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Mauricio de Sousa

O criador da Mônica e do Cebolinha diz que não há inspiração maior que o cotidiano

por Priscilla Santos | imagem Divulgação

Quando menino, na cidade de Mogi das Cruzes, próxima a São Paulo, Mauricio de Sousa vivia como as outras crianças: morava numa casa sem muros, andava descalço, jogava futebol no campinho, saía com o cachorro, brincava de pular corda, de fantasiar e viver aventuras. O tempo passou, e o menino deu um jeito de manter intacto o mundo à sua volta, recriando o cenário da infância nas páginas dos quadrinhos. Suas histórias parecem simples, cotidianas, corriqueiras. E são mesmo. Tão simples que podem ser entendidas por qualquer um que já foi criança um dia. Catalão, javanês, grego, coreano, alemão, francês e italiano são algumas das línguas em que as histórias da Turma da Mônica já foram publicadas.

A primeira revista inspirada na filha primogênita de Mauricio saiu em português mesmo, em 1970. Quem era criança, na época, já cresceu.Mas,“por nostalgia ou por gostar da linguagem simples e direta dos gibis”,muitos continuam a acompanhar a turma. Talvez isso explique por que boa parte de seus leitores de hoje são adultos.Mauricio trabalhou em rádio, deu aulas de canto e dança, foi repórter policial, fez tiras de jornal para ajudar no orçamento familiar e depois se tornou o mais popular quadrinista do país.Mas diz que ainda se parece com o menino do interior. No ano em que a Turma da Mônica chega a seu 35o aniversário, suas histórias nos levam a crer que ainda há tempo para observar a vida e desfrutar pequenas felicidades.

Depois de 35 anos falando de coisas cotidianas, ainda há assunto?
Novidades vivemos todos os dias, então basta ficar atento. Quando alguém chega em casa e conta o que aconteceu durante o dia, está falando de coisas novas,usando uma linguagem simples, do dia e da hora, para se comunicar com todos. E a Turma da Mônica nada mais é do que o que nós, desenhistas e roteiristas, fazemos e pensamos, e como encaramos a vida. Não podemos fechar as portas de casa, parar de ler o jornal, não ir mais à rua e falar do que havia 30 anos atrás.
Então a atualização é constante?
Com certeza.Mais do que isso, temos que respeitar a história passada e não esquecer que, daqui a um minuto, o agora será passado. A gente fica velho a cada segundo.A vida é um momento fugaz, mas temos a oportunidade de viver bem. Somos energia, espírito, luz. Uma luzinha que um dia se apaga. Enquanto isso, temos a obrigação de iluminar e de fazer jus a essa bênção que é a vida. Temos que aproveitar cada minuto e ficar livres para curtir a natureza: respirar ar puro, beber água limpa, buscar saúde.
O que mudou no universo infantil nas três últimas décadas?
A maioria das crianças está perdendo o contato com a natureza, no sentido de andar com o pé no chão, no meio do mato, junto com animais. Ao mesmo tempo, existe uma consciência cada vez maior de que o meio ambiente não pode ser esquecido e, menos ainda, agredido. A natureza não é mais um invólucro, mas um objetivo, um prêmio, algo a ser ainda mais respeitado. Meu filho de 7 anos fala para eu não escovar os dentes com a torneira aberta senão acaba a água do mundo.
E o que não mudou?
A curiosidade. A curiosidade é nata da criança. Ela brinca em qualquer canto. Não mudou a esperteza, a fantasia.
Suas histórias trazem situações de 30 anos atrás. As pessoas estão carentes dessas referências?
Sim, bastante.Menina gosta de boneca e menino gosta de bola. Isso faz parte da natureza humana.Hoje, a boneca pode ser cibernética, a bola pode ser virtual, mas o comportamento é o mesmo. E não é questão de machismo ou feminismo, foi o que vivenciei com meus filhos. Também não estou dizendo que menina nunca goste de bola. Minhas filhas gêmeas foram campeãs de futebol na adolescência.Mas era pelo esporte. Na infância é a bola pela bola. Atualmente, os meninos brincam de bonecos. Mas é o tal “zum, zim, agora você vai levar um raio do meu monstro”. O instinto de guerreiro continua. Nas meninas permanece o maternal.
Que mensagens você se preocupa em passar nos gibis?
As mesmas que tento passar para os meus filhos. Você tenta jogar alguns valores,aqui ou ali,às vezes eles resistem, mas a semente está lançada. Acredito que o papel dos personagens não é levantar bandeiras, mas sim segurar as que estão passando, falar do momento, mas em mensagens brandas, tranqüilas. Se não dá para resolver o problema hoje, deixa para amanhã.
Como histórias tão simples podem fazer sucesso entre tantos entretenimentos rebuscados?
O simples e o cotidiano matam a fome, atendem ao apetite espiritual, intelectual e até físico. Se você enfeitar demais vira bolo, festa. E festa não é todo dia, o dia-adia não tem apetrechos.
Isso também vale para a estética dos quadrinhos?
A simplicidade do desenho começou como um mal necessário. Tive que optar por um estilo enxuto, quase pedagógico, porque não tinha equipe e tinha que dar conta do trabalho. Essa economia acabou virando um estilo que deixa as histórias mais ágeis, diretas, com início,meio e fim, sem pulos ou cortes. Em relação às cores, também fui pelo básico.Predominam o amarelo e o vermelho que são cores quentes, já que os personagens estão sempre alegres, felizes e as mensagens são positivas. No início essa estética simplista não agradava a alguns. Onde eu ganhava o povo era mesmo no roteiro.
Mas os roteiros continuam, hoje em dia, sem grandes efeitos.
Meus personagens se identificam com as crianças reais. E a criançada não tem efeitos, elas têm uma vidinha cotidiana. Às vezes, os personagens fantasiam, voam ou se fingem de super-herói.Mas, o tempo todo, eles sabem que aquilo é imaginação. Nas revistinhas, os personagens costumam até usar a metalinguagem e dizer que estão vestidos de super-heróis de gibis.
E por que nenhum personagem mora em prédio?
Porque o pai deles gosta de morar em casa (risos). Eu sempre preferi morar em casa, sem muros ou grandes aparatos de defesa, porque senão você se fecha também como ser humano. Na infância, eu tinha uma vida parecida com a do Chico Bento. Acordava, brincava na rua, estudava, voltava pra casa, dormia e, no dia seguinte, tudo de novo. Só calçava o sapato para ir à escola, chegando em casa tirava. Quem gosta de usar sapato no interior? Descalço se sente a energia do solo, da terra. Eu vivia cercado de animais. A casa dos meus avós era quase um zoológico. A família toda morava perto. Se o almoço estivesse pronto na casa de alguém, eu sentava e comia e ainda convidava o amigo que estivesse junto.Hoje, na cidade grande, não existe isso, mas no interior há muitos lugares como os que eu vivi.
Como seriam seus gibis sem seus dez filhos e dez netos?
As crianças me ensinaram muito. Fizeram-me olhar para elas, ver como reagiam ao mundo. E, dessa forma, a gente acaba relembrando um pouco como fomos. Ainda hoje, vejo meus filhos e fico admirado de como eles se espantam e se extasiam com o mesmo que eu, na idade deles. Nesse ponto, Einstein estava certo ao dizer que o tempo não existe, ele é uma roda em que você dá a volta e encontra o mesmo do outro lado. Ou reencontra você.

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