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Oba, segunda-feira!

Não precisa chegar ao ponto de comemorar a hora de trabalhar, mas dá, sim, para encarar a jornada diária de uma forma mais prazerosa e satisfatória

por Rodrigo Vergara, com reportagem de Chantal Brissac|foto Marcelo Zocchio

Gosto muito do que faço. Entrevistar pessoas, entender o que elas sabem sobre um determinado assunto e contar aos outros o que descobri é gratificante. E o tema desta reportagem, então? Apaixonante. Antes de sentar em frente ao computador para escrever estas linhas, entrevistei pessoas interessantíssimas, li textos inteligentes e recebi um ótimo material, esclarecedor, da Chantal Brissac, colaboradora da revista. Enfim, aprendi bastante, e de forma prazerosa. Não bastasse tudo isso, ainda tenho a chance de dividir o que aprendi com você. E confesso: eu gosto de contar histórias. Ainda mais quando me sinto à vontade, como agora, para fazer piadas ou usar metáforas para ajudar você a entender o que eu quero dizer. Para completar, botei uma música agradável para me acompanhar enquanto escrevo e tenho um copo de água gelada para bebericar. Resumindo: estou no trabalho certo na hora certa.

Pois é, mas não se engane. Se, neste momento, por alguma obra divina, eu tivesse ganho mais um mês para concluir esta edição, pode ter certeza de duas coisas: você não estaria com ela agora nas mãos (só no mês que vem) e eu não estaria mais aqui na frente do computador. Teria ido jogar bola, ler um livro, nadar, ver um filme, sei lá. Trabalhar é que eu não ia.

Dito assim, parece até estranho que eu não queira continuar trabalhando sem precisar. Afinal, se meu trabalho é tão bom, como é que eu não passo os domingos e feriados me divertindo com ele? Seja sincero, você faria diferente de mim? Provavelmente não. E não há nada de errado nisso: a relação humana com o trabalho é, por natureza, feita de atração e repulsa.

Por um lado, o labor é vital para a nossa sobrevivência. Não só a minha ou a sua, mas a da espécie humana. "Não existiríamos sem o trabalho. Somos muito frágeis e vulneráveis para sobreviver sem ele", diz o filósofo Mario Sergio Cortella. De fato, é só olhar à sua volta para perceber que, se não fosse nossa "ação transformadora consciente", como Cortella prefere descrever o trabalho, estaríamos condenados. Como viver sem roupas, alimentos, liquidificadores e celulares?

E não é só a necessidade que nos leva à labuta. Cortella vê um apelo existencial no serviço. "Trabalho é o nome que se dá ao processo de intervenção humana sobre o mundo para a criação da cultura. O trabalho é o que eu sou, é o que você é." Em outras palavras, é o que nos faz humanos, é o que nos distingue dos outros animais. Quem anda às turras com o próprio emprego pode achar essa definição exagerada. Pois algumas pesquisas de opinião vão além e sugerem que trabalhar alimenta o espírito e é um dos requisitos da felicidade. Segundo um longo e consistente estudo coordenado pela Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, até quem perde um membro em um acidente acaba recuperando a alegria, mais cedo ou mais tarde. Os desempregados, não. Entre todos os itens pesquisados, apenas o desemprego parece diminuir realmente o nível de felicidade das pessoas. Traduzindo: seria impossível ser feliz sem pegar no pesado.

O lado bom é que ninguém fica desempregado para sempre. Um dia o desempregado arranja um trabalho, formal ou informal, bom ou ruim. Mas vamos pegar um desempregado e dar a ele um empregão. Carteira assinada, benefícios, perspectiva de crescimento. O que acontece então? Ele passa a reclamar de ter que trabalhar. Pode ser só de vez em quando. Pode ser uma reclamação pontual. Mas, que ele vai reclamar, ele vai. E tudo bem. De novo, não há nada de estranho nisso, não vá você se recriminar porque não está o tempo todo eufórico pelo que faz. Para a maioria da população ocidental, trabalho é uma espécie de punição, mesmo.Punição divina, aliás. Tudo culpa de Adão, que comeu a maçã e acabou expulso do paraíso. E adivinha qual é a principal diferença entre a vida aqui e a que se levava no Jardim do Éden? Acertou: lá ninguém precisava trabalhar. "Por causa do que você fez, terá de trabalhar duramente a vida inteira. Terá que trabalhar no pesado e suar para fazer com que a terra produza algum alimento", disse Deus na ocasião. E nem é preciso saber a Bíblia de cor para não ser amante do batente. As expressões populares fazem o serviço de divulgação. Ou você nunca ouviu algo como "primeiro a obrigação, depois a diversão"? Eu já.

