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Interprete-se

Nas aulas de artes dramáticas o aluno entra em contato com suas emoções e acaba se conhecendo melhor

por Mariana Sgarioni e Rodrigo Vergara | foto Ivan Shupikov

Vencer a timidez, ganhar confiança, expressar-se melhor. Essas já seriam vantagens suficientes para justificar uma reportagem sobre os benefícios, digamos, "terapêuticos" da arte dramática. Mas os exercícios e técnicas que forjam um ator têm outras implicações mais profundas, sobre a personalidade e as emoções. Mesmo para quem não quer fazer disso uma profissão. O objetivo pode ser simplesmente se conhecer melhor. Uma das primeiras lições aprendidas nos cursos de interpretação é que, para aprender a expressar um papel de maneira convincente, é preciso conhecer a si mesmo.

Ao contrário do que muita gente pensa, quando interpreta um papel, o ator não entra na pele de outra pessoa, muito menos vive a vida dela - ele representa sempre ele próprio, só que em diferentes situações. Imagine que você tivesse que representar a Julieta, de Shakespeare. O que você faria se estivesse no lugar dela, não podendo nem chegar perto da pessoa que ama? Como se sentiria? De que forma reagiria?

Foi com perguntas assim que a professora de interpretação Fátima toledo, de São Paulo, treinou os atores do filme Cidade de Deus. Diz ela que Leandro Firmino - que viveu o violento Zé Pequeno - era uma das pessoas mais dóceis e suaves do elenco. "Ele me perguntou como fazer para sentir o ódio que seu personagem sentia. Eu disse a ele que todos nós temos raiva." Assim como os demais sentimentos, a raiva mora dentro de cada um. E ela estava em algum lugar em Leandro. Outro ator do filme, Douglas Silva, que representou Dadinho, impressionou platéias ao gargalhar enquanto promovia uma chacina. Na verdade, Douglas nem pensava em morte naquele momento. Durante a cena da carnificina, o menino lembrava de piadinhas infantis que o faziam chorar de tanto rir. "todo ser humano tem as mesmas sensações dentro de si. O que faz a diferença é a forma como cada um as organiza. E é isso que vou buscar dentro das pessoas", diz Fátima.

Emoções escondidas
Segundo a psicoterapeuta Virgínia de Araújo Silva, de São Paulo, especializada no uso de técnicas de dramatização em suas consultas, todo mundo tem memórias e emoções que ficam escondidas. Diz a terapeuta que esse é um mecanismo básico de defesa psicológica. "Cada pessoa possui seu próprio sistema de crenças, uma visão sobre o mundo que inclui, entre outras coisas, a maneira como enxerga a si mesma, a sua auto-imagem", diz Virgínia. tudo muito bom, a não ser pelo fato de que o mundo não é como a gente pensa - verdade seja dita, nem eu sou como eu penso que sou, ou você é como pensa que é. Nas pessoas psicologicamente saudáveis, as discrepâncias entre suas crenças e a realidade não são tão grandes, na maior parte do tempo. Dá para digerir, aprender e seguir em frente.

Mas nem sempre. Ës vezes a evidência é muito grande para ser ignorada e muito chocante para ser absorvida. Emoções e eventos que lembram essas discrepâncias acabam escondidos em algum lugar da memória. "Acontecimentos ou emoções que não estejam de acordo com esse sistema de crenças vão ficando como que excluídos. A pessoa perde o acesso a essas vivências pela consciência", afirma Virgínia.

O que as técnicas de interpretação fazem é trazer essas memórias escondidas à tona. A descoberta pode ajudar a vencer medos, rever valores ou desenvolver tolerância, criatividade, espírito de grupo. Mas isso depende de um trabalho mais aprofundado. Uma vez na superfície, cabe a cada um decidir o que fazer. "No geral, as técnicas de interpretação servem para tornar disponível uma emoção ou um conhecimento. Do ponto de vista da psicoterapia, isso não resolve o problema. Não explica, por exemplo, por que esse sentimento estava guardado, o que é um ponto crucial", diz Virgínia. Mas como é que a interpretação consegue alcançar essa memória escondida?

