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Tá na mesa

O hábito de repartir a comida nasceu com a humanidade e tem vários significados. Por mais simples que seja o cardápio

por Alessandro Meiguins e Mariana Lacerda | foto Cris Berger

No Natal passado, Patrícia usava um vestido azul e tinha nos pés sapatos novos. Quando abriu a porta de seu apartamento, na mesa estavam taças de cristal, velas acesas e pratos arrumados na toalha branca. Naquele dia, ela nos serviu polvo, uma de suas especialidades, com um bom vinho, em uma bela mesa. Foi assim que brindamos ao encontro, à data, à comida deliciosa e à presença do amigo Daniel, que mora longe, mas que, nessa que costuma ser uma noite tão especial, veio para o jantar.

Tudo bem, era Natal, por isso as taças e os sapatos novos. Mas, às vezes, na mesma casa, a comida está tão boa quanto, embora o cardápio seja sopa, Patrícia tenha os pés descalços e o jantar aconteça quase que no improviso. O que faz as duas situações especiais é o encontro. Ninguém gosta de comer sozinho. A comida é um anúncio de que o convidado é, antes de mais nada, bem-vindo.

Desde o começo
Todas as culturas do mundo nasceram, de uma forma ou de outra, de uma organização coletiva pela procura do alimento. Comer junto é um ato que ocorre desde que o homem é homem. Alguns estudiosos vão mais longe e defendem que toda a existência humana pode se resumir em dois grandes prazeres: a comida e o sexo. "Comemos para sobreviver e fazemos sexo para que sobreviva a espécie", diz o sociólogo Henrique Carneiro, da Universidade Federal de Ouro Preto, em Minas Gerais, e autor de Comida e Sociedade, Uma História da Alimentação.

Acontece que a comida e o ato de se alimentar, para os homens, não ficou restrito à sobrevivência (assim como o sexo). "O salto evolutivo do ser humano veio da sua capacidade de criar múltiplas camadas de significados para o alimento", diz Rui Murrieta, biólogo do Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos da Universidade de São Paulo. "Ele é a liga entre várias dimensões e necessidades: a fome do corpo, a vontade de ter boa companhia, o ato de compartilhar um prazer, além dos significados festivos e religiosos." Não por acaso, em todas as religiões o alimento tem um papel sagrado, inclusive na crença mais comum por estas bandas, o cristianismo. Na Santa Ceia, quando Jesus distribui aos apóstolos o pão e o vinho, ele eleva o alimento a símbolo do seu corpo e do seu sangue. Com isso, deixa nessas substâncias uma espécie de ferramenta para que o homem se religue a Ele. E ao céu. Na Antiguidade, povos mesopotâmicos acreditavam que os deuses agiam como os homens e debatiam suas decisões à mesa, em banquetes.

Comer para reunir
Entre os mortais, uma das maiores funções da refeição coletiva é consolidar o grupo, reforçar os laços sociais. Convidamos alguém para se sentar em nossa mesa porque a queremos por perto, porque sua presença nos torna melhores. "Quando você chama um grupo de amigos para jantar em casa, está comunicando que aquele grupo é importante para você", diz Rui Murrieta. E isso ocorre o tempo todo: aniversário do sobrinho, Natal, casamento do primo, campeonato de futebol, despedidas e ausências. Mas pode ser também um café da manhã corrido com o companheiro. Corrido, mas que não deixa de ser a dois e de significar o compartilhamento de mais um dia.

Mesmo o mais prosaico almoço familiar de todo dia, que nunca começa sem que todos estejam em seus lugares, tem seu significado. "É como se firmássemos um compromisso com o futuro. Combinamos implicitamente que daí a um tempo, quando o grupo se reunir de novo, estaremos comendo, brincando e continuando juntos", diz George Barcat, professor de filosofia da Associação Palas Athena, de São Paulo.