O filósofo Cortella concorda com o teor da frase. "O trabalho é uma obrigação. Não é possível gostar sempre de algo que se é obrigado a fazer." Faz sentido. Mesmo quem tem empregos invejáveis deve experimentar dias em que adoraria faltar ao trabalho, embora me custe pensar que o pesquisador francês Jacques Cousteau saísse de casa de cara feia para embarcar em seu navio de pesquisas e se aventurar pelos mares do mundo. Mas com certeza acontecia.

Além disso, faz pouco tempo que o mundo aboliu a escravidão oficial. Até pouco mais de um século, esta reportagem não faria o menor sentido, porque o trabalho era, historicamente, uma punição, um fardo. Que sempre coube aos escravos carregar. Na Grécia antiga, o trabalho manual era tão depreciado que a elite, entre eles muitos dos pensadores que hoje a gente lê e admira tanto, se negava a aprender a escrever. Quando um nobre precisava enviar uma carta, ele a ditava e um escravo a escrevia. Na Idade Média, na Europa, a escravidão deu lugar à servidão, o que não ajudou muito para atenuar a má fama do batente, que continuava com um sentido restrito e messiânico. O filho do camponês devia ser também camponês porque era esse destino que o senhor feudal e a vontade divina determinavam.

Tudo isso para dizer que faz muito pouco tempo que o trabalho ganhou essa conotação atual, de ser fonte de realização e de criatividade. "O conceito de criatividade no trabalho é bem recente, do século 19", afirma o também filósofo Roberto Romano da Silva.

Bom, se desde que o mundo é mundo o trabalho tem um lado ruim, e se o lado ruim nem anda tão ruim, por que fazer uma reportagem a respeito? Para salvar o lado bom, que está a perigo. Empenhados em amaciar a metade espinhosa da labuta e distanciar a humanidade das condições de escravidão do passado, acabamos esquecendo a essência do trabalho. E essa lembrança anda fazendo falta na lida diária.

O sentido do trabalho
Em sua essência, o trabalho é uma ferramenta com que transformamos o mundo para viver melhor. O matuto que capina o mato ao redor da casa para evitar os bichos e a dona-de-casa que faz a comida da família entendem isso. Mas como explicar a mesma coisa para um operador de fotocopiadora, que passa o dia apertando botões, virando páginas e vendo uma luz verde para lá e para cá? Como manter estimulado por 160 horas mensais, 2 000 horas anuais, um sujeito que não vê sentido no que está fazendo?

Certo, ele recebe salário por isso e, com esse dinheiro, pode transformar seu mundo como quiser, pode até contratar uma cozinheira e um sujeito para capinar o quintal. Dê ao rapaz do xerox um bom salário e pronto. Mas há algo sobre o dinheiro que é bom lembrar. Ele não compra felicidade. É sério. Há mais de uma pesquisa comprovando que, acima de uma determinada quantia, que dá um conforto básico, dinheiro não traz nenhuma felicidade extra. E não estamos falando de muita grana. Nos Estados Unidos, esse valor gira em torno de 50 mil dólares por ano. Na Europa, cai para 10 mil dólares por ano.

É preciso que o trabalho tenha sentido. E todo trabalho tem um, ou vários. Algumas pessoas o encontram na própria atividade que desempenham - como o balconista que adora lidar com o público, sente satisfação em ser gentil. Outras, na missão da empresa ou organização a que pertencem (tem gente que faz trabalhos burocráticos para entidades de proteção ambiental e se sente realizada). Quando era secretário da Educação da Prefeitura de São Paulo, o filósofo Cortella tinha por hábito levar um funcionário administrativo junto com ele, nas visitas às escolas municipais. "O efeito era visível. Quando o sujeito da contabilidade via que seu trabalho tinha possibilitado fazer uma obra, uma compra de livros ou uma quadra, sua relação com a atividade mudava." Na verdade, Cortella não estava inventando a roda. Há muitos estudos científicos que relacionam o trabalho significativo com satisfação no trabalho, felicidade e até melhora na saúde.