A memória do corpo
Quando Leandro Firmino a procurou querendo expressar sua raiva, Fátima toledo não lhe fez perguntas. Em vez disso, receitou a ele uma série de exercícios que incluía, entre outras coisas, ficar andando rapidamente de um lado para o outro e esmurrar almofadas. O resultado todo mundo viu nas telas: Leandro criou um dos personagens mais cruéis do cinema nacional.

Segundo Virgínia, temos dois tipos de memória. A primeira, mais conhecida de todos, é a memória psicológica, aquela que permite a você lembrar o que comeu ontem ou contar como passou seu último aniversário. Mas há também a memória somática, que vamos chamar de memória do corpo. É nela que as técnicas de teatro vão fuçar para trazer à tona o que a consciência teve tanto trabalho para esconder bem escondidinho.

"Quem é você?" Essa foi a primeira pergunta que o publicitário André ouviu ao desembarcar no curso de interpretação criado por Fátima toledo. André não estava nem um pouco interessado em ir para a telona - ele queria mesmo era encontrar um jeito de se expressar melhor para seus clientes. Para ele, seu problema era meramente a dificuldade de ser claro com as palavras.

Na primeira fase do curso, Fátima instiga os alunos a se descobrirem e se mostrarem - sem que, para isso, precise saber nada sobre a vida deles. A idéia é deixar que o corpo fale por si. Em um desses exercícios, André se viu frente a frente com um desconhecido, que lhe pedia um abraço. Ele deveria negar este abraço quantas vezes achasse necessário e somente aceitar quando realmente quisesse abraçá-lo. "Percebi que minha dificuldade estava além da expressão de minhas idéias. Simplesmente não conseguia olhar nos olhos do outro e dizer ÔnãoÕ."

Segundo Fátima, esse tipo de atividade revela sentimentos escondidos. "Descubro medo, agressividade, afetividade, ódio, paixão, capacidade de se relacionar, sem que os alunos precisem me falar nada sobre sua história pessoal. Não se trata de terapia em grupo e sim de cada um entrar em contato consigo mesmo, sozinho", diz.

Para o diretor e teórico do teatro Augusto Boal, isso acontece porque nosso corpo está mecanizado. Ou seja, estamos condicionados a fazer os mesmos movimentos sempre da mesma forma. Repare quando você dirige seu carro. Provavelmente senta, engata a marcha, olha no retrovisor e liga o rádio sempre do mesmíssimo jeito. Isso deve acontecer também quando mexe no computador, segura a xícara de café ou folheia esta revista. Na verdade, fazemos isso em todas as ações da vida. Mudar o gestual, segundo Boal, aciona emoções diferentes do normal. "É preciso desmecanizar, para voltar a sentir certas emoções e sensações das quais você já se desabituou. Isso fará com que sua capacidade de sentir e de se expressar seja ampliada." Para tanto, Boal sugere uma série de exercícios que vão desde narrar o gosto doce de uma colher de mel a dançar dos jeitos mais estapafúrdios possíveis (leia sobre exercícios de desmecanização no quadro na pág. 56).

Ao desembarcar no seu primeiro curso de teatro, isso durante a adolescência, a atriz, diretora e professora Ligia Cortez queria apenas vencer a timidez. "Eu ficava vermelha por qualquer coisa, tinha pavor até de conversar com os outros", diz ela, que, diferentemente de seus pais, os atores Raul Cortez e Célia Helena, não tinha intimidade nenhuma com a exposição que o teatro proporcionava.

