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Tudo conectado

O que cada um faz dentro de casa tem grande impacto no resto do mundo, segundo a permacultura

por Eduardo Petta | instalação Marcio Guarnieri | foto Gustavo Lacerda

Você reparou nas manchetes mais recentes dos jornais? Racionamento de água, poluição, apagão, rodízio de veículos, aumento no preço do petróleo, aquecimento global, queimadas. São problemas que afetam o nosso dia-a-dia e estão conectados com o consumo e hábitos da vida moderna. E, quer saber? Eles começam no seu quintal. No cesto de lixo da sua casa, no porta-malas cheio de sacos de supermercado que você descarrega em casa. Sim, isso tem muito a ver com você. Sua moradia não acaba no muro da sua casa ou na porta do seu apartamento. Ela vai além. Você mora em uma cidade, em um país, neste planeta. E, olhando desse ponto de vista, convenhamos: esse seu quintal anda bem mal cuidado, não?

É assim que sua casa é enxergada pela permacultura, uma filosofia ou ciência criada nos anos 70 pelo australiano Bill Mollison. Sua idéia era criar ambientes humanos sustentáveis, baseados na observação da natureza e na sabedoria contida em sistemas produtivos tradicionais. Ou seja, Bill copiou o que a natureza faz por si só, aliou a isso o que faziam nossos avós (e algumas culturas menos globalizadas), adicionou tecnologias limpas e batizou sua tese de permacultura, que quer dizer cultura permanente, aquela que dura, tem vínculo, ética e harmonia com a terra, que não é descartável, que não é imediata, não é efêmera e, melhor de tudo, não polui.

Mas logo o australiano percebeu que, para que a coisa fosse realmente sustentável, era preciso ir além. De nada adiantaria essa ética de cuidar da Terra sem incluir o cuidado com as pessoas e suas necessidades essenciais. Era preciso enfiar todo mundo na conta. A partir daí, Bill formatou uma série de princípios (leia a lista completa na página ao lado) que valem para todas as relações humanas, seja com outras pessoas ou com o meio ambiente. A espinha dorsal da idéia é uma espécie de avesso da globalização. Em vez de grandes deslocamentos de alimentos, combustíveis e materiais de um lado para o outro, Bill pregava a otimização dos recursos locais, numa lógica claramente preservacionista, pensando sempre nas conseqüências em longo prazo e nas futuras gerações.

O problema é a solução
Eis um resumo do modo de ver da permacultura, nas palavras do arquiteto Marcelo Bueno, diretor do Instituto de Permacultura da Mata Atlântica (Ipema): "O que a permacultura estimula, resumidamente, é um novo estilo de vida, mais simples, mais próximo do natural, com menos consumo e mais auto-suficiência do ser humano. Precisamos diminuir o impacto do ser humano na natureza. Construir sem destruir, resolvendo os problemas localmente, utilizar materiais recicláveis e ecologicamente corretos, economizar energia, consumir objetos que utilizem tecnologias renováveis e tantos outros exemplos".

Marcelo é o que se poderia chamar de um permacultor que faz a lição de casa. O lixo, por exemplo, para ele não é problema. "Separo tudo, vendo uma parte, reutilizo outra. Também procuro produzir o mínimo possível de resíduos, evito saquinhos de supermercado (levo minha própria sacola), vou mais à feira que ao supermercado e tento comprar somente produtos in natura, de preferência orgânicos". No telhado de sua casa, dois sistemas artesanais de energia solar aquecem os banhos: um deles, uma engenhoca com mangueiras pintadas de preto que passam por dentro de um pneu. Toda a água da casa é filtrada com pedras, barro e tanques de água e depois reutilizada para regar seu jardim, que está cheio de plantas comestíveis. Boa parte de sua água ele capta da chuva. Marcelo tem até um banheiro seco, onde o dejeto humano é misturado com serragem e folhas e vira adubo para suas hortaliças. "Não são dejetos humanos, são recursos humanos. Aprendi com a permacultura que podemos transformar nossos problemas em soluções se trabalharmos com eles e não contra eles. Reduzi minha dependência de abastecimento de água, luz e comida e ainda gasto menos dinheiro", diz o arquiteto.

