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A força do vento

Sem você perceber, sua respiração alimenta seu corpo, afeta suas emoções e bota até seu cérebro para trabalhar mais. Imagina então se você aprender a respirar direito

por Aline Angeli | foto Gustavo Lacerda | produção Giovanni Tinti

Quer emagrecer, melhorar a postura, relaxar, ganhar mais energia e acalmar os pensamentos e as emoções? Então respire. Não, assim não. Não uma respiradinha qualquer, dessas que se faz a qualquer hora, enquanto se divaga sobre como fugir do trânsito ou sobre a lista do supermercado. Tente de novo. Mas agora respire seguindo as instruções do texto. Comece relaxando os ombros. Isso. Agora deixe o ar entrar devagar pelo nariz, mas atenção: não erga os ombros nem estufe a parte de cima do peito, como está acostumado. Em vez disso, encha apenas a parte de baixo do pulmão, logo acima da barriga. Encheu? Segure. Um... dois... três segundos. Agora solte o ar de forma mais lenta. Pronto. Essa é a maneira correta de respirar.

Segundo especialistas de correntes tão diversas quanto o yoga, a antroposofia, a cantoterapia e a medicina tradicional, respirar assim é o remédio mais simples e eficiente para colocar o corpo no eixo e se sentir muito, muito melhor. O método é tão prático e acessível que você, certamente, nem precisou largar a revista para testá-lo. Deu para fazer tudo enquanto lia o primeiro parágrafo.

Pois bem, agora que você aprendeu como fazer, repita o exercício algumas vezes para decorar e depois é só praticá-lo durante o resto da vida. Sim, o resto da vida. Ou você pretende deixar de respirar até lá? Não, né? Então pode começar a praticar.

Pode parecer cansativo, mas, se este texto fosse uma aula de respiração, esta seria a primeira lição: preste atenção nela. Note cada uma de suas fases (inspiração, retenção, expiração e vazio) e o caminho que o ar percorre dentro do corpo. Não é difícil, só exige atenção. "Controlar a respiração não é nada do outro mundo", afirma o médico Samir Rahme, presidente da Associação Brasileira de Medicina Antroposófica. "Só que a maioria das pessoas não faz isso conscientemente."

O resultado, em geral, se traduz em movimentos superficiais e rápidos, que oscilam ao menor sinal de ansiedade e estresse, e produzem uma oxigenação do organismo que mal dá para o gasto. Ou, pior ainda: acaba na respiração pela boca, típica de quem sofre de rinite alérgica, adenóide ou apnéia. "Ao longo dos anos, hábitos errados como esse podem trazer conseqüências como a deformação da arcada dentária, dos músculos da face, do pescoço, do peito, da coluna e até das pernas - isso sem falar na sobrecarga para o coração", afirma a fisioterapeuta carioca Tânia Lucia Nen, especializada em fisioterapia respiratória.

Quer dizer, então, que não morremos de falta de ar até hoje por uma mera questão de sorte? Ora, é claro que não. "Se alguém está vivo, é porque sua respiração deve estar, na maior parte do tempo, quase 'correta'", afirma o terapeuta e guru americano Dan Brulé, um dos pioneiros a associar várias técnicas respiratórias em seus tratamentos. "O sistema respiratório foi feito para funcionar sozinho, sem necessidade de controle. Já pensou o que seria se tivéssemos que nos lembrar de respirar à noite?" Quando se fala em melhorar a respiração, não se trata de corrigir um erro, mas sim de tirar mais proveito daquilo que anatureza já fez direito.

Como funciona?
Quando falamos em respiração, a primeira coisa que vem à mente são os pulmões, enormes, cheios de ar. Mas eles não são os atores principais desse processo. "Eles funcionam apenas como uma espécie de fole, aquele utensílio que é inflado para produzir vento e acender fogueira", explica Mauro Zamboni, presidente da Sociedade Brasileira de Pneumologia. O protagonista, que faz o serviço duro de puxar o ar para dentro e depois empurrá-lo para fora, é o diafragma, um músculo fino, em formato de pizza, que fica debaixo do pulmão, entre o tórax e o abdômen. É nele que você deve concentrar a atenção quando estiver respirando, para que o ar seja distribuído uniformemente.

Não sabe como fazer isso? Então experimente o seguinte truque: coloque uma mão sobre o peito e outra sobre a parte superior da barriga, exatamente onde acabam as costelas. Inspire e expire pelo nariz fazendo com que só esta segunda mão suba e desça. A primeira deve ficar paradinha. Também não force a barriga: ela vai se movimentar passivamente, de acordo com a entrada e a saída de ar. Conseguiu? Parabéns. Você acaba de achar seu diafragma.

O principal objetivo de todo esse processo descrito aí em cima é fazer com que o organismo absorva oxigênio e elimine gás carbônico. Precisamos do oxigênio porque ele é um ingrediente indispensável para transformar em energia os carboidratos, gorduras e proteínas dos alimentos que ingerimos, criando o combustível que mantém as células funcionando. Não basta comer. Tem que respirar para a química acontecer. "Respirar corretamente é muito importante para auxiliar a queima de açúcares e gorduras, o que, inclusive, emagrece", afirma o clínico geral, homeopata e terapeuta mineiro Eduardo Lambert, autor de A Terapia da Respiração - Relaxterapia (editora Elevação).

Cabeça de vento
Cerca de 20% desse combustível, porém, tem um destino certo e nobre: alimentar o cérebro. Essa é uma das explicações, aliás, que justificam a estreita relação entre a respiração e o controle da mente, tão usada pela meditação, por exemplo. Quando se faz uma respiração profunda, a oxigenação adicional resultante dá ao cérebro maior capacidade de concentração, o que ajuda o meditante a apaziguar o fluxo de pensamentos, além de permitir que ele melhore a síntese de beta-endorfinas, substâncias analgésicas que dão sensação de bem-estar.