Nas primeiras atividades em grupo, Ligia conta que tremeu na base. Achava que seria impossível para ela, que morria de vergonha de tudo. "Fazer um exercício em que cada um tinha que dançar no meio da roda, por exemplo, me fez entrar em contato justamente com essa minha dificuldade, para só então perceber que ali dentro ninguém estava me julgando. todos estavam na mesma situação, trabalhando em grupo, juntos", conta. Para ela, interpretar funcionou como uma fonte de transformação para a vida - passou a se sentir mais perto de tudo aquilo que era, que sentia.

Saca-rolhas
Ës vezes, os cacarecos emocionais guardados no fundo do baú são pesados demais para serem tirados de lá. O ator Flávio Amato tolezani, de São Paulo, que emprestou seu rosto para ilustrar as páginas desta reportagem, conta que mais de uma vez teve que interromper um desses exercícios porque a emoção era forte demais. "Já aconteceu de fazer oficina de interpretação e não conseguir ir adiante, porque tocou num ponto que não dava para enfrentar. Geralmente são assuntos familiares. Me lembro de uma vez em que muita gente parou e caiu no choro, porque era delicado para a maioria", diz ele.

Virgínia, que utiliza técnicas de dramatização em seus pacientes, diz que isso é comum. "Ës vezes a pessoa tem dificuldade em viver determinado sentimento, porque ele está bloqueado. Quando você pede que ela o sinta, ela acaba passando mal, fica tonta, porque seus mecanismos de defesa impedem." Segundo a terapeuta, a aula de dramatização pode facilitar essa busca porque ali, como tem um grupo apoiando, um professor e o objetivo é personificar uma outra pessoa, o bloqueio pode ser menor.

Como Shakespeare dizia, o teatro é um espelho, onde podemos ver nossos vícios e virtudes. Augusto Boal prefere dizer que ele é um espelho mágico, onde podemos invadir e mexer na imagem de acordo com nosso gosto. "Ao mudar nossa imagem, mudamos nós mesmos. É o primeiro passo para depois mudarmos o mundo."

Sinta-se em casa
Conheça alguns exercícios em grupo para despertar emoções

para "desmecanizar" o corpo - Coloque uma música e peça que todos ouçam com atenção a melodia, o ritmo e o compasso. Desligue e peça que o grupo continue "ouvindo" mentalmente a mesma música, dentro do ritmo e compasso, só que com os olhos fechados. Ao sinal do líder, todos devem retomar a melodia começando na parte que estava sendo "ouvida" naquele momento.

para livrar o corpo da repressão - Chame um grupo de amigos e peça que cada um pense qual foi o maior sapo que teve que engolir na vida. Depois, cada um deve ficar no centro da roda e reproduzir, em alto e bom som, como gostaria de ter reagido naquela situação.

para integrar o grupo - Separe o grupo em duplas. Uma pessoa deve acusar a outra de qualquer coisa - por mais inverossímil que seja. Num primeiro momento, a acusada deve aceitar as acusações. Depois, deve se defender, dando veracidade às acusações.

para resgatar a memória dos sentidos - Cada um se senta em uma cadeira e tenta relaxar. A seguir, deve mexer lentamente cada parte do corpo, ininterruptamente, tomando consciência de cada parte isolada, com os olhos fechados. Em seguida, um líder deve pedir que cada um recorde tudo o que aconteceu na noite anterior, antes de ir para a cama. Cada detalhe deve ser expresso por algum movimento corporal - por exemplo, quem pensar no gosto de alguma comida que experimentou moverá a boca, lábios e língua. E assim por diante.

para incentivar a imaginação - Cada um deve imaginar que uma atriz deixou suas roupas limpas e arrumadas num cabide do camarim. Pense em cada artigo do vestuário e descreva-o. Por exemplo, se fosse um tailleur: de que cor ele era? Como era feita a gola? Onde eram os bolsos? De que material era feito? E os botões?

Para saber mais

• Jogos para Atores e Não-Atores, Augusto Boal, Civilização Brasileira
• técnica da Representação teatral, Stella Adler, Civilização Brasileira
• O teatro como Arte Marcial, Augusto Boal, Garamond

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