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O asceta moderno

Para o escritor e educador britânico John Lane, o futuro do mundo está na simplicidade

por Rodrigo Vergara | foto divulgação

Uma voz na contramão do discurso único do mercado e do lucro, o pintor, escritor e educador britânico John Lane tem mais a oferecer do que as tradicionais críticas ao nosso estilo de vida e aos anseios modernos de consumo. Com um olho voltado para o futuro do planeta e para a redução dos recursos naturais, Lane traz sugestões para mudar o curso dos acontecimentos. Mas, no lugar de soluções mirabolantes, Lane prega a simplicidade. "ter menos, viver mais" é um de seus mantras. E, de fato, alguns de seus argumentos causam reflexão. "Com o desenvolvimento tecnológico que temos hoje, deveríamos estar vivendo muito melhor", diz ele em um de seus livros, timeless Simplicity, Creative Living in a Consumer Society ("Simplicidade Atemporal, Vida Criativa em uma Sociedade de Consumo", inédito no Brasil). Mas quem é John Lane para dizer que estamos fazendo tudo errado? Bem, na verdade ele é uma espécie de autoridade no assunto. Lane foi presidente do Dauntington Hall trust, uma companhia britânica que desenvolve pesquisas e apóia projetos educativos, ambientais e sociais, e foi um dos criadores do Schumacher College, uma das instituições mais respeitadas no estudo da vida sustentável.

Qual a causa do descontentamento moderno?
As pessoas estão ligadas a metas de vida inalcançáveis. Os anúncios estão sempre nos dizendo que seremos mais felizes se escolhermos esse carro, essa nova cozinha. Dizem até que ficaremos mais atraentes se usarmos este xampu ou aquele desodorante. O consumismo e a pressão pelo sucesso estão criando uma epidemia de infelicidade para pessoas que não conseguem alcançar as metas colocadas à sua frente.
Isso é uma crítica ao capitalismo?
O capitalismo é a raiz de muitos problemas. Mas não tenho nenhuma alternativa em mente para ele. Na minha pequena cidade local, há duas lojas que vendem verduras, uma mercearia, uma livraria pequena e uma papelaria. Esses estabelecimentos prestam o serviço de que precisamos e também empregam muita gente. Mas com o crescimento da escala, das responsabilidades impessoais e das corporações possuídas por acionistas em vez de um indivíduo, nasce um novo objetivo: a maximização do lucro. O lucro se torna não só o alvo, mas a medida do progresso. Então são feitas coisas e desenvolvidos serviços que fazem dinheiro, mas não são exatamente necessários, e milhões de pessoas são empregadas para fazer e vender essas coisas desnecessárias e lucrativas.
Qual o problema?
O problema não é apenas a natureza sem alma do trabalho requerido para fazer isso. O mundo natural está sendo saqueado e despojado para fornecer material para essa manufatura. E o pior é que, se o processo parasse, haveria um desemprego em massa e a falência de toda a economia. Eu não vejo uma alternativa sustentável, mas sei que posso reduzir a poluição do planeta simplesmente tomando atitudes.
Como combater o desperdício?
O desperdício é essencial para uma sociedade baseada no consumismo - em uma economia capitalista, quanto mais consumo, melhor. No entanto, há medidas para aliviar o problema, e elas incluem reciclagem e desenvolvimento de produtos sustentáveis. Acredito que veremos desenvolvimentos tecnológicos maciços no campo da sustentabilidade. também há, cada vez mais, novas leis para controlar e inibir o desperdício e a poluição. Os governos têm um papel muito importante aqui.
O que cada um pode fazer?
Muita coisa, desde reduzir o consumo de futilidades até cozinhar com menos energia. Isso significa passar um pente-fino em nosso estilo de vida. Significa não apenas fazer a grande pergunta - "Eu preciso deste produto?" - , mas levar em consideração os pequenos detalhes, como aproveitar sobras de comida, tampar sempre a panela ao cozinhar alimentos (conserva o calor e consome menos energia) ou parar de comprar vegetais em supermercados (entre outras raz>es, por causa das embalagens supérfluas). Cortar extravagâncias diminuirá o desperdício.
A conquista da individualidade é uma bênção ou uma maldição?
Individualismo é tanto uma bênção quanto uma maldição, mas não em proporções iguais. É uma bênção porque nós não estamos algemados por velhas moralidades ou pelas tradições do passado. Podemos fazer o que gostamos do jeito que escolhemos, nos limites da lei. No Reino Unido, as pessoas usam todo tipo de roupa ou cortes de cabelo. Elas podem ser homossexuais e fazer abortos.
E o lado ruim?
É a solidão. Os idosos não são mais tratados com tanto carinho por seus filhos e netos. Eles são colocados em asilos ou casas de repouso. Os casamentos parecem estar cada vez mais temporários. As famílias não se reúnem mais à mesa para fazer as refeições. Em vez disso, os indivíduos comem em horários diferentes. E, mais sério que tudo, o indivíduo deve viver sem o apoio da família ou de uma instituição como a Igreja. Ele ou ela deve atravessar a vida sozinho. Essa situação debilita as pessoas.
Dinheiro traz felicidade?
A riqueza não pode oferecer a satisfação profunda fornecida por relações íntimas e amorosas, pela auto-estima, pela criatividade, pelo trabalho autovalorizado e pela fé. Estudos mostram que ganhadores de loteria levam um ano para voltar a ter o mesmo grau de felicidade que tinham antes de ficar ricos.
Mas alguma riqueza ajuda, não?
Precisamos de um kit básico de bemóestar material. Precisamos de comida, abrigo, segurança e saúde - coisas que milhões de humanos não têm garantido. Mas isso não basta. Para encontrar uma felicidade mais profunda, precisamos de oportunidades criativas para alcançar nossa natureza essencial. Ou, em outras palavras, para sermos nós mesmos, seja tocando música, jogando bola, confortando os que sofrem ou trabalhando por uma causa ambiental. Mas não é só. As pessoas também precisam amar e ser amadas e viver experiências de natureza transcendental, aquele tipo de experiência que se encontra na arte e na religião. Parece que as pessoas mais felizes são aquelas que encontraram a si mesmas ou então que se perderam em uma vida maior do que elas mesmas, que contenha possibilidade de renovação espiritual.
Como viver uma vida mais feliz?
Nós poderíamos ser mais felizes se fôssemos verdadeiros conosco. Mas fazer o que você acha que preenche você em vez de fazer o que os outros ou a sociedade esperam de você não é sempre fácil como parece, porque as pressões para que você se conforme podem ser muito grandes. É preciso força (ou inocência) para viver uma vida autêntica.
O que devemos ensinar às crianças?
Elas deveriam saber que este planeta é uma boa mãe, que tem fornecido comida, abrigo e todas as outras coisas necessárias para a vida. Mas, claro, isso tem limite. Existe um tanto, que deveria ser compartilhado por todos os 6 bilhões de humanos que estão agora vivendo sobre a superfície da terra. Eu diria às crianças que vivam da maneira menos egoísta possível, pensando no futuro, limitando a poluição que sua vida pode estar causando. Que prestem atenção a cada item que compram e tentem pensar sobre a quantidade de dejetos e poluição que estão causando.

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