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Albert Einstein

O físico alemão que revolucionou a ciência também era um pacifista que buscava a fórmula de Deus

por Alexandre Versignassi | fotos Gustavo Duarte

Biblioteca do Congresso Americano, Washington, 28 de maio de 1940. O jornalista americano Robert Trout se prepara para entrevistar Albert Einstein. Àquela altura, durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), o alemão estava no auge de sua militância pacifista. E o jornalista resolveu botar Einstein na parede. Lembrou que a violência, do ponto de vista científico, é entendida como parte da natureza humana. Não seria ingenuidade, então, um cientista brigar pela utopia do fim das guerras?

Einstein rebateu: "Essa natureza humana que gosta da guerra funciona como um rio. É impossível mudar a natureza de um rio. Mas, se ele causar enchentes toda hora, destruindo casas e vidas, a gente faz o quê? Fica de braços cruzados choramingando: 'Oh, não podemos mudar a natureza do rio'?" O jornalista respondeu que não: "Fazemos uma represa, por exemplo". Einstein sorriu: "Então. Do mesmo jeito que usamos a razão para barrar um rio, podemos usá-la para frear a desconfiança, o medo e a cobiça que movem as pessoas e seus governantes".

Esse era Albert Einstein, o homem que selou o fim da Segunda Guerra. Não com suas parábolas pacifistas, mas com uma invenção que, no fundo, nasceu em suas anotações há exatos cem anos: a bomba atômica. Soa irônico, mas o estouro da arma mais mortal de todos os tempos ajudou a provar que as idéias de Einstein estavam certas. Sua Teoria da Relatividade mostrava, entre outras coisas, que somos feitos de energia pura. De muita, aliás: qualquer lasca de unha ou dente de leite contém tanta energia que teríamos uma explosão capaz de destruir uma cidade se alguém conseguisse extrair essa energia que está no coração de toda matéria. O problema é que conseguiram. E usaram essa força descomunal para arrasar Hiroshima e Nagasaki em 1945. Involuntariamente, Einstein colaborou para a morte de milhares. Era a última coisa que ele imaginava para si.

Desconstruindo Albert
O uso da ciência no campo de batalha enojava o alemão. Durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), Einstein morava em Berlim e via com desgosto a atitude de seus colegas: a maior parte dos cientistas alemães estava envolvida na fabricação de armas. Para Einstein, eles se tornavam psicopatas. "As pessoas mais responsáveis e generosas que eu conhecia ficaram perversas. É patológico. Elas estão se comportando como na época em que havia julgamentos de bruxas e outras perversões", escreveu em 1916.

O alemão, por sinal, conheceu essa "patologia" social bem cedo. Quando entrou no primário, em Munique, era o único menino de origem judaica. Sua escola era liberal para os padrões da época, mas os alunos, não. "Sofrer ataques físicos e insultos na volta para casa era comum. Isso consolidava a sensação de que você não passava de um marginal", lembrou anos depois.

Passar por isso era especialmente complicado para o introspectivo Albert. Ele era tão fechado que, aos 3 anos, ainda não falava. Passou o começo da infância isolado em casa, entretido com quebra-cabeças e montando castelos de baralho altíssimos, como lembraria depois sua irmã Maja. Nunca brincava com os meninos da rua. Seu mundo interior lhe bastava.

Tanto que sua maior recordação de infância não tem a ver com outras pessoas, mas com uma idéia que lhe passou pela cabeça: "Fiquei maravilhado quando meu pai me mostrou uma bússola. O fato de a agulha apontar sempre para o mesmo lugar me mostrou que havia algo escondido por trás dos objetos". E havia, como ele revelaria ao mundo 20 anos depois.

Funcionário público
Aos 16 anos, Einstein sabia mais matemática e física do que qualquer aluno universitário, mas só poderia ingressar na faculdade aos 18. Nessa época, foi apresentado ao diretor da Escola Politécnica de Zurique, na Suíça, como um "menino pródigo", para tentar um lugar no ensino superior antes do tempo. Não deu: o diretor pediu que Einstein estudasse pelo menos mais um ano. Foi o que fez. Nesse tempo, morou com um casal de amigos de um amigo, os Winteler, com quem manteve amizade pelo resto da vida e cuja filha, Marie, foi sua primeira namorada. Albert e o mundo exterior começavam a estreitar seus laços.

