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Sem drama

O mundo não se comportou como devia? Você passou vexame? Justo naquele negócio tão importante? E agora está difícil não ficar chateado? Isso acontece, mesmo

por Erika Sallum | montagens sobre fotos Getty Images

Sempre fui do tipo estressado. Daquelas pessoas ansiosas que entram em pânico pelo menor problema. Perfeccionista, não sou lá muito capaz de relaxar diante de desafios. Nunca me esqueço de quando, com uns 6 anos, tive de interpretar uma vela (uma vela, mesmo, daquelas de parafina e pavio) num auto de Natal da escola. Meus amiguinhos se divertiam a valer enquanto esperavam a hora de entrar no palco. Já eu passei dolorosos minutos tremendo dentro da fantasia de vela feita de cartolina, com medo de errar minha única fala. Queria que todos vissem o quanto tinha me empenhado para ser uma vela convincente... Essa sou eu. Daí meu espanto ao ser convidada para escrever esta reportagem. O tema não poderia ser mais inapropriado para mim: "Não leve a vida tão a sério". Cuma? Logo eu, que sofro por tudo?! Mas aceitei, achando que, talvez por isso mesmo, eu fosse a pessoa certa, para aprender e dividir meu aprendizado com você. E o que descobri está a seguir.

Entrevistei vários especialistas para compreender por que, afinal, esquentamos tanto a cabeça, muitas vezes sem necessidade. Conheci também pessoas que passaram anos fazendo da existência um fardo, mas que enfim despertaram e descobriram o prazer de brincar de viver. E descobri que: 1) essa encucação toda pode ser resumida em quatro problemas, que nos fazem levar a vida a sério demais (além, é claro, daquele que você já viu lá na capa: essa nossa obsessão em ver sentido em tudo, até em um anão de jardim); 2) há saída para todos eles.

Tanto que, após semanas de trabalho, sinto-me mais tranqüila. Ouvi respostas simples, porém profundas, que me fizeram questionar a maneira como encaro o mundo. Não é um processo fácil. Ainda neste momento, estou sofrendo sem precisar ("ai, será que vão gostar da reportagem?"), mas chego lá. Como diz Hugh Prather, em seu livro Não Leve a Vida Tão a Sério, "somos livres para mudar nossa linha de pensamento, bastar querer. É tão simples quanto guiar um carro numa estrada segurando com firmeza ou pousando levemente a mão no volante. A estrada continua sendo a mesma, mas podemos dirigir com esforço ou sem esforço".

Problema: tentamos evitar sofrimento a todo custo
Todo mundo sofre, todo mundo passa por momentos difíceis na vida. A morte de alguém querido, a perda de um emprego, um amor. Ninguém está livre disso, por mais rico, feliz ou bem apessoado que seja. Mas, numa sociedade cada vez mais pressionada por conceitos como sucesso e competitividade, parece que sofrer virou coisa de fracos. Vivemos numa ditadura da felicidade, em que é preciso estar sempre de bem com a vida, mesmo que o dia não esteja para euforia. "Na TV, nas revistas, nos anúncios, todos aparecem sorrindo. Criou-se uma espécie de tirania da alegria", diz o filósofo Emilio Terron, da Associação Palas Athena e do colégio Friburgo, de São Paulo. "Quem não se sente feliz que compre um antidepressivo ou se esconda em casa."

Com tudo isso, não é de estranhar que tentemos evitar a dor e o sofrimento a todo custo. Seja comprando carrões, fazendo psicoterapia ou conseguindo o maior número de amigos no orkut, aquele site de relacionamentos. Temos de seguir a lei do "seja feliz agora". Nessa busca incessante pela alegria, colocamos as tristezas embaixo do tapete e nos enchemos de ansiedade, angústia e cobranças. Pouco a pouco, perdemos a noção de que sofrer é normal e pode ser de grande valia, se soubermos lidar com as dificuldades.

Solução: aprenda com o sofrimento
Para começar, o sofrimento é um sinal de alerta de que algo não vai bem. É como uma febre, que pode significar tanto o começo de uma gripe como uma grave infecção. Tomar um antitérmico elimina o sintoma, mas todos sabemos que não dá para curar tuberculose com aspirina. O mesmo vale para o sofrimento emocional: são alertas de que algo incomoda. Desviar a atenção deles não vai solucionar sua causa.