Para todos
Em algumas celebrações, o ingrediente principal é a fartura. Comer e beber em quantidade é sinal de vitória e alimenta a esperança de dias melhores. É um momento em que passamos a acreditar mais na vida, consciente ou inconscientemente. "Desde os romanos, no mundo ocidental, a celebração é farta e envolve muitas pessoas. Distribui-se a comida para que todos sobrevivam juntos e, por isso mesmo, comer pouco é uma ofensa", diz Rui Murrieta. Os peões do sertão de Minas Gerais comemoram o nascimento dos novilhos oferecendo às suas famílias um bezerro no espeto. Após passarem um dia inteiro marcando com ferros quentes e castrando as crias nascidas durante o ano, sacrificam um dos animais e chamam todas as pessoas da fazenda para comemorar. Jangadeiros do Ceará, quando voltam de uma cansativa noite no mar carregados de peixes, separam os mais vistosos para a janta em casa, e mandam entregar nas mãos dos familiares parte da pesca. "Da mesma forma que, no final de uma festa, cada convidado leva para casa um pedaço do bolo com docinhos", afirma Rui Murrieta.
De portas abertas
Há encontros em que a comida representa, ainda, um ingresso para novos círculos sociais, um elo para que alguém, mesmo desconhecido, se aproxime. Assim nascem amizades, em atos que misturam oferenda e solidariedade. Durante as festas de outono, em Bangalore, Índia, as portas das casas ficam abertas: nelas, mesas repletas de iguarias para serem divididas com os que chegam. Em importantes festas do calendário judaico, a mesa é posta sempre com um ou dois lugares a mais do que o número previsto de convidados. Se chegar alguém, não importa quem seja, o seu lugar está à mesa. O paulistano Sergio Luís de Almeida Barbosa, que pelo seu amor por cozinhar para os outros tornou-se chef de cozinha em São Paulo, sempre calcula suas receitas para três ou quatros pessoas a mais. "Acontece de chegar alguém sem avisar. E aqui todos são bem-vindos e comem bem."
Falar à mesa
Sim, nos reunimos à mesa para formar ou reforçar grupos, para renovar laços, deixar claro que continuamos juntos. Mas ninguém se senta à mesa, come e vai embora, sem dar um pio. Conversar faz parte da experiência de repartir a comida, afinal nos alimentamos não só do que comemos, mas também ao saborear os afetos e as relações que sabemos existir entre os convivas. As recepções aos guerreiros do rei, na Europa da Idade Média, tinham até um momento especial para falar. Os nobres pediam que as mulheres se retirassem do aposento e então os irmãos de armas trocavam confidências sobre os combates. "Na linguagem que movimenta a vida cotidiana - tão cheia de pressas e hábitos -, a prosa predomina, mas, de vez em quando, abre-se um espaço para a poesia. Isso acontece todas as vezes em que, a despeito da confusão, do cansaço ou das obrigações, achamos um jeito de valorizar um encontro ou uma ação. Nos banquetes, ocorre a inversão, e a festa é da poesia: predominam as cores, os cheiros e os sabores. É a hora do brinde e da reflexão. Pena que, hoje, desdenhemos os discursos. Sem eles, a comemoração fica um tanto sem voz e corre o risco de ser mais um de nossos hábitos sensabores", diz Barcat. Para além da comida, há ainda um outro marco maior: o olhar nos olhos, o riso e tudo o que envolve o alimento. Tem também a oferta de quem elabora o jantar, "porque é uma maneira de não ser esquecida", diz a jornalista Patrícia Cornils, (aquela que no Natal bota sapatos novos e serve bem aos amigos). "Cozinhar é o mesmo que cantar, pintar ou fazer uma catedral para os outros", diz Hector Hermann Bruit, pesquisador do Centro de Memória da Unicamp. Tudo isso é o que une as pessoas, desde tempos de Baco e Dionísio, à volta da mesa.

Para saber mais

Livros
• Comida e Sociedade - Uma História da Alimentação, Henrique Carneiro, Campus
• História da Alimentação, direção de Jean-Louis Flandrin e Massimo Montanari, Estação Liberdade
• História da Alimentação no Brasil, Luís da Câmara Cascudo, Global
• Arqueologias Culinárias da Índia,
• Fernanda de Camargo-Moro, Record
• Banquete - Uma História Ilustrada da Culinária, dos Costumes e da Fartura à Mesa, Roy Strong, Jorge Zahar

Filmes
• A Festa de Babette, de Gabriel Axel, 1988
• • Comer, Beber, Viver, de Ang Lee, 1994
• O Jantar, de Ettore Scola,1998
• Amor à Flor da Pele, de Wong Kar-Wai, 2000

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