Cada um, cada um
Pois é. Aqui em vida simples a gente sempre tenta ver as coisas pelo lado positivo, mas nesse caso tem uma verdade da qual ninguém escapa: para ter a consciência ambientalmente limpa, é preciso se mexer e dar alguma cota de sacrifício pessoal. Sim, porque não é sustentável esse padrão de conforto desfrutado por você - que tem poder aquisitivo para comprar esta revista - ou eu, desculpe lhe dizer. A conta pelos abusos, como mostram as manchetes, está chegando. E a dívida só tende a aumentar.

A boa notícia (a gente sempre arranja uma, né?) é que existem infinitas formas de ajudar, e certamente haverá uma que lhe agrade. Nem todo mundo se dispõe, como o Marcelo, a transformar sua morada e sua vida em atos conscientes, buscando sustentabilidade. Nesse ponto, a permacultura tem uma vantagem: por partir da observação da natureza, ela busca a solução caso a caso. Cada um deve procurar suas respostas de como diminuir o impacto na natureza no próprio cotidiano. É uma proposta aberta, ou, uma metamorfose ambulante, como diria Raul Seixas (como não citar Raul em um assunto desses?).

"A permacultura não é um saber específico, não criou um caminho, mas jogou luzes nesse caminho. Essas luzes são alguns princípios e atitudes que a permacultura formulou e que podem orientar nossas ações", diz a engenheira agrônoma Cristiana Reis. "Cada, pessoa, clima, comunidade, ou região exige uma resposta diferente. É observar a natureza e praticar, em qualquer lugar que você esteja ou more."

Diminuir o impacto
Segundo Cristiana, a permacultura é para todos. "Mesmo que você more num quarto e sala, dá para fazer muita coisa útil, como uma horta com vasinhos na janela, ou cultivar plantas que agüentem ficar sem luz direta do Sol, como as orquídeas." Para ela, o contato com a terra acaba nos conectando ao ritmo da natureza, da qual fazemos parte, afinal. "É legal para visualizar o processo dos alimentos crescerem. De onde vêm e para onde vão. A comida não cresce no supermercado, mas na terra."

Começar com uma hortinha é fácil, mas, segundo Cristiana, a permacultura é muito mais do que horticultura. "Ela depende de atitudes que reduzam o impacto ambiental." A partir desse raciocínio, toda boa idéia criada pelos nossos antepassados ou por cientistas são válidas, como reciclar o lixo, utilizar lâmpadas econômicas, tomar banhos rápidos e desligar a torneira ao barbear-se. Cristiana sugere estender essas atitudes para o cotidiano. "Dê carona. Ande a pé. Seja menos materialista, compartilhe seus eletrodomésticos, suas ferramentas, enfim, faça troca de gentilezas com seus vizinhos."

Cooperar x competir
A agrônoma Ananda Vieira sugere reunir os vizinhos do prédio, da vila ou do bairro e fazer mutirões nas áreas comunitárias. Em vez do tradicional gramadão com árvores paisagísticas do jardim do prédio, Ananda aconselha plantas comestíveis, árvores frutíferas e uma horta comunitária. "Pode-se aproveitar e fazer uma composteira para que todo lixo orgânico do prédio seja transformado em adubo para o jardim."

Pelo mundo afora não faltam bons exemplos de permacultores urbanos. Em Tóquio, virou mania a cobertura verde dos prédios. Em Havana, os quintais das casas abastecem boa parte da demanda por hortaliças da cidade. Pode parecer pouco, mas uma idéia dessa reduz o impacto do transporte e armazenamento e poupa os recursos gastos em embalagem, por exemplo. Em Los Angeles, um grupo de permacultores resolveu sair pelas ruas, cuidando de canteiros e praças, transformando os espaços, criando beleza e envolvendo a comunidade.

