente, por exemplo, tivesse um sonho recorrente com uma bruxa que o perseguia, tanto Freud quanto Jung começariam perguntando se a emoção provocada pela bruxa lembrava algum episódio da vida real (por exemplo,um repreensão severa sofrida na escola). Depois, paciente e psicólogo investigariam esse incidente, tentando entender por que o episódio perturbava (digamos que, na lembrança do paciente, a professora fosse muito cruel ou brava). Pronto. Os dois médicos acreditavam que, revelado à luz da razão, o símbolo perdia seu poder. Se aquele episódio fosse de fato a causa da imagem da bruxa, ela em breve desapareceria dos sonhos.

A diferença é que, para Freud, a força por trás dos sonhos eram sempre desejos reprimidos, principalmente sexuais. Para Jung, não. Ele acreditava que os símbolos podiam expressar um desejo interno de compreensão - isto é, apareciam em sonho justamente para serem entendidos.

E como essa compreensão acontecia? Jung dizia que, se não fossem manifestados conscientemente, poderiam lançar "sombras" em outras pessoas ou situações. Ainda no exemplo da bruxa, essa imagem poderia dificultar, inconscientemente, o relacionamento do paciente com mulheres mais velhas (mãe, chefes), que poderiam ser consideradas ameaçadoras. Ou seja, essas projeções turvavam a visão da realidade. Com o tempo, o indivíduo poderia desenvolver uma neurose, isto é, um desvio do entendimento do que é real. A neurose, acreditava Jung, tinha uma vantagem: ela pressionava para que o problema fosse resolvido.

Segundo o suíço, o inconsciente enviava símbolos à tona para que a mente consciente fosse, aos poucos, compreendendo e integrando todo seu conteúdo submerso. Era uma atividade natural da psique, pensava Jung. Era assim que a personalidade total do indivíduo se desenvolvia e amadurecia: integrando os símbolos do inconsciente. Com esse aumento de compreensão, automaticamente a consciência se ampliava. Esse processo, que ele chamou de individuação, era acelerado pela análise dos sonhos e dos símbolos neles contidos.

Difícil? Pois tem mais. Jung dizia que esse aí que você chama de você, esse você consciente, não é você. Esse você, que ele chamou de ego, era apenas parte da su consciência.Quem comanda mesmo sua mente, tanto a consciente quanto a inconsciente, é o si-mesmo, uma unidade psíquica maior e mais importante que o ego. O si-mesmo (ou self, termo também usado pelos junguianos) é o ponto central da psique total do indivíduo. É ele, segundo Jung, que envia os símbolos à sua consciência para serem interpretados e revelados. Tudo para ampliar sua consciência sobre si mesmo e fazer você amadurecer psicologicamente.

Imagine um galpão às escuras, à exceção de um círculo iluminado por uma única lâmpada. Segundo Jung, o self é o dono do galpão, o único que sabe tudo o que existe lá dentro. A área escura é o inconsciente. E lá no meio, em um pequeno círculo iluminado, está você, o ego, lendo VIDA SIMPLES. Aos poucos, o self traz as coisas mais perto da luz para que o ego as vislumbre. São os sonhos. Conforme vamos tomando consciência dessas coisas, as luzes sobre elas vão se acendendo, e a consciência vai se ampliando, até que todo o galpão se ilumina. De volta às palavras de Jung, esse é o momento em que o si-mesmo se realiza plenamente, a pessoa tem um sentimento de totalidade,de integração com o Universo e com os outros. Assim se concretiza a tarefa da sua existência humana: atingir a totalidade.

Uma estranha mania
Jung só saiu dessa fase introspectiva no fim da Primeira Guerra Mundial. E de repente surpreendeu-se em um estranho hábito de desenhar mandalas, aquelas figuras abstratas compostas de círculos e quadrados concêntricos. Aos poucos, intuiu que essas figuras eram símbolos da totalidade, da integração e da realização, como as imagens do sol vermelho que ele prenunciou cinco anos antes.

Ao fazer esse mergulho no inconsciente e segundo sua própria teoria, Jung entrou em contato o si-mesmo, o ponto central da psique."Só quando comecei a pintar as mandalas vi o caminho que seria necessário percorrer e cada passo que devia dar.Tudo convergia para um dado ponto, o do centro.Compreendi sempre mais claramente que a mandala exprime o centro, que é a expressão de todos os caminhos: é o caminho que conduz ao centro, à individuação".

