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Deixe a luz acesa

Bonita, saudável, gostosa e ainda por cima grátis. Esqueça o interruptor e aproveite a iluminação natural

por Roberta De Lucca | foto André Spinola e Castro

A primeira coisa que faço quando acordo é olhar pela janela para saber como está o dia. É um hábito antigo e confesso que, até fazer esta reportagem, não havia pensado muito nisso. Sempre achei que checava o tempo para escolher que roupa usar. Mas descobri que tem mais coisa envolvida nessa espiadela. Nosso corpo, aprendi, reage automaticamente à iluminação que vem do céu. De manhã, por exemplo, a luz do Sol informa ao meu organismo que já clareou, o que me dá disposição para sair da cama. (Não por acaso, tem gente que, em dias nublados, não tem vontade de levantar.) No meio do dia, mais do que o relógio no pulso, é o Sol que anuncia a hora de almoçar. Da mesma forma, o horizonte alaranjado avisa que está chegando a hora de ir para casa ou sair para encontrar os amigos.

E não é só para aquecer ou regular o relógio biológico que precisamos do Sol. Assim como as plantas necessitam de luz para fazer fotoss'ntese, alguns processos metab-licos do corpo humano exigem o Sol. Por exemplo, só sob luz solar é que nosso corpo produz vitamina D. O astro também funciona como desinfetante natural, quando aquece e desumidifica o ambiente, livrando-o de fungos e bactérias. Enfim, luz natural faz bem, e toda boa moradia deve ser construída levando em conta a iluminação dos ambientes. Além do quê, quanto mais clara é a morada, maior a economia de eletricidade.

Face norte ou sul?
Uma das coisas que mais influenciam a luminosidade natural de um imóvel é a posição do terreno em relação à trajet-ria do Sol ao longo do ano. Não por acaso, esse é um dos primeiros aspectos analisados por um arquiteto ao elaborar um projeto, e um dos primeiros itens que se deve levar em conta ao comprar um apartamento. Afinal, por que é tão importante que ele tenha a face voltada para o norte? É que aqui, no hemisfério sul, o Sol cruza o céu mais ao norte (quanto mais ao sul for a cidade, mais ao norte estará o Sol ao meio-dia). Logo, imóveis com paredes e janelas voltadas para o norte recebem mais luz e calor durante o ano todo. Isso vale para quem vive nas regiões Sul, Sudeste e parte do Centro-Oeste. Nas regiões Norte e Nordeste, essa regra vale menos. Primeiro, porque o Sol cruza o céu mais a pino. E segundo que o calor, nessas regiões, é algo mais a ser evitado do que atraído. Sob a linha do Equador, como em Macapá, por exemplo, a luz é perfeitamente dividida no ano. A face norte é mais ensolarada entre abril e setembro, enquanto na sul bate sol entre outubro e março.
A luz certa
Mas então o melhor é abrir todas as paredes e janelas para o sol? Claro que não. É bom ter luz natural à disposição, não para deixá-la entrar toda, mas para poder controlar sua intensidade e adequá-la à finalidade de cada lugar da casa. Afinal, quem tem luz à vontade pode tapar sua entrada, mas quem não tem... Como regra geral, o ideal é que nenhum cômodo receba luz ou calor de mais ou de menos. Mas locais em que se passa muito tempo, como a sala de TV e os quartos, merecem mais cuidado do que o banheiro. "A luz fornece condições para realizarmos nossas tarefas cotidianas e para cada uma delas precisamos de uma quantidade adequada de claridade", diz o arquiteto José Augusto Conceição.

tudo depende de como se pretende usar cada canto da casa. Banheiros, área de serviço e outros ambientes onde ninguém fica por muito tempo podem ficar no lado menos ensolarado da casa, bem como a cozinha, que não precisa de sol porque já recebe calor suficiente do fogão e do motor da geladeira. Além do mais, o calor excessivo dá preguiça e pode até reduzir o apetite no verão. Esse cuidado serve para outros ambientes da casa. É bom que o canto de leitura seja bem iluminado, mas sem luz direta. Assim também deve ser o quarto das crianças: iluminado, mas sem luz direta, para não aquecer demais o ambiente onde os pequenos passam boa parte do dia, estudando ou brincando.

