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O palco está quase nu. Não há cenário, figurinos, grandes decorações. Apenas a presença da atriz. Mas que presença. Após 36 anos de carreira no teatro, a atriz Denise Stoklos precisa de cada vez menos efeitos especiais para se comunicar com o público. Ela se expressa por meio da linguagem do corpo, da voz - e do coração. "Me interessa mais a relação do artista com o que ele diz e com a mensagem que ele quer passar", diz. Esse conceito foi batizado pela atriz de "teatro essencial". "Vejo o teatro como um lugar para a reflexão, para atiçar e potencializar valores humanos como o amor e a liberdade." A atriz começou sua carreira aos 18 anos em sua cidade natal, Irati, no Paraná. Formou-se em jornalismo e ciências sociais antes de mergulhar de cabeça no teatro. Em meados da década de 70 viajou para a Europa, morou em Israel, Alemanha e Londres, onde se especializou em mímica e expressão vocal. Em suas peças, Denise busca provocar uma viagem interior no espectador. Em seu espetáculo mais recente, Olhos Recém-Nascidos, Denise faz um exercício de quietude. Sentada atrás de uma mesa, ela realiza apenas cinco movimentos - e ainda assim consegue prender a atenção e levar o espectador para dentro de si.
Quando você decidiu ser atriz?
Já na infância, na minha cidade natal, no sul do Paraná. Lá não tinha teatro, eu assistia cinema, as comédias brasileiras feitas por aqueles cômicos maravilhosos: Oscarito, Dercy Gonçalves, Grande Otelo. Eles eram atores populares que satirizavam os valores burgueses. Uma inspiração para mim, que fui criada em uma família de imigrantes que cultivavam a generosidade e o afeto e não davam importância para posses e poder.
O que é o teatro essencial que você desenvolveu?
O teatro essencial surgiu da minha tentativa de levar o espectador à reflexão das coisas mais essenciais à sua vida. Os gregos entendiam o teatro como um elemento curativo dos males da alma, como a falta de compaixão.
A história diz que os médicos receitavam teatro junto a poções. A idéia é que o teatro essencial possa deixar as pessoas mais energizadas para sua luta por dois pilares fundamentais à vida: liberdade e amor.
Por que você diz que o amor é o pilar da sua arte?
Amor é o que faz as coisas terem sentido. Foi na maternidade, quando eu tive meus dois filhos, a Thais e o Piatã, que eu compreendi isso. Entendi que eles não eram uma posse minha e que, quanto mais leite eu dava, mais leite eu tinha. Eu queria que eles ficassem bem, sempre aconchegados, bem alimentados, que todo mundo gostasse deles. Então, fatalmente eu comecei a fazer isso comigo também. Porque, para eu proporcionar isso a eles, eu precisava realizar isso em mim: me respeitar e me cuidar. O que pode fazer uma sociedade equilibrada é essa relação fraterna, de querer que o outro fique tão bem quanto você.
Como é a interação com o público?
O teatro que eu faço acaba interessando àqueles que estão em busca de novos valores - que no meu entender são a maioria das pessoas. Simplesmente porque quem manda no mundo é uma minoria que mantém essa estrutura do jeito que está. A maioria está sofrendo com a rebarba desse sistema. Quando termino a peça sinto que boa parte do público sai de lá mais forte para buscar novos caminhos. Mas, claro, existem as pessoas que eu chamo de impermeáveis, aquelas que não estão interessadas em refletir no porquê de a sociedade estar assim.
Você propõe caminhos?
Não, porque essa não é a função da arte - o que faço é uma espécie de ritual onde as pessoas podem se encontrar para refletir. Como eu sou minha própria produtora, sou eu quem escreve, dirige e atua, minhas peças nascem daquilo sobre o que eu sinto necessidade de falar. Grande parte do meu processo criativo acontece através da intuição - eu procuro deixar esse espaço sempre aberto para novas idéias.
Como é seu novo espetáculo?
Em Olhos Recém-Nascidos, falo que as pessoas podem revolucionar suas vidas aqui e agora. Na minha juventude, o inimigo da sociedade brasileira eram os militares que usurparam o poder na ditadura militar. Hoje, o inimigo está introjetado dentro da gente - são os valores consumistas, egoístas e materialistas. Sou engajada na idéia de micropolítica: de atingir as pessoas que estão ao nosso redor, nas pequenas comunidades e grupos. A revolução não é mais a de sair nas ruas, é nas relações de cada pessoa com o outro.
Você costuma criticar a vaidade. Por quê?
Percebi o quanto ela é triste ao ler um livro do filósofo brasileiro Matias Aires, Reflexões sobre a Vaidade dos Homens (Martins Fontes), de 1752. Ele fala que a vaidade tira a possibilidade do homem de compreender que o mundo foi feito para todos. Mas alguns querem fazer o mundo só para si, que são os grandes imperialistas, a elite financeira.
O que é liberdade para você?
Perceber que estamos todos soltos, largados no espaço, notar que, no fundo, não temos nenhum vínculo. A gente pensa: agora estou sentada em tal lugar, em tal cidade, pertenço a tal família, sou assim e assado. A verdade é que somos potencialmente livres de tudo isso e em construção permanente. Não tem um eu, não há uma coisa estabelecida, tudo é volátil, tudo é possível. Essa é a beleza da vida. Por isso, na liberdade e no amor, você pode romper com tudo e encontrar aquilo que todo mundo, no fundo, almeja - a felicidade.
Como atingir a tal felicidade?
Ela deve ser o nosso intuito. Todos os mestres que eu admiro, como o pedagogo Paulo Freire e o geógrafo Milton Santos, acreditam na possibilidade de transformação do mundo. Não é possível que o mundo permaneça dentro dessas regras que deixam todos acorrentados. A invenção do desodorante, por exemplo, transformou todo mundo com o mesmo cheiro. E isso acabou com a delícia das individualidades. Isso é possível quando quebramos padrões que contêm toda a violência da sociedade em que a gente vive, que faz, por exemplo, o Bush ser reeleito, com o pavor grande de um ataque terrorista.
O que é vida simples para você?
A vida só pode acontecer em sua plenitude se ela for simples. Ora, se ela estiver complicada, não tem vida, tem complicação, culpa, medo, cobranças.
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