Além disso, a dor emocional é uma alavanca para a solução de problemas. "O sofrimento é uma importantíssima via de transformação. Ele indica que não estamos 100% e que é preciso mudar", diz o psicólogo Esdras Vasconcellos, professor da Universidade de São Paulo (USP). A partir de um acontecimento ruim, pode-se dar uma virada para melhor. Muitas vezes não é possível enxergar a necessidade de mudança quando tudo está aparentemente bem. "A dor é condição essencial da existência humana", afirma Emilio. "Gênios como Nietzsche produziram obras-primas quando passavam por situações infernais. Do sofrimento pode brotar o caminho para a felicidade."

Foi num dos períodos mais difíceis de sua vida que o obstetra Rubens Paulo Gonçalves percebeu algo valioso, que carrega consigo até hoje. Há 30 anos, contraiu uma doença grave. Teve de ficar meses de cama, inativo, numa época em que trabalhava até 16 horas por dia para sustentar a família. "Ali, debilitado, vi que não era um super-homem, que não era tão onipotente como pensava. Compreendi que não preciso ser o primeiro em tudo e que não adianta se desesperar atrás do que se quer." Depois que entendeu isso, decidiu não se abater. "Só diante desse episódio triste é que entendi que tudo tem seu lado construtivo. Aí dei uma parada e passei a valorizar outros aspectos da vida."

Muitas vezes a tristeza surge de forma tão forte e toca bem lá no fundo dentro da gente, de um jeito tão insuportável que só mesmo isso para nos fazer mudar. A energia produzida pelo sofrimento, desagradável no início, pode ser o caminho de uma grande evolução. Bom, não? Basta não lutar contra a dor e aceitar o fato de que ela guarda um enorme potencial para nos tornar pessoas melhores e mais felizes

Problema: queremos controlar o destino
Você certamente já topou com um sujeito assim. Ele gosta das coisas do seu jeitinho. Sai do sério quando algo foge do roteiro que planejou e impõe seu ponto de vista, atropelando a todos. Enquanto tenta controlar o mundo, não vê, diante do nariz, a beleza transitória da vida. Ele não é o único. Somos todos um pouco parecidos. Alguns mais flexíveis que outros, há sempre uma hora em que, mesmo sem querer, tentamos controlar os acontecimentos ou os atos de outra pessoa, como se isso fosse nos proteger do imprevisível.

"Criamos a ilusão de que dá para adivinhar o futuro. Apegamo-nos a uma idéia de que podemos dominar o cotidiano. Quando algo não segue o previsto, perdemos o eixo", diz o psicoterapeuta Arnaldo Bassoli. "Essa forma de agir traz muito peso à existência. Faz com que levemos a sério coisas que estão além do nosso controle, que não deveriam ser fonte de preocupação."

Solução: aceite o imprevisível
Um interessante conceito budista diz que o Universo é impermanente. Ou seja, que tudo muda a todo instante. E, já que nada é para sempre (nem mesmo eu ou você), não há por que perder tempo tentando controlar a vida. É um conceito simples, mas profundo, e não é preciso ser yogue para compreendê-lo. "Temos de estar presentes no aqui e agora. Aceitar que o mundo se modifica continuamente é um passo importante para uma existência tranqüila", diz a monja Coen, da Comunidade Zen-Budista Zendo Brasil. Em seu recém-lançado O Livro das Emoções, a psicóloga Bel Cesar fala sobre o sofrimento que uma mente controladora pode provocar: "É natural contarmos com certo grau de previsibilidade para nos sentirmos seguros, mas, se não quisermos sofrer desnecessariamente, precisamos aceitar o fato de que não podemos controlar os eventos da vida".

Como identificar a tentativa de controle? Uma dica é examinar o sentimento que se esconde por trás da atitude. O controlador é movido por medo e insegurança. Na tentativa de planejar e prever o dia-a-dia, estamos escondendo nosso medo do desconhecido, do que não temos domínio. Outra dica é analisar os pilares sobre os quais você assentou sua paz de espírito. Se o alicerce desse castelo está fora de você, é mau sinal. Quem bota nos outros a responsabilidade pela própria felicidade corre grande risco de se desapontar. É fácil esquematizar o mundo, planejá-lo de acordo com nossas vontades e achar, nesse mundo virtual, o que queremos para nós. O problema é que raramente o mundo se comporta como esperamos.