O marceneiro Willas Francisco dos Santos conhece essa sensação. Quando ele trabalhava em Ilhéus como ajudante de mecânico, pedreiro e pintor, fazendo bicos aqui e ali, conheceu a marcenaria de um amigo e passou a freqüentar o lugar. "Eu gostava de tudo ali: o cheiro da madeira, a textura dos móveis e a forma dada a cada uma das peças. Mas o que me encantava era ver a transformação de um pedaço de árvore num berço para um recém-nascido". Willas encontrou o sentido que precisava. Em pouco tempo, foi convidado para trabalhar lá. Hoje ele tem sua própria marcenaria, em São Paulo.

Foco no processo
Mas trabalhar de olho apenas no resultado final, por mais satisfatório e altruísta que ele seja, não garante a satisfação. O trabalho também tem que ser agradável agora, já. Sabe o sujeito que parece trabalhar brincando? É isso. "A brincadeira tem uma ligação intrínseca com o trabalho", afirma a pedagoga Simone Cristina Marra, especializada na pedagogia Waldorf, baseada nos ensinamentos do austríaco Rudolf Steiner. "Quem pôde brincar com liberdade na infância provavelmente se tornou um adulto que trabalha com alegria", diz ela.

Uma característica fundamental da brincadeira é que ela é focada no processo, não no resultado. Tanto que, quando alguém quer ganhar de verdade um jogo que é de brincadeira, dizemos que ele "não soube brincar". A criança se deixa envolver pela brincadeira. Faz pela simples satisfação de fazer. Não brinca pensando em recompensas, bônus, promoções. Essa é uma dica preciosa.

Caixa de um supermercado paulista, Márcia Cristina de Souza me conta que jamais olha no relógio enquanto trabalha. "Quando percebo, já está na hora de sair. Adoro falar com as pessoas e trocar idéias naquele rápido momento em que estão comigo. Já conheci muita gente interessante. São minutos preciosos", ela diz, com um sorriso no rosto. Márcia se concentra no trabalho e consegue extrair dele aprendizado, satisfação e alegria. Nem me passou pela cabeça perguntar a ela se gosta do que faz. Está na cara.

"A travessia é tão importante quanto a chegada", diz o escritor e consultor César Souza, autor de O Momento da sua Virada (Gente). Como diz Eduardo Carmello, mestre em neurolingüística, "visualize o futuro, mas absorva e se concentre no presente, pois nele está a possibilidade de mudança. Freqüentemente, nos distanciamos da hora em que precisaríamos estar presentes. A presença é o ato mais curador que você tem: aumenta a eficiência, a consciência e o poder de resolução."

Ademar Serodio, ex-presidente da Avon e agora empresário de uma nova marca de cosméticos, concorda. "Quando nos dedicamos à atividade, procurando fazer o nosso melhor, passamos a gostar mais do que fazemos", diz ele, que começou sua carreira como office-boy, há 40 anos.

Outra maneira de tornar agradável a lida diária é ter gente querida por perto. Há 35 anos, o Instituto Gallup dos Estados Unidos começou a pesquisar por que pessoas de certos grupos de trabalho eram mais eficientes que outras, às vezes da mesma empresa. Para isso, desenvolveu alguns critérios para avaliar o grau de felicidade dos trabalhadores, entre os quais a qualidade das relações entre eles. E não é que esse item fez diferença? Os pesquisadores descobriram que ter um melhor amigo no trabalho é um dos mais eficientes indicadores de engajamento no trabalho, que se traduz em produtividade.

