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Guerreiro sossegado

Para Shi Yong Xin, o kung fu serve para espantar a violência e trazer calma e paz de espírito

por Marcia Bindo | foto Marcia Bindo

Há 1500 anos, os monges budistas que viviam isolados no templo Shaolin, no norte da China, desenvolveram uma técnica de defesa para proteger seu mosteiro de ataques e aprimorar o treino de meditação. Nascia o kung fu. Desde então, o templo esteve praticamente fechado aos olhares curiosos e cercado de mistério. Só a partir de 1987 os monges guerreiros deixaram a montanha sagrada de Song Shang, onde fica Shaolin, para mostrar sua arte marcial ao mundo. E o templo, onde só os monges entravam, hoje recebe cerca de 2 milhões de visitantes todo ano. "Esse intercâmbio cultural é uma maneira de mostrar um pouco da cultura milenar chinesa, que é muito rica", diz Shi Yong Xin, 40 anos, líder do templo Shaolin, onde vive desde a adolescência. Apesar do assédio, ele afirma que a vida dos monges continua como há 15 séculos.

Mais ou menos. Na última excursão pelo mundo, os monges estiveram no Brasil, em novembro, para apresentar rituais budistas e coreografias de luta. Demonstraram autocontrole em incríveis testes de resistência, como sustentar o peso do corpo com apenas dois dedos das mãos, quebrar barras de ferro com a cabeça e serem suspensos no ar por cinco espadas afiadas. Mas não resistiram a tudo. Ao desembarcar no aeroporto de São Paulo, portavam câmeras fotográficas, filmadoras e outros apetrechos da modernidade. Leia a seguir a entrevista concedida por Xin.

Como o Shaolin ficou tão conhecido?
Shaolin foi construído em 495 na montanha Song Shang, no norte da China, onde era o centro econômico e cultural do país na época. Ele sempre foi considerado o templo budista mais importante do país e até hoje é referência para os mestres budistas da Ásia. Foi lá que se desenvolveu a primeira arte marcial de que se tem história, o kung fu. Quando se espalhou pelo mundo, ele acabou divulgando também a tradição do templo.
Qual é a origem do kung fu?
Tudo começou quando um monge budista indiano conhecido como Bodhidharma decidiu viajar para a China para difundir o zen-budismo. Ele acabou sendo aceito pelos monges do templo Shaolin, que passavam dias sentados transcrevendo textos budistas. Bodhidharma ensinou a eles exercícios físicos para ganharem mais saúde, força e energia. Aos poucos esses exercícios foram sendo aprimorados e ganharam o nome de kung fu.
Qual é o caráter da luta?
Como o templo Shaolin era muito grande, os monges budistas começaram a desenvolver o kung fu como luta para defender o templo de ataques externos e para proteger o patrimônio e suas tradições. A inspiração veio da observação da natureza e dos animais - por isso existem movimentos do tigre e da garça, por exemplo. Mais tarde o kung fu viajou para várias regiões da China e foi incorporando técnicas diferentes. Hoje existem mais de 400 estilos da luta.
Para que praticar?
Para ter mais saúde, tanto física quanto espiritual. O kung fu é uma técnica muito refinada que traz valentia e bem-estar. Aparentemente parece que a pessoa está praticando uma ginástica, uma luta, com todos aqueles chutes e gritos. Mas, na realidade, a prática é introspectiva, os movimentos ativam a energia interna, algo que não se consegue enxergar. Pode até parecer que é uma técnica violenta, mas com o tempo o que acontece é que adquirimos mais disciplina mental, tranqüilidade e calma.
Como é o dia-a-dia no templo?
Dentro do templo vivem cerca de 200 monges, a maioria homens. Acordamos bem cedo, às 4h, para praticar meditação. Depois fazemos algumas cerimônias religiosas, leituras e orações do zen-budismo. Os monges jovens praticam cerca de quatro horas de kung fu. Os mais velhos, duas. Mas alguns monges só estudam budismo. Às 7h tomamos café-da-manhã e abrimos o portão do templo às 8h, para receber visitas e monges de todo canto da Ásia. Depois das 18h ninguém mais come e às 22h estão todos na cama. Em 1983 o governo chinês decretou Shaolin o principal templo budista da China - ele não é um ponto de atração turística, mas um lugar espiritual. Claro, ele está aberto para visitas, mas não é um museu, continua ativo.
O treino é puxado?
Existe um velho ditado chinês que diz o seguinte: os três primeiros meses você treina a luta, mas depois de três meses é a luta que treina você. Quer dizer, se parar de praticar você sentirá falta e até necessidade de praticar, por que faz muito bem para o corpo físico e para a mente.
O que significa a palavra kung fu?
Para mim, kung fu significa meditação. Literalmente pode ser entendido como tempo, esforço e persistência que traz sabedoria. Faz parte da meditação, já que nessa arte marcial aprendemos a controlar nossa energia. Há uma ligação direta: a meditação é uma ferramenta para aprimorar a luta, e a luta ajuda na prática de meditação.
Bruce Lee ajudou a divulgar a luta?
Ele só divulgou a parte mais artificial e física da luta. Isso foi uma coisa ruim, pois não mostrou a parte principal, que é o aprimoramento da mente e do espírito. Mas teve seu lado positivo, os filmes acabaram espalhando o nome e a imagem do kung fu nas salas de cinema do mundo inteiro. Com isso, multiplicou-se o número de adeptos e praticantes, o que é bom, porque certamente quem pratica acaba adquirindo mais força interior.
O que é vida simples para você?
Vivê-la da melhor forma possível e aceitá-la do jeito que ela é. Não viver na ilusão daquilo que não está ao seu alcance. A simplicidade está em viver dentro das suas possibilidades. Dentro de um ambiente mais simples, onde não há tantas preocupações, acredito que isso é mais fácil. O grande desafio está na vida fora do templo, com todos os problemas e dificuldades que existem

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