A solução para esse enigma está mais perto do que se imagina: reside dentro de nós. Como dizia Gandhi, somos a transformação que queremos para o mundo. "Trazemos conosco todas as possibilidades para modificar o que não gostamos, principalmente em nós mesmos. As grandes mudanças começam de dentro para fora", diz a monja Coen.

O administrador Max Gehringer tem um amuleto anticontrole: um quadro imenso que guardou da época em que era supervisor de fábrica, onde ele desenhou milhares de quadradinhos para controlar algum processo industrial. "Levei horas de trabalho bolando o quadro. Mas mantê-lo atualizado era tão trabalhoso que eu o abandonei, e logo esqueci para que servia. Por isso, toda vez que me dá vontade de controlar algo, olho o quadro e delego responsabilidades." Como não dá mesmo para adivinhar o futuro, o melhor a fazer é tentar entender as diferenças entre você e os outros, aceitar seus medos e tentar transformar o mundo a partir de si.

Problema: damos importância demais aos acontecimentos
Responda rápido: qual foi a última vez que você perdeu o sono por causa de uma tarefa no trabalho ou uma briga com o parceiro? O motivo era realmente importante? Valeu a pena esquentar tanto? Provavelmente não. Todos os dias, somos bombardeados por problemas. Condicionamo-nos, no entanto, a levar tudo a ferro e fogo. Se o relatório que o chefe encomendou não ficou lá essas coisas ou o fim de semana não saiu como esperado, pronto. Além do sono, perdemos saúde e qualidade de vida. O psicólogo Esdras Vasconcellos realizou um estudo com cerca de 800 pacientes cardíacos do Hospital das Clínicas, em São Paulo. Submeteu todos a um questionário. Nada menos do que 94% deles responderam que levavam os afazeres do dia-a-dia a sério demais. "O corpo cobra de quem se estressa facilmente. Cada vez que nos preocupamos em excesso, descarregamos hormônios de estresse que afetam vários sistemas. Alguns desenvolvem alergias, outros, câncer. Poucos saem ilesos."
Solução: relativize os problemas
Há situações em que, obviamente, é preciso reflexão e seriedade: uma doença grave, por exemplo. Comparado a isso, um relatório com prazo para ser entregue fica pequeno, certo? Nem sempre. Há hoje uma ditadura do acerto, que proíbe qualquer erro. Então, na tentativa de não errar nunca, de corresponder ao que esperam de nós, degraus viram barreiras intransponíveis.

Muita gente acha que sofrer ajuda. Bobagem. "Preocupação não nos faz sentir mais confortáveis nem favorece melhores decisões", diz Hugh Prather. "Ela tira a concentração, distorce a perspectiva e destrói o bem-estar."

Então, para dar a dimensão adequada aos obstáculos, lembre-se da única certeza em jogo: só se vive uma vez (se você crê em reencarnação, melhor ainda. Para que penar por uma bobagem, tendo a eternidade para resolvê-la?). "Se você entra em contato com essa verdade, aceita que vai morrer, fica fácil relativizar os problemas", diz Ari Rehfeld, professor de psicologia da PUC de São Paulo. "Pare de ficar se lamentando e curta a vida, pois ela vai acabar logo."

Isso não significa jogar família e emprego para o alto e ir vender coco na praia. É possível viver mais leve mesmo diante das exigências do cotidiano. Presidente de uma multinacional, a Ryder do Brasil, o executivo Antonio Wrobleski Filho comanda 1100 funcionários e não raro tem de tomar decisões que envolvem milhões de reais. Foi-se o tempo em que ele se martirizava com tanta pressão e trabalhava feito um condenado. Todos os dias dedica um hora para fazer esportes, parou de levar trabalho para casa e, ao ser defrontado com um acontecimento que causa estresse, respira fundo e tenta decidir assuntos sérios somente quando está calmo. "Aos 50 anos, entendi que a vida tem de ser gostosa, caso contrário não vale a pena." O iatista Lars Grael, que perdeu a perna em um acidente de barco, diz que o trauma serviu para ele aprender a botar os problemas em perspectiva. "A vida é preciosa demais para perder tempo com lamentações", diz, em seu livro A Saga de Um Campeão.