A confirmação
Tudo muito bom, muito coerente e integrado, mas havia um problema. Sua teoria foi criada e testada no próprio Jung e em alguns pacientes. Era pouco para uma tese tão revolucionária. Faltava encontrar uma teoria, sabedoria ou tradição que dissesse coisa parecida, confirmando a teoria.Mais uma vez, as imagens o ajudaram. Em 1927, desenhou um palácio dourado dentro de uma mandala e ficou curioso: "Por que essa mandala parece tão chinesa?". Naquele momento, um amigo lhe enviava um estudo sobre alquimia chinesa que - veja só - relatava como uma pessoa poderia atingir a plenitude da consciência pela meditação. No sistema chinês, o símbolo equivalente ao si-mesmo era - puxa vida -um palácio dourado.

Jung só conhecia a alquimia como uma técnica mal-afamada que pretendia transformar chumbo em ouro.Mas o estudo dizia que o processo era interno e que o ouro era apenas uma metáfora para a realização interna."A psicologia analítica (como ele chamava sua proposta terapêutica) concordava singularmente com a alquimia. As experiências dos alquimistas eram minhas experiências,e o mundo deles era, em certo sentido, o meu."

A coincidência significativa do palácio dourado, assim como dezenas de outras que permeavam a vida de Jung, serviram para fundamentar sua teoria da sincronicidade. Coincidências escondem um significado, dizia. Para ele, os conteúdos da psique tinham uma força assombrosa, que poderiam se manifestar exteriormente em formas de coincidências significativas, as sincronicidades. Isto é, para ele, o interno e o externo são bem mais unidos e interdependentes do que a gente pensa.

O psiquiatra suíço também acreditava que o inconsciente "sabia" antes do consciente, pois era dotado de uma sabedoria própria, não lógica, expressa pelos símbolos. Ouvindo o sonho dos seus pacientes, Jung sentia que podia prever alguns acontecimentos, pois acreditava que sabia interpretar a linguagem vinda do inconsciente. "Os sonhos realmente podem revelar situações muito antes de elas acontecerem", escreveu ele."Muitas crises de nossa vida têm uma longa história inconsciente, que pode transmitir a informação através dos sonhos".

O homem é sua obra
Jung morreu aos 85 anos, em 1961, lúcido e coerente. Passou os últimos tempos de sua vida numa casa à beira do lago de Zurique. Teve dezenas de livros publicados, cinco filhos e alguns casos extraconjugais significativos - alguns com suas pacientes. Seus críticos o consideravam muito subjetivo. Condenavam seu casamento com uma rica herdeira e seu interesse pelas pacientes."Já sofri demasiadamente a incompreensão e o isolamento a que se é relegado quando se tenta dizer aquilo que os homens não compreendem", lamentou-se, embora tenha obtido reconhecimento público e várias láureas acadêmicas no final da vida.

Talvez ninguém tanto quanto Carl Gustav Jung tenha vivido suas próprias idéias. "Minha vida e minha obra são idênticas. O que sou e o que escrevo são uma só coisa." Sua autobiografia, Memórias, Sonhos, Reflexões, escrita em parceria com sua discípula Aniela Jaffé, não podia começar de forma mais significativa:" Minha vida é uma história de um inconsciente que se realizou".

Glossário junguiano
EGO - É a identidade pessoal, aquilo que chamamos de "eu". É o centro ordenador do nível consciente, mas representa uma pequena parte da psique, a ponta de um iceberg

PSIQUE - Conjunto dos nívei consciente e inconsciente do ser humano. Sinônimo de mente

SI-MESMO - Centro ordenador da inconsciência e ponto central da psique toda

INDIVIDUAÇÃO - O processo de integração dos níveis consciente e inconsciente. Quando se completa, a psique torna-se una

MANDALA - Símbolo do si-mesmo e da totalidade. Está presente em várias culturas do mundo - os vitrais em forma de rosácea das catedrais góticas são exemplos de mandala

INCONSCIENTE INDIVIDUAL - O nível mais superficial do inconsciente. É pessoal e guarda desejos reprimidos

INCONSCIENTE COLETIVO - O nível mais profundo do inconsciente, onde estão os arquétipos. É comum a toda a humanidade

ARQUÉTIPOS - Conceitos primordiais, comuns a toda a humanidade, mas que recebem roupagens diferentes em cada cultura. O arquétipo da grande mãe, por exemplo, pode ser visto na imagem de Nossa Senhora e em diversas deusas da África, Ásia ou Oceania. Manifestam-se em sonhos e mitos e nas artes

PARA SABER MAIS

FILME
• Jornada da Alma, direção de Roberto Faenza

SITE
www.rubedo.psc.br

LIVROS
• Jung - Vida e Obra, Nise da Silveira, Ática Obras Completas de C.G. Jung (18 v.)
• Vozes Memórias, Sonhos, Reflexões, Carl G. Jung, Nova Fronteira

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