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O que comemos interfere no que sentimos. Dito assim, parece espantoso, mas a verdade é que as pistas da relação entre comida e sentimento estão sobre a mesa há muito tempo. Que mãe nunca percebeu que dar de mamar a uma criança pode ser a diferença entre um choro irritadiço e um sorriso de prazer seguido de uma boa soneca tranqYila? E quem nunca viu uma acalorada discussão familiar se apaziguar depois de uma macarronada com almôndegas? A novidade é que recentemente a ciência invadiu a cozinha atrás de explicações mais detalhadas sobre os efeitos das panelas sobre o coração. Ainda falta desvendar muitos dos mecanismos envolvidos, mas as descobertas revelam que expressões como "ruminar problemas" ou "digerir acontecimentos " contêm muita sabedoria.
Um dos consensos entre os cientistas é a respeito de uma substância chamada serotonina. Para quem esqueceu as aulas de biologia, não custa lembrar que nosso cérebro é movido a impulsos nervosos: uma rede de neurtnios transmite sensações como cansaço, tristeza, euforia, ansiedade e por aí vai. Quem regula esse complexo sistema são substâncias chamadas neurotransmissores - a serotonina é uma delas. Otimismo, relaxamento e o sentimento geral de bemóestar estão diretamente ligados à disponibilidade dessa substância. tanto que pessoas em depressão geralmente têm baixa quantidade dela. Mas esse tempero da felicidade regula também diversas outras funções, como sono, nível de atividade motora, capacidade de aprendizagem e muito mais. Ora, e o que isso tem a ver com o que comemos? tudo: a matéria-prima para a fabricação de serotonina vem dos alimentos.
Veja o exemplo do velho e bom copo de água com açúcar. A antiga receita, dizem alguns médicos, funciona. E por um motivo simples: "O açúcar é rico em carboidratos, e estes estimulam a produção de serotonina", diz a nutricionista Andréa Bouvier, do Hospital Sírio-Libanês. Por ser absorvido rapidamente pelo organismo, mal ele entra no corpo, a máquina de serotonina começa a funcionar a todo vapor. Sabe aquela vontade louca de atacar uma caixa de doces? É uma mensagem do seu cérebro dizendo: "Ei, preciso de serotonina", segundo o casal de pesquisadores Richard e Judith Wurtman, do Instituto de tecnologia de Massachusetts, nos Estados Unidos. Pioneiros na pesquisa da relação entre alimentos e humor, os Wurtman constataram que refeições ricas em carboidratos são eficazes para pacientes com depressão e irritabilidade.
A essa altura, pode parecer que a serotonina é a solução para todos os humores, mas não é bem assim. Sim, ela dá sensação de bemóestar, mas em exagero ela provoca sonolência. tanto que pode atrapalhar sua concentração. Ou seja: uma macarronada cai bem no jantar e não no almoço - a não ser que você possa se dar ao luxo de tirar uma soneca. Durante o dia, a alternativa para reduzir a ansiedade sem cair de sono é um belo prato de alface, que tem no caule substâncias tranqYilizantes. "A alface provoca uma desaceleração da energia, mas mantém a pessoa num patamar de excitação", afirma Norvan Martino Leite, especialista em medicina chinesa de São Paulo.
Já falamos bastante de comidas que amenizam o estresse e a ansiedade. Mas e quando estamos molengas, sem vontade de fazer nada? Experimente um prato cheio de proteínas. Judith Wurtman afirma que elas deixam o cérebro mais alerta. Carnes, peixes, feijão e soja, portanto, são uma boa pedida no almoço. Mas atenção: as proteínas competem diretamente com os carboidratos, dificultando a formação de serotonina. Portanto, privilegie um ou outro em cada uma das refeições, de acordo com sua necessidade: se estiver irritadiço ou querendo descansar, prefira os carboidratos; se estiver muito melancólico e precisar produzir, aposte nas proteínas.
Esse papo de química cerebral o deixa mal-humorado? Não se avexe. Há interpretações bem menos cartesianas para a dinâmica da dupla comida/humor. Os antroposóficos, por exemplo, acreditam que alguém que esteja deprimido deve evitar cogumelos, por exemplo. "Eles crescem em lugares escuros e úmidos", afirma Cecília Quaresma, nutricionista da Clínica Artemísia. Norvan Leite explica o cerne da questão. "Os ocidentais arrancam a planta, levam ao microscópio, tiram um extrato, vêem quais as substancias químicas presentes e observam suas reações no corpo. O oriental senta e fica observando essa planta, como e onde ela se desenvolve, se é no verão, no inverno, se gosta de luz etc."
Portanto, para alguns estudiosos a história de um ser vivo influencia a pessoa que o ingere. Seguindo esse pensamento, a carne de que acabamos de falar está impregnada da energia do animal. Por um lado, isso pode significar agressividade. Mas, por outro, pode ser o impulso que todo animal tem de lutar pelo que quer. Esse instinto animal é tão importante em alguns momentos da vida que até mesmo os médicos antroposóficos, adeptos de uma alimentação ovolactovegetariana, abrem exceções em casos especiais: "Uma pessoa apática, que vive avoada, precisa consumir carne até por prescrição médica", diz Cecília.
Bem, se não dá para tomar café toda hora, o que fazer quando bate aquela preguiça ao longo do dia? Mate-a com um molho apimentado na sua salada de alface, por exemplo. Segundo Andréa Bouvier, o mesmo componente que provoca o sabor ardido ajuda o corpo a fabricar endorfinas. A nutricionista antroposófica Cecília concorda: "A pimenta é quente, traz euforia. Se você estiver numa fase mais triste, pode usá-la para provocar esse calor e agitação".
Há muito mais surpresas picantes no reino dos alimentos. O ômega 3, encontrado principalmente em peixes, tem mostrado resultados incríveis em casos de depressão, por exemplo. Selênio também. Estudos mostram que eles facilitam o trânsito dos neurotransmissores de alguma forma. Mas não são apenas os cientistas que podem ajudá-lo a compor uma dieta alto astral. Pesquise você também, percebendo como seu organismo reage a determinados pratos. "tudo depende de cada pessoa, do seu ritmo de vida e até de situações do dia-a-dia", diz Andréa. A dica final é: abra os olhos para a alegria que traz uma alimentação adequada e, depois de escovar os dentes, aproveite e abra também um belo sorriso.
banana - Melhora o humor. Coma uma ou duas bananas maduras por dia - de preferência sem misturá-las a outros alimentos.
massas e grãos integrais - Dão uma sensação de bemóestar duradoura, porque têm carboidratos complexos, que são digeridos lentamente, sem provocar altos e baixos de humor.
leite - Beber leite morno antes de dormir faz sentido. O leite é rico em uma substância chamada triptofano, que é o principal precursor da serotonina, que tem efeito relaxante.
pimenta - A sensação de ardor na língua faz o cérebro liberar endorfina, que traz bemóestar e excitação ao mesmo tempo.
peixes - Salmão, atum, anchova são indicados para casos de depresão porque contêm um tipo de óleo, o ômega 3, que facilita o trabalho dos neurotransmissores.
alface - No caule da alface há duas substâncias que agem como calmantes naturais.
café - A cafeína é poderosíssima como estimulante. Mas uma dose alta pode aumentar o nervosismo.
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