Tente, pelo menos uma vez, fazer como o Antonio. Quando surgir um fato preocupante, respire fundo. Veja se o problema tem realmente a dimensão que parece ter à primeira vista. Pode não ser simples no início, mas, com esforço e persistência, os problemas aos poucos ganham sua real dimensão. Lembre-se de que tudo acaba. Inclusive os problemas. Inclusive a vida. Aproveite-a enquanto é tempo (ou você vai ficar aí parado enquanto ela escorre?).

Problema: damos muita importância a nós mesmos
Wellington Nogueira queria ser ator. Não um ator de teatro qualquer. Sonhava com Hollywood. Desejava ser reconhecido pela crítica, ter uma carreira brilhante. Mudou-se para Nova York, onde trabalhou e aprendeu bastante. Mas nada o satisfazia totalmente. "Eu queria ser grandioso, me dava uma importância exagerada. Levei isso tão a sério que me enchi de frustração", diz ele. Egos superdimensionados assim abrem espaço para muita dor de cabeça, é fato. Achamos que somos bons para caramba, que nossa opinião tem de ser escutada, que o que fazemos tem grande valor. Quando o reconhecimento esperado não vem, ficamos desapontados, arrasados de tanta decepção. O Universo parece injusto e tudo ao nosso redor fica pesado. Mas será que somos mesmos tão sensacionais? Nunca podemos errar ou ficar em segundo plano?
Solução: ria de si
O medo do ridículo faz com que a gente perca um ingrediente fundamental da vida: o bom humor. Quem quer botar banca demais acaba esquecendo o quanto brincar de viver pode ser maravilhoso - e divertido. Fez alguma besteira, cometeu um erro? Ora, peça desculpas e dê uma boa risada. "As pessoas estão muito sisudas e travadas, têm pavor de parecer ridículas. Caramba, somos todos um pouco ridículos, não?", afirma Hugo Possolo, ator e palhaço dos bons. Não somos perfeitos, nem precisamos ser "top" em tudo. Só esse fato já tira um peso enorme das costas. Em vez de ser o melhor, não incomodar ninguém e tentar agradar a todos, tentar apenas ser autêntico é uma boa e estratégica escolha.

Uma das formas artísticas mais geniais a nos mostrar isso é a comédia. No palco, vemos como podemos ser risíveis, grotescos até. "Na comédia, provamos que dá para olhar para um mesma situação de mil maneiras. Um fato trágico vira piada. O legal é que na vida também é assim, tudo pode ser interpretado com mais humor", diz Hugo. "No caminho de todo mundo, sempre pode haver uma casca de banana. Cabe a nós chorarmos ou rirmos pelo tombo. Eu prefiro a gargalhada."

Depois de passar anos frustrado, Wellington resolveu entrar para os Doutores da Alegria, um grupo de atores-palhaços que visitam crianças em hospitais. Ao lado de meninos e meninas doentes, mas cheios de esperança, descobriu o prazer de sua profissão e parou de querer impor seu "eu" a tudo. "Fui me tornando um ator melhor para as crianças, por causa delas, não porque meu ego pedia", diz ele. "Com elas, aprendi a rir de mim, a ser espontâneo. E, principalmente, vi que dá para aceitar a vida com mais leveza."

Chego ao final do texto com um sossego na alma e um sorriso nos lábios. Lembro da tal peça de teatro que me deu tanto medo, décadas atrás, e dou uma gargalhada. A fantasia de vela, feita de cartolina, hoje me parece piada, como o medo que senti ao começar esta reportagem. Que bom poder rir dessas situações que me pareceram tão apavorantes.

Para saber mais
• Não Leve a Vida Tão a Sério, Hugh Prather, Sextante
• O Livro das Emoções, Bel Cesar, Gaia
• A Arte da Felicidade, Dalai Lama e Howard Cutler, Martins Fontes
• Para uma Pessoa Bonita, Shundo Aoyama Rôshi, Palas Athena

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