Condições de trabalho
Certo, você procurou um sentido no que faz, amigos com quem compartilhar os cafezinhos e ficou atento às tarefas, mas não consegue evitar uma angústia quando ouve a música de encerramento do Fantástico, na noite de domingo. Talvez seja o caso de procurar outro trabalho. Em geral, somos meio resistentes a mudanças, mas também somos adaptáveis ao novo. Muita gente decola na carreira depois de mudar de função dentro da empresa, de emprego ou até mesmo de profissão. A pior possibilidade é a de não obter sucesso com a troca. "Mas, se nada muda... nada muda", lembra o empresário australiano Justin Herald, autor do livro Atitude. "A melhor maneira de não errar é não fazer nada. Mas o pior erro é não fazer nada", disse Confúcio.

O empregador também pode fazer muito pela satisfação dos funcionários. Não estamos falando aqui de um bom plano de saúde, de bônus ou participação nos lucros, e sim das condições para que cada um possa exercer sua função de maneira ideal. E acredite: deixar uma pessoa trabalhar direito faz muito bem a ela. E isso significa, basicamente, duas coisas: dizer a ela o que se espera que ela faça e dar a ela os recursos necessários para fazer o que se quer.

Quando o trabalho envolve várias pessoas, o espírito desejável é o da cooperação. "As empresas que estimulam o trabalho em equipe, a informalidade e a amizade, no lugar de aspirações como status e competividade destrutiva, conseguem prosperar. Quando se sentem confiantes e seguras, as pessoas podem colaborar muito mais com sua inventividade", diz a consultora Renata di Nizo. E é essa a chama da criatividade, característica tão desejada nas empresas.

Contra a corrente
Mas também pode acontecer que, lendo tudo isso aí em cima, nada tenha interessado. Talvez você simplesmente queira trabalhar menos, preocupar-se menos com a labuta, diminuir o espaço que o trabalho tem na sua vida. Se esse é o seu caso, você está longe de ser uma cigarra no formigueiro. Tem muita gente pensando como você. Segundo Cortella, são pessoas que estão escolhendo a liberdade em vez da necessidade. Para não precisar de algo, há dois caminhos. O primeiro é tentar satisfazer as necessidades. Mas a verdade é que esse caminho anda cada vez mais difícil, à medida que a sociedade de consumo inventa a cada minuto um produto, um remédio ou um serviço novo, que "você precisa ter para ser feliz".

O caminho contrário é aquele pregado pelos budistas: matar o desejo no ninho. Sem desejos, sem vontades, não temos necessidades. E, sem necessidades, somos felizes. Pronto. Segundo Cortella, a humanidade vivia assim até uns 15 mil anos atrás, quando abandonou o trabalho comunitário pela exploração do trabalho alheio que conhecemos hoje. Mas algumas ilhotas do antigo modo de viver sobreviveram isoladas. Os índios brasileiros, por exemplo, viviam assim - alguns vivem até hoje. São um fóssil vivo do modo de produção pré-histórico. Eles trabalham para ter o mínimo que comer, vestir e morar. No resto do tempo - que é muito - , dormem, brincam e interagem. Sobra tempo para conversar, todo dia, sobre a vida da tribo, as tarefas do dia seguinte, discutir as relações entre homens e mulheres e a educação das crianças.

Mas não vá querer se alimentar com um grão de arroz por dia, como fez o Buda, ou viver pelado como os ianomâmis. Dá para viver com menos sem virar monge ou aborígene. Mas é preciso abrir mão de alguns confortos e símbolos de poder e status. Ganhar menos, ter menos coisas, viajar menos. E viver mais, ser mais. Acredite: a escolha é de cada um.

PARA SABER MAIS
• Criatividade e grupos criativos, Domenico de Mais, Sextante
• Reinventando o trabalho, Tom Peters, Campus
• Metacompetência, Eugenio Mussak, Gente
• Você quer o que deseja?, Jorge Forbes, Best Seller
• A Boa Sorte, Alex Rovira Celma e Fernando Trias de Bes, Sextante
• Como integrar liderança e espiritualidade, Jair Moggi e Daniel Burkhard, Negócio
• Felicidade, Eduardo Gianetti da Fonseca, Inconfidentes
• A Arte da Guerra Para Quem Mexeu no Queijo do Pai Rico, Luli Radfahrer, Planeta

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