No ano seguinte, 1896, entrou na Politécnica e foi morar em Zurique. Continuava introspectivo, mas estava longe de ser um ermitão. Sua habilidade com o violino garantia a atenção feminina. O rapaz manjava. Um professor chegou a dizer que "o único estudante aqui capaz de tocar uma sonata de Beethoven com sentimento é Einstein". Pudera: o violino funcionava como uma muleta emocional desde a infância. "Só com ele eu digo e canto para mim mesmo coisas que, em pensamentos sóbrios, nem admito", escreveu para uma colega pianista.

O violino e uma mesada bancada por tios ricos lhe garantiam uma vida sossegada. Em 1900 ele estava formado em matemática e física. E a folga acabou: era hora de arranjar um emprego.

A melhor coisa que apareceu foi um cargo de funcionário público, em 1903, como "expert de terceira classe" no Escritório de Patentes de Berna, na Suíça. Um trabalho burocrático: Eisntein tinha de estudar projetos de engenharia e ver se os trabalhos mereciam ser protegidos pela lei de patentes. Nada muito excitante. Mas o salário era razoável: permitiu que ele se estabelecesse em Berna e juntasse os trapos com a namorada da faculdade, Mileva Maric, futura mãe de seus filhos.

Agora ele tinha conhecimento técnico suficiente para fazer pesquisas de ponta. Mas, enquanto os outros cientistas faziam isso em universidades, trocando idéias e informações o dia todo, o burocrata estava preso numa repartição.

Cogitou desistir da ciência. Mas, de vez em quando, olhava a coisa pelo lado positivo. "A vida acadêmica traz uma compulsão de produzir mais e mais trabalhos científicos. Aqui, pelo menos, posso me concentrar nos meus problemas favoritos." E o que não lhe faltavam eram "problemas favoritos". Só em 1905 ele apresentou quatro teorias que redefiniriam os rumos da ciência. A primeira mostrava como medir o tamanho de átomos - numa época em que a existência deles ainda não era consenso. Outra indicava que a luz era feita de partículas. A terceira, e mais arrebatadora, era a Teoria Especial da Relatividade, que iria virar o mundo de cabeça para baixo (leia texto na pág. 38). A última era "só" um adendo à Relatividade mostrando que matéria e energia eram, no fundo, a mesma coisa - a base teórica para a bomba atômica. Isso porque ele estava pensando em pendurar as chuteiras.

Popstar da física
Mas ele só se livrou do Escritório de Patentes em 1909, quando foi convidado para ser professor na Universidade de Zurique. Cinco anos depois, a Universidade de Berlim ofereceu-lhe uma oportunidade única, um emprego em que ele teria que dar palestras de vez em quando e teria o resto do tempo para dedicar à pesquisa. Perfeito, não fosse um probleminha: a Primeira Guerra Mundial.

Einstein era um pacifista xiita: não era só contra armas, abominava até os esportes - nem xadrez quis aprender, porque não se sentia confortável com a idéia de competir com alguém.

A mobilização patriótica dos alemães diante das primeiras vitórias acabava com ele: "Numa hora dessas, vejo que triste espécie animal nós somos. Sinto um misto de piedade e de repulsa".

Foi nesse clima que Einstein terminou seu maior trabalho científico: a Teoria Geral da Relatividade, que redefinia a maior das teorias científicas até então, a Lei da Gravitação, de Isaac Newton (1642-1727). A gravidade, disse o alemão, não é uma força, mas o resultado de uma geometria invisível do espaço. Os corpos fazem o espaço à sua volta "entortar", como uma bola de boliche sobre a cama entorta o colchão. Com os planetas e estrelas é a mesma coisa: eles curvam o "colchão" invisível do espaço. Em 1919, observou-se que raios de luz de algumas estrelas pareciam "cair" em direção ao Sol. Segundo Newton, isso era impossível - raios de luz não têm peso, então não cairiam. Mas, para Einstein, não tinha mistério: os raios não estavam caindo. O Sol é que entortava o espaço em volta dele, fazendo os raios de luz desviarem do seu caminho. Einstein tinha desbancado Newton. Em 7 de novembro daquele ano, o Times, de Londres, dava na manchete: "Revolução na ciência - nova teoria do Universo - idéias newtonianas derrubadas". E o obscuro professor alemão era apontado como o homem mais inteligente da Terra.