"Sabemos que as emoções afetam a respiração", afirma Dan Brulé. Isso é fácil de perceber quando vemos como alguém feliz, triste, supreso ou deprimido fica ofegante. O inusitado para nós, ocidentais, é que o contrário também é verdade: a respiração pode influenciar as emoções. Segundo Brulé, cada estado emocional tem seu padrão de respiração correspondente (que varia em qualidade, ritmo, volume etc.). Quando alguém respira de forma rápida e superficial, por exemplo, concentrando o ar no peito, está mandando um tipo de mensagem para o sistema nervoso. Quando inspira lentamente, puxando o ar com o diafragma, manda outro, completamente diferente. Sendo assim, diz Brulé, basta que cada um observe como respira quando está relaxado e feliz e imitar-se sempre que necessário. "Se você se sentir deprimido ou ansioso, lembre-se da sua 'respiração de paz'. Ao começar a respirar dessa maneira, você automaticamente se transporta para aquele mesmo estado emocional", diz o terapeuta americano.

A capacidade de alterar as funções cerebrais por meio da respiração foi, no fim da década de 60, um dos principais objetos de estudo do psiquiatra tcheco Stanislav Grof, criador de uma psicoterapia alternativa chamada de respiração holotrópica. Depois de observar o que acontecia no cérebro de pacientes sob o efeito do LSD, Grof percebeu que era possível obter efeitos semelhantes somente associando música a uma respiração acelerada e profunda, além de outras intervenções corporais. E mais: concluiu, após 20 anos de pesquisa, que o efeito produzido não era alucinação, mas, sim, uma amplificação da atividade psíquica, o que permitia que conteúdos inconscientes viessem à tona.

Ar temperado
Para as filosofias orientais, entretanto, todo esse poder atribuído à respiração ganha uma explicação extra: ocorre por causa da presença, em toda a natureza, de uma energia vital, que é absorvida por nosso organismo junto com o ar, a cada inspiração. Os hindus a chamam de prana, os japoneses, de qi, e os chineses, de chi. Saber equilibrá-la e fazê-la circular no organismo - o que se faz por meio de exercícios (leia quadro na página 41) - seria a chave para ter uma vida longa, integrar o corpo e a mente, purificar-se e, inclusive, atingir o êxtase e a iluminação espiritual, segundo o médico Samir Rahme, da antroposofia, outra filosofia que acredita que há mais no oxigênio do que percebe nosso nariz. "Quando respiramos, não trocamos apenas gases. Deixamos o mundo inteiro entrar dentro de nós", diz Rahme. Para a antroposofia, a região do tórax é uma zona de transição entre o pensar (cabeça) e o querer (parte inferior do corpo). "É onde está o sentir, o intermediário de tudo", diz Rahme. Trabalhar a respiração seria, portanto, uma condição fundamental para dominar melhor o corpo todo, inclusive as emoções. "Pessoas deprimidas, por exemplo, têm respiração curta", afirma o médico.

"Uma forma prazerosa de começar a tratar disso é se matricular numa aula de canto, pois quem canta acaba disciplinando a respiração, aprendendo mais sobre seu próprio ritmo." Por enquanto, agora que você já treinou um pouco a técnica durante a leitura, vale até deixar a revista um pouco de lado e dar uma volta ao ar livre. Só para colher o prana na fonte, fresquinho.

Meta o nariz
Respiração alternada

Sentado e com a coluna bem reta, pressione o dedo indicador sobre a lateral da narina direita, bloqueando a passagem de ar. Inspire só pela narina esquerda, contando até cinco. Quando terminar de inspirar, leve o mesmo dedo agora para a lateral da narina esquerda, e expire pela narina direita, também contando até cinco. Depois faça o inverso: inspire pela narina direita e expire pela esquerda. Essa é uma volta completa. Para iniciantes, uma boa dosagem é fazer cinco voltas. Esse exercício de respiração, retirado do yoga, tem como função limpar os canais de energia do corpo.

Relaxterapia
Numa posição confortável, procure respirar calmamente, de forma lenta, profunda e suave. Faça uma inspiração nasal e um bom intervalo de retenção, expandindo bem o abdômen e o tórax e contando de cinco a dez antes de expirar. Expire lentamente pela boca até murchar o abdômen, eliminando todo o gás carbônico. "Isso elimina as toxinas físicas e energéticas do corpo, o que propicia limpeza e relaxamento", afirma o terapeuta Eduardo Lambert. "Quanto maior a inspiração e a retenção, maior a energização. Quanto maior for a expiração, maior o relaxamento."
Técnica vocal
Deixe o ar entrar sem pressa pelo nariz. Não o puxe. Sinta ele ir entrando e ampliando suas costelas, que farão um movimento lateral suave logo acima da cintura. Sustente-o por alguns segundos e expire esvaziando totalmente, como uma sanfona. "Não levante os ombros nem estufe o peito", adverte a professora de canto Diana Goulart, do Rio de Janeiro. "Cuide também para que a musculatura do pescoço não esteja tensionada." Uma variação desse exercício é expirar fazendo um som de "fff" contínuo, tentando manter a abertura das costelas. Procure manter o som homogêneo e durante um tempo confortável, sem exageros.
PARA SABER MAIS
Livros

• A Terapia da Respiração - Relaxterapia, Eduardo Lambert, Elevação
• A Arte de Respirar, Nancy Zi, Pensamento
• O Tao da Respiração Natural,
• Dennis Lewis, Pensamento

Sites
www.breathmastery.com, site do terapeuta Dan Brulé
www.asmaticos.org.br, da Associação Brasileira de Asmáticos

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