Em contrapartida, a sala de estar, que geralmente é utilizada no final do dia e à noite, ficará aconchegante se durante o dia receber bastante sol, ainda mais no inverno. O quarto do casal, como só fica ocupado mesmo na hora de dormir, não precisa de sol o dia todo. Se estiver voltado para noroeste, vai receber luz à tarde, é suficiente. Em uma casa em que haja crianças, a sala de estar e de tV precisa de bastante claridade. "Mas se o equipamento só é usado à noite, pode ficar numa sala de pouca luz", diz José Augusto.

Como controlar
Quem vive em uma casa desfruta de um leque mais variado de soluções para regular a intensidade de luz. Primeiro, porque ali é poss'vel lançar mão de soluções impensáveis para quem mora em um prédio de apartamentos, cuja fachada não pode ser modificada ao sabor dos moradores. Para aumentar a luminosidade, quem mora em uma casa pode abrir uma janela, aumentar o tamanho de uma já existente ou mudá-la de lugar. "Se ocaso for de diminuir a quantidade de luz, dá para proteger as paredes e janelas em que bate muito sol com toldos, pergolados, janelas rebat'veis, beirais ou marquises", afirma o arquiteto Antonio Macedo Filho, professor de conforto ambiental da Faculdade de Belas Artes de São Paulo.

Já os habitantes de apartamentos, como eu, têm menos armas com que lutar por mais claridade. Haja criatividade. O problema é menor para quem tem luz de sobra. As persianas, que permitem dosar a quantidade e a direção da luz incidente e melhoram a ventilação, dão conta do recado. Mas o que fazer com os cantos escuros e frios do apartamento? Sem poder abrir novas entradas para a luz, a saída é rebatê-la para que alcance todo o imóvel. Durante a entrevista expliquei para o arquiteto José Augusto Conceição que uma parte da sala do meu apartamento é escura durante o dia porque a luz natural não chega lá. Sua solução foi simples: um tapete claro perto da varanda por onde entra a luz, para refleti-la no teto e fazê-la se espalhar com mais uniformidade no cômodo, inclusive no canto mais escuro.

Observar como a luz entra em sua casa é fundamental antes de tomar decisões sobre como utilizá-la. Ës vezes, basta mudar o tecido de um estofado, usar uma tinta clara na parede ou alterar a posição dos móveis. O segredo é prestar atenção e pensar em como adaptá-la para aproveitar tudo o que a luminosidade oferece. Porque não há nada mais gostoso que levar para dentro de casa a luz em seu estado mais puro.

Idéias luminosas
1 - Não confunda sol com boa iluminação. A luz direta pode manchar madeira, desbotar as paredes, descorar o tecido dos estofados e enfraquecer suas tramas. Onde bate muito sol, use persianas ou cortinas.

2 - O sol prejudica os eletroeletrtnicos. Nunca os deixe expostos à luz direta e evite ambientes muito quentes.

3 - Antes de pintar uma parede com uma cor forte, avalie se o tom escolhido vai escurecer o ambiente. Uma dica: quanto mais claro o espaço, maior ele fica - a claridade dá sensação de amplitude.

4 - Pintar uma porta de branco pode fazer toda a diferença num cômodo, assim como escolher tecidos claros e com poucas estampas para os estofados.

5 - Escadas devem ser bem iluminadas. Além do velho recurso de pintar a alvenaria dos degraus de branco, pode-se colocar um vidro ou janela para deixar a claridade entrar.

6 - Em corredores, quando for poss'vel, coloque um vitrt ou vidro. E opte por paredes claras para distribuir mais a luz nesse espaço.

7 - Dependendo da arquitetura da casa, a lateral de uma fachada pode refletir a luz externa para dentro do imóvel.

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