A fama lhe garantiu status de mito e vida de popstar. Estava sempre em "turnê" pelo mundo, dando palestras. Era tão fotografado que chegou a preencher numa ficha de hotel: "Nome: A. Einstein. Profissão: Modelo". Fazia sentido, já que era bem mais conhecido que suas teorias. E ainda é. "A diferença entre mim e você", disse ele certa vez a Charles Chaplin, "é que o público te entende".

A busca por Deus
Na década de 30, a ascensão do nazismo fez da Alemanha um lugar perigoso para Einstein. E ele aceitou um convite da Universidade de Princeton para viver e lecionar nos Estados Unidos. Lá, deu início a seu último projeto científico: encontrar Deus. Ele queria chegar a esse elemento que une todas as coisas, achar o que existe em comum entre a matéria, o tempo, a geometria invisível do espaço, a estranha força que mantém os átomos unidos e os ímãs presos nas portas das geladeiras, tudo, enfim. A busca por essa teoria unificada afastou Einstein dos outros cientistas, preocupados com questões mais pé-no-chão. Nos anos 40, em Princeton, ele chegou a escrever a um amigo: "Tornei-me um velho solitário, mais conhecido porque não uso meias, e que é exibido em ocasiões especiais como uma curiosidade". E continuou assim até a morte, em 1955. Hoje, 50 anos depois, Einstein poderia se considerar vingado: a física trabalha justamente por uma teoria unificada. E ninguém é ridicularizado por isso. O alemão só não ficaria feliz se visse o arsenal atômico do planeta, como ele mesmo deixou claro: "Se eu soubesse que iam fazer a bomba, teria virado sapateiro".
Entenda a teoria
De sua mesa no Escritório de Patentes de Berna, Einstein concluiu que o tempo não é aquilo que parece. Para ele, nossos corpos funcionam como "máquinas do tempo": viajamos para o futuro sempre que andamos. Quanto maior for sua velocidade, mais longe vai para o futuro. Isso mesmo. A gente não percebe porque as velocidades do dia-a-dia são pequenas. Mesmo num jato, você vai viajar só alguns trilionésimos de segundo para o futuro. É pouco. Então ninguém percebe a viagem no tempo. Só daria para notar se aumentasse muito a velocidade. Mais exatamente para perto de 1 bilhão de km/h. Se alguém desse umas voltas no quarteirão num pique desses, pularia 10 ou 20 anos para o futuro num piscar de olhos. Isso só serve para ilustrar, claro, já que não existe avião ou foguete tão veloz. O que interessa é outra coisa: Einstein viu que cada pessoa, cada objeto caminha para o futuro num ritmo diferente. Percebeu que, quando um motorista de ônibus chega em casa depois do batente, por exemplo, ele está frações de segundo no futuro em relação à sua mulher, que não passou o dia a 60 km/h. E aí vem a sacada: cada pessoa vive num tempo próprio. Nenhum relógio marca a mesma hora. Nada no mundo é simultâneo.

O motorista não percebe, mas ele fica sabendo do fim da novela uma fração de segundo antes da sua mulher. Passado, presente e futuro dependem do ponto de vista. Não é à toa que a teoria ganhou o nome de "Relatividade". O menino que vivia em seu universo interior descobriu que o mundo de fora era uma ilusão.

Para saber mais

• Como Vejo o Mundo,
• Albert Einstein, Nova Fronteira, 1981
• Einstein: a Biography, Albrecht Folsing, Penguin Books, 1998
• O Universo Elegante, Brian Greene, Cia das Letras, 1998
• Einstein e a Relatividade,
• Paul Strathern, Jorge Zahar, 1998

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