"A permacultura tenta revitalizar as trocas humanas, ao invés da solidão criada pelas cidades. Trabalhar com cooperação ao invés de competição, altruísmo ao invés de egoísmo, com integração ao invés de fragmentação, também são princípios da permacultura" diz Ananda. "Ao iniciar-se uma horta comunitária, estamos regando muito mais que plantas, mas a amizade entre as pessoas. Viver de forma mais comunitária é muito mais gostoso do que se trancar num casulo com o que é seu. E também é uma forma de resgatar atividades comunitárias, que podem se estender em noites de festas, regadas a roda, fogueiras, danças e cantorias, onde o lado lúdico é exercido, aumentando os laços de afetividade entre as pessoas. Para a permacultura, o tempo não é dinheiro, é arte. E o limite é a sua criatividade."

Não é novidade que estamos mais e mais conectados com o resto do planeta. Essa interconectividade é um dos pilares da permacultura. Nossa casa está no centro das nossas vidas e, por isso mesmo, é ali que começa a prevenção dos problemas do planeta. Cuidar do que entra e do que sai de casa faz, sim, diferença. É mais ou menos como diz um pensamento - ou seria uma poesia? - do filósofo chinês Confúcio: "Se há verdade no coração, haverá beleza no caráter; se há beleza no caráter, haverá harmonia na casa; se há harmonia na casa, haverá ordem na nação e, se há ordem na nação, haverá paz no mundo". Seu quintal é o mundo. Cuide dele.

Alguns princípios da permacultura
. crie seu jeito próprio - Nenhuma solução é universal, por mais engenhosa. Cada lugar tem seu clima, solo e comunidade, que exigem respostas diferentes. Nem esta lista de princípios é definitiva, muda de autor para autor

. o problema é a solução - Todo problema aponta para uma oportunidade. É tudo questão de enfoque. Que tal guardar o papel usado para usar como rascunho?

. resolva os problemas localmente - Assim, você e seu problema deixam de afetar os outros. Na hora de construir, por exemplo, use pedras e materiais abundantes na região em que você vive e economize transporte e combustível

. coopere em vez de competir Some esforços e gaste energia de maneira mais construtiva. Que tal dar passagem no trânsito, por exemplo?

. compartilhe os excedentes Dinheiro, comida, objetos e até conhecimento têm que circular. Caixão não tem gaveta. Dessa vida nada se leva

. limite seu consumo Antes de comprar, pesquise sobre o que você vai levar para casa e o impacto que isso pode gerar. Utilize ao máximo o que você já tem

. trabalhe com e não contra a natureza Antes, as florestas eram vistas como mato. Agora são fontes de recursos. Em vez de cimentar o quintal, faça uma horta

. pense nos netos Eles têm o direito de herdar um ambiente preservado

. observe e copie a natureza Para criar cada ambiente, a natureza já tentou e errou durante milhões de anos. Aprenda com esse conhecimento acumulado

. prefira energias limpas Energia solar ou eólica, que se renovam e não poluem, são melhores do que depender da energia que vem da rua

. feche os ciclos Quando começar a fazer algo, termine. Tudo que tem começo, meio e fim em uma propriedade não transfere problemas para a vizinhança

. diversidade traz estabilidade Essa vale para a agricultura: evite as monoculturas, que dependem de energia e emprego de máquinas e defensivos

PARA SABER MAIS

Livros
• Introdução à Permacultura, Bill Mollisson e Reny Slay, Ministério da Agricultura e do Abastecimento
• Permaculture - A Designers' Manual,
• Bill Mollison, Tagarí, Austrália
• Urban Permaculture - A Practical Handbook for Sustainable Living, David Watkins, Permaculture Publications
• The Permaculture Book of Ferment & Human Nutritions, Bill Mollison, Taguarí, Austrália

Na internet
• Ipec (Instituto de Permacultura e Eco Vilas do Cerrado) - www.permacultura.org.br/ipec/
• Ipema (Instituto de Permacultura e Eco Vilas da Mata Atlântica) - www.ipemabrasil.org.br
• Instituto de Permacultura da Bahia - www.permacultura-bahia.org.br/

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